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O Canadá para mim

O segundo maior país do mundo e no entanto, em geral, as pessoas sabem tão pouco sobre ele. Um país recente, sem grandes guerras ou escândalos, passa despercebido ao olhar do público. Contudo, quando se fala no Canadá a primeira coisa que vem ao pensamento são os invernos frios, a possibilidade de ver ursos e a ideia de que aqui todas as pessoas são simpáticas.

Vim aqui parar por acaso, coisas do destino, que me deram a oportunidade de vir para este país. Nunca tinha tido sequer curiosidade de o conhecer, mas hoje acho que já faz um bocadinho parte de mim. Lamentações e frustrações à parte, estou satisfeita com a escolha que fiz ao vir para aqui. É sem dúvida um país que nos dá muitas oportunidades, aberto à imigração e à aceitação da diferença e de outras culturas. A igualdade aqui é maior do que em Portugal, ou pelo menos a luta por ela. E acho que em geral, existe uma maior consciência social, apesar de ainda haver muito por fazer.

No entanto, também existem ideias preconcebidas que não correspondem à realidade. Como a ideia de que todas as pessoas são simpáticas, quando quem cá está sabe que basta utilizar os transportes públicos para mudar essa ideia. E além disso, vemos o Canadá como um exemplo, país defensor dos direitos humanos e da igualdade. E não é que não seja, mas ignora-se um passado mais obscuro com as comunidades indígenas e o longo caminho que ainda tem de percorrer para que sejam integrados. São muitos os que pensam que como a qualidade de vida é maior, existem menos problemas sociais, mas pelo menos na cidade, são cada vez mais os casos de problemas relacionados com saúde mental, vícios e pobreza.

Já sabemos que não existem países perfeitos, e é indiscutível que este é um dos melhores, senão não estaríamos aqui. Há que ter consciência dos defeitos e gratidão pelas inúmeras qualidades. Quando mudamos de país temos de tentar abraçá-lo ao máximo, e isso implica aprender a língua, conhecer e respeitar a cultura e a sua história.
Quando me mudei para aqui percebi que existe uma comunidade portuguesa muito grande o que é ótimo quando sentimos saudades de casa e até uma forma de manter as nossas tradições. No entanto, há décadas que a comunidade portuguesa acaba por se fechar entre si devido à barreira linguística. É compreensível que se procure o que é familiar, mas se fizermos apenas isso, estamos a limitar-nos a nós próprios. Já as novas gerações, que têm mais facilidade com a língua, querem integrar-se completamente e procuram ter uma participação mais ativa na sociedade canadiana. Para mim é impensável viver aqui e não tentar ter cidadania, quero poder votar e ter uma voz nas decisões que afetam o meu dia-a-dia.

Na minha opinião, muitas pessoas não tentam ter cidadania canadiana porque acham que isso os torna menos portugueses. Não sei se é o nacionalismo, se estão agarrados ao passado ou é apenas preguiça, mas se é aqui que vivemos, então temos de nos adaptar e integrar. Muitos têm planos de ir embora, mas acabam sempre por ficar “só mais um tempo”. Escolher ter cidadania canadiana não nos faz menos portugueses, é apenas o reconhecimento de que agora é aqui que vivemos, foi o país que nos acolheu, e queremos os mesmo direitos e os mesmos deveres.
Na grande maioria, eu incluída, viemos para aqui para juntar dinheiro, mas já que aqui estamos, vamos aproveitar ao máximo para contribuir e fazer o melhor que podemos. Não me sinto canadiana, e ainda me considero “fresh out the boat”, mas quanto mais tempo aqui estou, mais sinto que faço parte deste país e que este país começa a fazer parte de mim.

Inês Carpinteiro


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