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O turismo em tempos de pandemia

Não admira que a Grécia tenha decidido logo no final de maio excluir os turistas provenientes de Portugal, quando havia já a confirmação do achatamento da curva e o pico dos casos já tinha passado. Por isso, mais do que uma preocupação sanitária, a mensagem que se pretendia passar era que a Grécia era segura e Portugal não, o que facilmente se interpreta como uma forma de desviar turistas. Percebe-se a ansiedade. O turismo na Grécia representa cerca de 20 por cento do PIB. Para 2020, as previsões económicas apontavam para um crescimento da ordem dos 2,4 por cento, mas agora, por causa da pandemia, o país espera uma recessão de cerca de 10 por cento e um desemprego a rondar os 20 por cento.

 

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Cascais, Portugal

 

Por outro lado, se olharmos para a atual situação epidemiológica de Espanha, vemos a ressurgência de surtos em várias partes do país, depois de um período muito difícil com elevadíssimo número de casos e mortes. Mas nem por isso a Inglaterra deixou de considerar Espanha um país seguro e excluir Portugal dos corredores turísticos. A opção é tal forma incoerente e incompreensível que provavelmente só pode ser explicada pela necessidade de dar trabalho aos aviões da British Airways e da Ibéria, cujas companhias se fundiram em 2010 para fundar a holding International Airways Group.

Neste verão o turismo é uma tábua de salvação mirífica, mesmo que não resolva os problemas económicos e sociais nem o agravamento da situação que se anuncia, mas sempre funciona como um alívio e como uma forma de ganhar tempo. Ganhar tempo é chave na luta contra a pandemia, de forma a que se controle o vírus e se encontre uma terapia, porque a vacina só para mais tarde. Por isso, os países lutam pelos turistas internos e externos como forma de resistência à crise, ainda para mais depois de terem sido feitos tantos investimentos para garantir melhor a segurança sanitária.

Já se viu, porém, que não há segurança sanitária que aguente o entusiasmo juvenil ou as aglomerações espontâneas contra as regras estabelecidas, próprio do à vontade e descuido da época estival. Mas as perspetivas económicas são tão más, que os países estão dispostos a assumir todos os riscos, até porque hoje já têm melhores condições para controlar os novos surtos.

A verdade é que, segundo os especialistas, mais importante do que o número de novas infeções, é a capacidade das autoridades sanitárias controlarem os surtos, cercando imediatamente os novos casos, seguindo a cadeia de transmissão e isolando os positivos. A verdade é que, nestes tempos de pandemia, seja em que país for, ninguém se pode esquecer de cumprir as normas de saúde pública, o distanciamento social e as regras de higiene.

Pelo seu lado, Portugal tem agido com a maior transparência, divulgando e atualizando diariamente todos os dados, sem esconder nada, o que é fundamental para gerar confiança. Não é o facto de haver novos surtos em algumas freguesias na periferia de Lisboa que deixa Portugal menos seguro do que qualquer outro país europeu, até porque as restantes regiões do continente e ilhas têm poucos ou nenhuns casos ativos.

Mas é preciso reconhecer que há uma luta pelo turismo que tem sido particularmente visível através da imprensa, havendo alguns países que repetem até à exaustão notícias sobre Portugal, de tal forma que leva as pessoas a terem medo de vir de férias.

Numa recente deslocação que fiz a França, percebi a quantidade enorme de desinformação que circula na rádio, jornais e televisões, o mesmo acontecendo noutros países. São notícias enviesadas, distorcidas ou mesmo falsas, que criam perceções erradas, com consequências na decisão das pessoas irem ou não de férias. Em alguma imprensa francesa dizem-se coisas, como, por exemplo, que Portugal ponderava fechar as fronteiras, que o europeu de futebol podia estar em risco, que Lisboa tinha 700 mil confinados, que os que vêm de fora eram mal recebidos ou que a situação inspirava muitos cuidados.

Depois de uma altura em que Portugal tinha só elogios pela forma como desde o início tinha controlado a progressão do vírus, assiste-se agora a uma repetição obsessiva de notícias relativamente aos surtos que surgiram na periferia de Lisboa, em algumas zonas fora dos circuitos turísticos, o que tem efetivamente desincentivado muitos portugueses emigrados e estrangeiros a irem de férias, desmarcando as reservas que tinham. É preciso estar atento a este novo fenómeno de verão e ao impacto que as notícias mais ou menos maldosas têm no estrangeiro.  O caso da notícia falsa na edição de 26 de junho, na capa do El País, a dizer que “Portugal ordena o confinamento de 3 milhões de lisboetas” é um bom exemplo.

Com mais ou menos turistas, parece que o ano de 2020 já não se salva. A União Europeia bem tentou uma concertação razoável, mas os países decidiram enveredar por regras à la carte e critérios duvidosos que se arriscam a ter de rever a cada semana que passa para serem coerentes. Melhor seria que os países procurassem agir de forma coletiva, com transparência, solidariedade e sem excluir ninguém, que é sempre a melhor maneira de gerar confiança, um dos bens mais preciosos nos tempos que correm. E essa seria também a melhor forma de ajudar as pessoas a escolher livremente as suas opções de férias de verão.

Paulo Pisco/Deputado do PS

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