Temas de Capa

O ritmo da incerteza

Esta é talvez das fases mais difíceis da vida de um artista. Seja ele quem for, faça ele o que fizer. Ser músico em tempo de pandemia significa, para muitos, ter perdido fonte de rendimento e ter, por isso, ganho muitas preocupações. Uma época marcada pela incerteza, mas que pode, no entanto, ser vista de uma forma mais positiva por aqueles que desejam ver crescer online o número de seguidores: o público está fechado em casa, a maior parte com nada para fazer, e por isso tem sede de entretenimento.

As plataformas sociais, sejam elas dedicadas apenas a música ou não, têm sido uma ferramenta imprescindível na vida dos que se sentem entediados e, ainda mais, daqueles que transbordam talento e desejam ser ouvidos. Encontra-se aí uma espécie de balanço: ganha-se fãs enquanto se entretém quem não pode sair das quatro paredes, que os protegem de um vírus que resolveu parar o mundo.
Nesta edição do jornal Milénio Stadium falámos com Reno Silva, músico e produtor musical, que nos dá a perspetiva de quem está por dentro desta realidade.
A luz ao fundo do túnel pode estar intermitente, mas a boa energia e esperança tratará sempre o ritmo certo ao mundo da música.

Milénio Stadium: Apesar de se saber que o mundo do trabalho está já a sofrer com os efeitos económicos desta pandemia, a classe profissional de músicos e produtores musicais é talvez uma das mais afetadas. Que consequências são já visíveis na sua agenda?
Reno Silva: Acho que o mundo musical inteiro, principalmente os músicos que vivem das atuações, noite por noite, estão completamente parados sem forma de ganhar um ordenado. Tudo que é ligado aos shows – as pessoas que trabalham nas vendas de mercadorias, vendas de bebidas, técnicos e muito mais -, estão parados. E depois, do outro lado do problema, os artistas que dependem do público agora têm que encontrar outros percursos de atrair fãs. Mas claro, agora no mundo da música o problema maior é daqueles que vivem só de música a tocar ao vivo. Tenho muitos amigos músicos que estão a sofrer com isso e precisam de ajuda do Governo.
MS: Qual o caminho a seguir nesta fase?
RS: Agora o que eu vejo é uma oportunidade de tentar aproveitar o facto do público estar num só lugar – em casa. Antes, tínhamos que estar sempre atrás do público: aqueles que estavam a conduzir para casa, a ouvir a rádio das 4pm até às 6pm. Mas agora, estão todos em casa. Isto é uma oportunidade para os artistas aprenderem também a promover as suas carreiras. Têm um público à espera, até à procura de alguma coisa para se distraírem do que se está a passar no mundo. Não há desporto, só há música e Netflix para ocupar o tempo. Portanto eu vejo uma grande oportunidade para entrar nos ouvidos do público.

MS: O Reno para além de músico é também produtor musical e gere também a carreira de outros músicos. Até que ponto os planos e projetos que estavam desenhados foram afetados?
RS: Temos artistas que estão em fases diferentes, mas há um caso que foi completamente afetado com esta pandemia. O Peter Serrado, por exemplo, tem o novo álbum que ainda vai ser lançado em maio, mas a turné de divulgação e promoção foi cancelada e não há ainda previsão de nova data. A Ruby também era para começar a desenvolver os ensaios e tínhamos planeado escrever juntos no estúdio, mas com a distância social que temos que respeitar, não dá para fazer como antes, por isso temos que trabalhar através do Skype, Zoom, Whereby. Conseguimos trabalhar, mas não é igual. Neste momento, cada decisão que é tomada no que diz respeito aos nossos artistas baseia-se nos parâmetros que temos que cumprir. Mas esta fase também dá a oportunidade de praticarem as músicas, escrever novas músicas e fortalecer o talento enquanto estão em casa.

MS: Temos visto alguns artistas da MDC Music numa espécie de concertos caseiros, no Instagram Live. Qual é o objetivo? Manterem-se próximos do público?
RS: Os objetivos são vários, principalmente distrair o público das notícias do mundo. O trabalho de um artista será sempre fazer um espetáculo para entreter a malta. A fazerem essas atuações pelas redes sociais ganha-se sempre um ou mais fãs – agora mais do que nunca. Mas também serve para continuar a promover o seu nome, é uma oportunidade única para oferecer uma atuação especial, com um show tipo unplugged a partir de casa. O público pode aproveitar e ver um lado do artista que talvez nunca viram.

MS: Apesar de tudo, como encara o futuro?
RS: Há muita incerteza, ninguém sabe bem como é que o mundo da música vai funcionar daqui para a frente. Apesar de tudo o que está a acontecer, nós ainda queremos música, ainda ouvimos música. Nós ainda queremos saber das vidas dos artistas de que somos fãs. Isso tudo nunca muda, mas o que vai realmente mudar será a forma que iremos ver um show. Não sei quanto tempo vai levar para que tudo volte ao normal, mas acho que talvez no princípio só poderá haver espetáculos com 200 pessoas de cada vez. Nos clubes pode até ser mais rápido, mas nos festivais ao ar livre, nos estádios e arenas vai levar muito tempo – não só ter a aprovação para juntar milhares de pessoas, mas para as pessoas se sentirem seguras.

Catarina Balça/MS

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