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O meu acordo com Deus

História de um relacionamento, nem sempre fácil, entre ciência e a religião

Apesar de ter uma educação católica, a área das ciências sempre foi algo que me deixou fascinado. Já de tenra idade, lembro-me de começar a não aceitar “porque sim” como resposta a qualquer pergunta e a não aceitar respostas dadas como certas por outros como aquelas que se devem seguir de olhos vendados. As pessoas ligadas à área das ciências são curiosos natos. Observadores e céticos incorrigíveis.

Lembro-me de faltar à catequese sistematicamente e de não conseguir perceber a razão das coisas mais simples na celebração da eucaristia dominical, a que, a certa altura, só ia por obrigação.

O relacionamento entre a ciência e religião remonta aos primórdios da humanidade. Desde o momento em que o Homem começou a adquirir conhecimento sobre o que se chama de “realidade”, muitas foram as críticas e incompatibilizações entre um pensamento que transcende o natural e aquele que o considera seu limite.

A procura pelo esclarecimento era feita sob a forma de cultos a divindades e recurso à mitologia. Tudo o que não tinha explicação lógica era atribuído à intervenção divina. São exemplos a civilização egípcia e grega. Filósofos como Platão e Aristóteles começaram a mudar esse paradigma e a usar a razão como base para a aquisição desse conhecimento.

“Apologia de Sócrates”, de Platão, foi o livro que mais impacto teve na minha vida. O julgamento de Sócrates (469-399 A.C.) foi um dos factos históricos mais importantes da Grécia Antiga e até hoje inspira escritores, artistas e filósofos. Em 399 A.C., o posicionamento crítico de Sócrates pareceu uma afronta aos costumes da cidade e foi incriminado, julgado e condenado à morte por envenenamento sob as acusações de não adorar os deuses da cidade, tentar introduzir novas divindades e corromper a juventude com as suas ideias. Sócrates decidiu conduzir a sua própria defesa e deu origem a variadíssimas obras filosóficas que assumem ramificações religiosas, políticas e éticas, mas acima de tudo o pensamento crítico.

A ciência e a religião são áreas que se distanciam a cada progresso tecnológico que permita explicar fenómenos antes tidos como “milagres” ou provenientes de qualquer outro tipo de intervenção divina. Escolher uma das duas vertentes como forma de analisar a nossa existência pode ser uma experiência difícil, visto que ambas possuem pontos de vista distintos sobre assuntos conhecidos por toda a humanidade, como por exemplo o surgimento dos seres humanos.

Há quem defenda o contrário. Ciência e religião podem caminhar lado a lado e que ambas não só não se antagonizam, como se complementam. Para tal baseiam-se em dados históricos e no facto dos maiores avanços na ciência, nos primórdios da civilização, terem sido desenvolvidos por pessoas diretamente ligadas à Igreja.

Copérnico era um cónego católico polaco, mas foi quem provou cientificamente que a Terra gira à volta do Sol e não o contrário. É o heliocentrismo, tese publicada em 1543. Foi abominado por Lutero e os católicos, mas a verdade científica triunfou.

O pai da genética moderna é Mendel, um monge católico que em 1847 decifrou o código genético pelas sementes de ervilha e toda herança genética que passa de um ser vivo da mesma espécie para o outro.

A teoria do Big Bang, do átomo primordial, que deu origem ao universo que conhecemos e toda sua evolução, é de um padre belga chamado George Lemaître.

Outro exemplo é o de Galileu Galilei, o primeiro a fazer uso sistemático do telescópio. Confirmou a teoria de Copérnico, mas teve que renunciar à sua afirmação científica para não ser condenado à fogueira, assim como tinha acontecido com Giordano Bruno. Hoje os telescópios giram à volta da Terra, descobrem novas galáxias, novos planetas e tentam descobrir onde podem existir outras formas de vida. Qual vai ser a posição das mais variadas religiões no dia em que se descobrir vida inteligente para além da Terra?

