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O Brasil e o impacto da pandemia

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A pandemia é uma condição sanitária em que ocorre a disseminação mundial de uma doença desconhecida que se transmite de pessoa a pessoa. Essa situação, não inédita, mas sempre inesperada, foi declarada pela OMS em março deste ano e atingiu como um verdadeiro tsunami todos os âmbitos da nossa sociedade. Setores da economia, saúde, educação e entretenimento estão tendo que se adaptar à nova fase. Independentemente da condição econômica do país, os chamados de “primeiro-mundo” ou os em “desenvolvimento”, todos estão sentindo o baque violento em suas estruturas e precisando correr contra o tempo em busca da vacina. Somente a vacina pode sinalizar o término dessa crise, que ouso comparar a uma guerra mundial.

Diante do exposto, destaco o Brasil, um país em plena crise política e econômica desde 2014, que tem sofrido ainda mais os efeitos da pandemia com esse agravante.

Cabe dizer também que, infelizmente, o número de mortes não foi suficiente para alertar e conscientizar a maioria das pessoas sobre a gravidade da situação. O que se observa atualmente no Brasil é uma população que, em sua maioria, vive uma normalidade assustadora: continuam se aglomerando e não restringindo contatos. E isso nada mais é do que o reflexo da crise política e institucional que o país atravessa, tendo em seu governo hoje, o exemplo máximo para não seguir as recomendações da OMS.  Desde o início, esse governo não conduz com seriedade o grave problema de uma pandemia e, chegou a nomear até, o tal vírus, de “gripezinha”.

É importante levantarmos esse ponto, pois nos faz compreender o porquê do número absurdo de contágios e mortes no país, o que gera uma triste expectativa a curto e médio prazo:  um aumento ainda mais elevado em relação a esses números e a aproximação de uma segunda onda, sendo que nem mesmo a primeira foi controlada.

Muitas pesquisas e estudos já foram realizados em todo o mundo sobre o impacto em diversos setores nesses oito meses de controle da pandemia.

Inicialmente, no setor econômico, há o destaque sobre o que o Fundo Monetário Internacional resumiu essa crise mundial: “Uma crise como nenhuma outra, uma recuperação incerta.”

Economia

No Brasil, prevê-se a recessão mais profunda em pelo menos 120 anos, período o qual há dados oficialmente registrados. Essa previsão foi comunicada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A contração seria ainda maior não fosse a decisão do país de injetar expressivos recursos na economia, que levarão o Brasil a registrar um déficit histórico nas contas públicas e vão levar o seu endividamento a um patamar inédito, como mostram a projeção da Instituição Fiscal Independente, um órgão do Senado, e do próprio governo Federal. Paulo Guedes, Ministro da Economia, eliminou qualquer chance de recuperação do crescimento brasileiro neste ano.

Os setores mais afetados por essa crise são: comércio, serviços, que vinham puxando a economia brasileira há um bom tempo. O setor de indústria, vinha operando em níveis modestos.

A inflação em níveis baixos tem permitido ao Banco Central reduzir os juros para o menor patamar da história recente, mas a reação da atividade a esse novo piso ainda é incerta.

Saúde mental com destaque para trabalhadores essenciais

Sintomas de ansiedade e depressão afetam 47,3% dos trabalhadores de serviços essenciais durante a pandemia de Covid-19, no Brasil. Mais da metade deles — e 27,4% do total de entrevistados — sofre de ansiedade e depressão ao mesmo tempo. Além disso, 44,3% têm abusado de bebidas alcoólicas; 42,9% sofreram mudanças nos hábitos de sono; e 30,9% foram diagnosticados ou se trataram de doenças mentais no ano anterior a uma pesquisa coordenada pela Fiocruz, e feita em parceria com outras instituições.

Covid-19 nas favelas

Nos grandes centros urbanos, o impacto da Covid-19 nas favelas tem se mostrado mais acentuado por conta de vulnerabilidades estruturais. Segundo a análise, o fato das taxas de incidência da Covid-19 serem maiores nos bairros sem favelas ou com baixa concentração dessas, em comparação com os bairros de “altíssima concentração”, pode ser em parte explicado pelo baixo acesso à testagem pelas populações desses territórios.

Foi observado que os bairros com alta e altíssima concentração de favelas apresentam maior letalidade (19,47%), o dobro em relação aos bairros considerados “sem favelas” (9,23%). Isso indica, segundo os pesquisadores, tanto uma falta de acesso ao diagnóstico em tempo adequado, quanto problemas de acesso aos serviços de saúde de maior complexidade assistencial. 

