Temas de Capa

O seu a seu tempo

Foi o tempo que perdi com a minha rosa que a fez tão importante. – Saint-Exupéry, in O Principezinho.

Era uma prática muito generalizada queixarmo-nos, amiúde, de que não tínhamos tempo. Há muito deixámos de ter tempo para a família, para os amigos, ou de simplesmente cumprimentar um vizinho. Deixar escapar um olá, ou um bom dia, com quem nos cruzávamos na rua era quase uma perda de tempo. Quantas vezes, dentro de um grupo restrito, nos deparámos com a dificuldade de marcar um simples almoço de convívio, pela dificuldade de encontrarmos um dia disponível? Negociar uma data, a contento de todos, era deveras complicado, diria mesmo uma tarefa hercúlea, sem que o exagero se apresente como uma figura de estilo.

Andávamos todos tão ocupados, que o tempo se tornou no bem mais escasso das nossas tão preenchidas vidas. Ninguém tinha tempo! E, segundo as leis da oferta e da procura, passou a haver um desequilíbrio entre a curva que define uma e outra, porque as pessoas queriam cada vez mais tempo, não tendo o mercado tempo disponível para lhes oferecer. E a máxima “Tempo é dinheiro” começou a ser praticada pelo agiota em potencial que mora em cada um de nós. Houve mesmo quem tivesse querido subverter o calendário do universo, na tentativa de alterar o ritmo dos movimentos de rotação e de translação da terra, para que os dias passassem a ter mais horas. Outros, ao contrário, pediram que a terra andasse ainda mais depressa, para que os seus desígneos se cumprissem muito antes do tempo, porque o tempo das suas vidas era já demasiado curto para o tanto que ainda queriam fazer.

Sem ninguém o prever, o tempo caiu-nos no colo, assim de repente. E nós ficamos com o menino nos braços, como se costuma dizer, sem saber como havemos de cuidar dele. Sim, de cuidar do tempo, uma tarefa que fomos desaprendendo porque nos habituamos a matar o tempo em correrias diárias sem sentido. E tanto matamos o tempo que o tempo morreu. E como vamos agora lidar com este defunto que, sem contarmos, regressou às nossas incertas vidas? Como vamos usar um bem que passamos a ter em excesso?

Vivemos tempos de novas aprendizagens, e uma delas consiste em reaprender a viver com tempo, a discipliná-lo, não lhe dando rédea solta, para que não fique sem nada para fazer. Temos de o meter novamente num relógio, o lugar onde sempre morou, e atribuir tarefas às horas, aos minutos e aos segundos, como outrora fazíamos, cada um a seu tempo, naquele movimento pendular que regia os nossos dias.

Peguemos na nossa agenda – digital, em papel, ou em ambas, como é o meu caso – vazia de todos os compromissos que já não vamos cumprir, e reinventemos outros, dando tempo ao tempo. Restauremos algumas das nossas rotinas, em especial aquelas que ainda são passíveis de serem agendadas no nosso quotidiano e, sem sair de casa, cumpramo-las com o mesmo rigor e cuidado que nos eram exigidos.

Pequenos nadas poderão tornar-se importantes, como foi cuidar da rosa que escolhi como epígrafe. Porque, e invocando ainda o mesmo autor, é loucura odiar todas as rosas porque uma nos espetou. E se este vírus – cuja forma até nos é simpática, por se parecer com a imagem que ilustra O Principezinho – se espetou no nosso caminho para nos dar alguma lição, a de reaprendermos a usar o tempo talvez seja uma delas.

Porque agora sabemos o quão difícil é gerir o tempo que ainda falta para podermos voltar a dar aquele abraço, há tanto tempo adiado. E quando esse dia chegar, o abraço será tão mais apertado, quanto o tempo que levámos a cuidar de o desejar.

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