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“ O racismo é aprendido”

A desigualdade racial acontece diariamente na nossa sociedade e instituições de várias formas, a vários níveis. Em casos extremos leva a perda de vidas e têm sido casos recentes, como a morte de George Floyd, que despoletaram uma nova onda de protestos por todo o mundo. Nesta edição abrimos espaço para elevar vozes importantes nas conversações sobre racismo e desigualdade, com foco em Toronto e no Canadá. Para isso contamos com Nigel Barriffe, presidente da Urban Alliance on Race Relations, que nos dá uma visão aprofundada nesta questão.

Nigel Barriffe, presidente da Urban Alliance on Race Relations

Milénio Stadium: Grande parte dos incidentes que vemos nas notícias aconteceram nos Estados Unidos. E no Canadá, como é o cenário no que toca ao racismo?

Nigel Barriffe: Aqui no Canadá também temos vários casos. Vemos as pessoas da comunidade negra e da comunidade indígena a morrer desproporcionalmente em comparação com a população restante sempre que a polícia está envolvida. Internacionalmente, vimos o assassinato de George Floyd. Aqui em Toronto, vimos os casos recentes de Korchinski-Paquet, que morreu enquanto foi fechada por um polícia no seu quarto, vimos D’Andre Campbell, que chamou a polícia e a visita acabou na sua morte. E vemos isso a acontecer em todo o país. E talvez por isso este é um momento divisor de águas ou um momento de acerto de contas, em que precisamos de descobrir como podemos ter serviços para as pessoas, mudar o financiamento da polícia, realocar os recursos para que possamos criar uma resposta mais segura, orientada para a comunidade, para pessoas de comunidades negras e indígenas. No momento, a única coisa disponível para alguém ter ajuda é ligar para a polícia. No entanto, o que os dados e as pesquisas demonstraram é que, desproporcionalmente, negros e indígenas acabam mortos quando a polícia é chamada.

MS: Chegámos a um ponto em que as pessoas estão a dizer “chega”. A que possibilidades nos pode levar este momento?

NB: Não sei. O que sei é que rezo para que o meu filho de quatro anos não tenha que enfrentar este tipo de violência quando chegar à minha idade. Mas, com isso dito, estou otimista agora que estamos a ter conversas em público sobre esse problema. Agora temos que pegar nos nossos recursos e investi-los nas comunidades, investi-los em melhores habitações, em melhores transportes, em cuidados de saúde, em melhores salários para os trabalhadores das áreas da saúde. Essas são as áreas que vão ajudar todas as comunidades a serem mais seguras. E assim poderemos parar de perder vidas desproporcionalmente em comunidades negras.

MS: Como é que esta mensagem pode chegar a outras pessoas que têm uma mentalidade mais fechada e o que é que os jovens podem fazer para serem ativos neste assunto?

NB: Eu penso que essas mudanças, seja o movimento de mulheres, movimento de direitos civis, movimento antiguerra… tudo isso muda com protestos. O protesto é algo importante para poder fazer mudanças positivas na nossa sociedade. Mas a mudança também envolve votar! Precisamos garantir que os nossos jovens, que tradicionalmente não votam… votem! Precisamos de pessoas que protestem de maneira a empurrar a questão para cima. Neste caso, estamos a falar sobre a maneira como a polícia trata os negros e os indígenas, mas precisamos de garantir que as pessoas votem, no geral. Que votem em políticos que farão a mudança. E então, depois de eles chegarem ao poder, temos que continuar a manter a pressão sobre as pessoas que chegaram aos seus cargos e estão no poder.

MS: Temos assistido a alguns protestos violentos. Que visão tem destes episódios? Poderão estes comportamentos comprometer a verdadeira mensagem desta causa?

NB: Eu acho que há duas coisas a considerar. A primeira é que estamos a falar de 500 anos de opressão de um grupo de pessoas. E se não chamarmos a supremacia branca à atenção, se não reconhecermos e falarmos que os negros são iguais aos brancos, esse tipo de revoltas continuarão a acontecer. A minha preocupação é mais com a reação da polícia. Eu já vi muitos exemplos em que parece que a polícia está a instigar muitos casos, a instigar reações violentas em pessoas e em manifestantes. Durante o G20, há apenas alguns anos, a polícia foi apanhada a imitar ou a fingir ser os manifestantes, e foram eles que causaram o caos e a destruição que aconteceu nas ruas. Então, sim, temos que reconhecer que há manifestantes pacíficos, a maioria das pessoas por aí está a protestar pacificamente e a exercitar os seus direitos democráticos.

MS: Que conselho deixa para que todos possamos ser ativos no nosso quotidiano e gerar mudança?

NB: O racismo é aprendido. As crianças nascem inocentes, elas nascem a amar. Nós, adultos, é que causamos a impressão no crescimento delas. Eles aprendem a odiar. Temos que conversar com nossos filhos sobre racismo de maneira apropriada para eles. Não podemos ter medo, não podemos mentir, precisamos apenas de conversar com eles sobre o que é. E acho que especialmente crianças de famílias brancas, fazê-las entender que podem usar os seus privilégios para ajudar, para serem aliadas das pessoas negras. E é importante que todos conversemos com os nossos amigos e familiares sobre como podemos apoiar e melhorar as coisas para todos nós. Porque se algumas pessoas da sociedade estão a sentir que estão a ser oprimidas pela polícia, isso não é bom para ninguém. E precisamos de garantir que temos moradias decentes, salários decentes, bons transportes, essas são coisas que são boas para todos. Portanto, é importante que conversemos com pessoas, especialmente pessoas de diferentes comunidades, sobre o que está a acontecer. Oferecer apoio e simplesmente estar presente.

Telma Pinguelo/MS

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