Povos indígenas e Covid-19

Os povos indígenas são particularmente vulneráveis à Covid-19 e às suas graves consequências, devido a fatores históricos e socioeconômicos. A circulação do Sars-CoV-2 no Brasil resultou em progressiva proporção de indígenas em municípios em alto risco imediato para pandemia, afetando, rapidamente, os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI).  A taxa da mortalidade entre indígenas, dependendo da faixa etária, chega a ser até 150% maior do que a de não indígenas.

Os dados disponibilizados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) evidenciam taxas de mortalidade por Covid-19, progressivamente mais elevadas a partir dos 50 anos nos indígenas, em comparação à população geral. Esse fato traz um alerta para impactos socioculturais da pandemia: os indivíduos de mais idade são os guardiões dos conhecimentos tradicionais, línguas e da memória das lutas históricas desses povos.

Organização dos sistemas de saúde

Outro tema destacado, “A organização dos sistemas de saúde” ressalta que a desproporção entre óbitos e casos registrados expõe fragilidades acumuladas em função do subfinanciamento e problemas de gestão, reforçando a necessidade do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). A avaliação da capacidade instalada no país para atender pacientes graves de Covid-19 revelou as grandes desigualdades entre as regiões e a forte concentração de recursos voltados para o setor de saúde suplementar em áreas específicas.

Covid-19 e desigualdades sociais

Na abordagem sobre o Covid-19 e desigualdades sociais, é enfatizado o fato de que a pandemia deixou mais explícitas as injustiças estruturais.  Segundo a análise, as diferenças observadas nos indicadores de saúde entre os mais ricos e os mais pobres, independentemente da região geográfica, deixam ainda mais claro o papel dos determinantes sociais no processo de adoecimento e morte da população mais carente.

Os pesquisadores alertam que, embora o número de casos, especialmente os fatais, venha mostrando paulatina redução, não há sinais de adesão da população às normas elementares de proteção individual.

Mudanças de hábitos alimentares de adolescentes na pandemia

Estudo publicado no periódico científico Nutrients mostrou que os adolescentes de cinco países, incluindo o Brasil, tiveram consumo modificado de alimentos fritos, alimentos doces, legumes, vegetais e frutas durante o confinamento indicado para redução da transmissão da Covid-19. A pesquisa, que revela o aumento do consumo de frutas e hortaliças durante o distanciamento social, também observou maior ingestão de doces e frituras entre os jovens. O estudo teve participação da pesquisadora da Ensp Letícia Cardoso, da professora da UFRJ, Patricia Padilha, e fornece a primeira descrição de como a pandemia de covid-19 alterou as tendências na alimentação de adolescentes da Espanha, Itália, Brasil, Colômbia e Chile. A iniciativa teve a liderança do Dr Alberto Davalos, do Instituto Madrilenho de Estudos Avançados em Alimentação.

O isolamento durante a pandemia de covid-19 afetou a alimentação, especialmente dos adolescentes, que são altamente suscetíveis a adquirir maus hábitos alimentares. Intitulado “Covid-19 Confinement and Changes of Adolescent’s Dietary Trends in Italy, Spain, Chile, Colombia and Brazil”, o artigo mostrou os resultados do estudo que descreveu as mudanças na dieta durante o confinamento dos adolescentes de 10 a 19 anos e identificou os fatores que podem ter influenciado as alterações.

Violência contra mulher

Apesar de ser um crime e grave violação de direitos humanos, a violência contra as mulheres segue vitimando milhares de brasileiras reiteradamente. No contexto da pandemia de covid-19 assistimos perplexos o crescimento de ocorrências de violência doméstica e sexual. 

Os dados mais recentes sobre feminicídios, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que uma mulher é morta a cada sete horas, apenas por ser mulher. O Brasil está no 5º lugar no ranking mundial do feminicídios. Uma mulher sofre violência doméstica a cada dois minutos. O país bateu recorde de registros de estupro. Quase metade das brasileiras já sofreu assédio sexual no trabalho.

O maior tempo vivido em casa aumentou também a carga do trabalho doméstico, o convívio com crianças, idosos e familiares e a ampliação da manipulação física e psicológica do agressor sobre a vítima, o que contribuiu para a eclosão de conflitos e para o acirramento de violências já existentes. O aumento de casos de violência doméstica passou a ser sentido em grande parte dos países que decretaram quarentena, conforme informado pela ONU Mulheres nos primeiros meses de isolamento social. 

Podemos esperar, diante dos primeiros estudos e pesquisas, muitas consequências difíceis de enfrentar, não só no Brasil, mas no mundo. O impacto se vê em todos os lugares. O que precisamos definitivamente, é estar cada vez mais preparados e colaborarmos com os órgãos de saúde e suas recomendações, para que o prejuízo não seja ainda maior. Adaptação também é muito importante e talvez a chave para encontrarmos novas soluções diante dos problemas que essa fase em que o mundo vive nos deu. Depois de uma guerra, há que se pensar na reconstrução.

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz

Adriana Marques/MS

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