Relativamente à Igreja Católica Apostólica Romana (Vaticano) e às sagradas Escrituras, há, desde logo, pontos fraturantes que na minha opinião não têm explicação e são contrários a tudo o que interpreto e acredito:

  • Adão e Eva e a criação do universo;
  • Ostentação de símbolos de adoração nos lugares de oração;
  • Adoração à mãe de Jesus Cristo, a Santos e outras figuras eleitas por meros mortais;
  • Atos de sacrifício (crucificações e promessas de joelhos ou de outra forma qualquer a lugares de peregrinação, etc…);
  • Ostentação de riqueza evidente por parte das diversas estruturas religiosas;

Acho incompreensível o evidente alheamento de problemas na humanidade que deveriam ser prioridade da Igreja nos dias de hoje (fome, pobreza, entre muitos outros). De palavras e belos discursos na Praça de S. Pedro e na missa de domingo está o mundo cheio. Da mesma forma que não percebo a inação da figura máxima da Igreja, o Papa, perante problemas tão graves dentro da própria igreja, como por exemplo os casos de abuso sexual a menores.

Outros dos temas mais complicados seriam, certamente, as aparições, os milagres e as experiências religiosas, por exemplo – devemos acreditar na medicina ou na cura pela fé?

Lembro-me das visitas a Fátima e recordo-me de achar que estava no lugar errado. Nada do que via naquele lugar de adoração fazia qualquer sentido. As pessoas ajoelhadas durantes centenas de metros ou quilómetros, o cheiro nauseabundo das velas a arderem incessantemente colocadas por peregrinos que passam o ano inteiro a violar as regras mais básicas das sagradas escrituras, os padres carregados de ouro, as figuras religiosas imponentes, os comerciantes e o negócio gerado à conta dos fiéis, muitos em situação de desespero e a aguardar algum género de conforto e intervenção divina.

Não me caberá  a mim julgar, mas perante triste espetáculo, lembro-me sempre da passagem bíblica (Êxodo 32:1/6) em que Moisés subiu ao Monte Sinai e que quando desceu, com os 10 mandamentos, 40 dias mais tarde, encontrou o povo israelita em festa e um bezerro de ouro, que seria a imagem do Deus que levariam à sua frente na jornada que se avizinhava. Diz a Bíblia em Êxodo 32:20 que Moisés “Pegou o bezerro que eles tinham feito e o destruiu no fogo; depois de moê-lo até virar pó, espalhou-o na água e fez com que os israelitas a bebessem”.

Nada mudou! Apesar de acreditar em Deus, hoje apenas entro num lugar sagrado por obrigação. Continua a incomodar-me tudo o que por ali vejo e muito pouco faz sentido.

Não tenho a presunção de ser um perito na matéria, mas perante tanta ambiguidade, ousei fazer um acordo com Deus. Um acordo que seguisse a Sua vontade e ao mesmo tempo não violasse as minhas convicções científicas.

Segundo as Sagradas Escrituras, Deus criou o Homem à Sua imagem. Diferenciou-o dos demais animais dando-lhe inteligência e opção de escolha. Acredito que o facto de ser um aficionado das mais diversas ciências e um curioso nato, observador e cético incorrigível, o devo a Si. A Ele devo todas as todas as dúvidas, questões sem resposta, aceitações e reprovações.

Assim sendo, em primeiro lugar, entendi interpretar as lições das Sagradas Escrituras à minha maneira e não deixar que sejam outros a fazê-lo por mim. Sendo um agregado de textos escrito por diversos autores, em épocas diferentes, extremamente opinativo e sugestivo, requer uma adaptação aos tempos modernos e uma interpretação pessoal de cada uma das passagens e parábolas ali inscritas. Assumir que a Bíblia é um agregado de regras intocáveis e transversais no tempo é, na minha opinião, um erro com o qual não alinho.

Em consciência decidi também que o meu lugar de culto de preferência são os momentos em que falamos, apenas e só, na confidência da minha mente e que seguiria o mais possível, dentro das suas orientações, os princípios e valores básicos transmitidos ao longo dos tempos na Bíblia, que acho terem fundamento e serem padrões de um cristão praticante, sem violarem as minhas convicções científicas. Princípios e valores que entendo serem fundamentais à sociedade moderna e que, infelizmente, cada vez mais estão em desuso.

Admito que não sei se tenho desempenhado o meu papel com nota positiva, nem tampouco sei se aceitou este acordo muito feito à minha medida, mas a Ele me confesso e a Ele, um dia, prestarei contas.

Carlos Monteiro/MS

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