Temas de Capa

O bife e os gases das vacas!…

Neutralidade carbónica, gases com efeito de estufa, emergência climática, fenómenos atmosféricos extremos, pegada ecológica, agricultura biológica, etc, são alguns dos palavrões de base científica com que nos têm bombardeado há uns anos e com mais insistência nos últimos meses, a propósito das manifestações sobre o tema que ocorrem por todo o mundo.

Tendo eu crescido, tal como muitos dos meus compatriotas, no período do pós-guerra, em que o modelo económico do carbono foi a base da revolução industrial, permitindo ao mundo em geral um notável desenvolvimento, estaria longe de pensar que, por essa razão, estaríamos a cavar a sepultura do próprio planeta e, consequentemente, da nossa existência.

A minha geração foi assim, e progressivamente, consciencializando-se dos perigos causados por um modo de vida tido como um ideal de bem-estar e condenando todos aqueles que, embora conscientes dos riscos, salvaguardavam os seus interesses económicos e financeiros particulares, nada fazendo para os evitar.

A pouco e pouco e à medida da alteração das nossas capacidades e à sua necessária compatibilização com os nossos interesses individuais e coletivos, o mundo consciente foi-se adaptando à necessidade de diminuir o aquecimento global, provocado pelo gás carbónico emitido por carros, fábricas e pela utilização generalizada dos combustíveis fósseis. Carros elétricos, energias renováveis, diminuição dos plásticos, agricultura biológica, reciclagens, proteção dos recursos naturais e tantas outras expressões congéneres, foram entrando no nosso léxico habitual e nas nossas preocupações quotidianas, como indispensáveis ao nosso esforço individual e coletivo para preservar o meio ambiente que nos é indispensável.

Embora conscientes de que a nossa atitude pessoal ou nacional seja apenas uma pequena ajuda para a transformação das mentalidades e ações essenciais ao nível mundial, os exemplos particulares das alterações climáticas em cada país ajudam-nos, pela proximidade, a compreender a dimensão do problema, a sensibilizar-nos para as ações convenientes e a alertar-nos igualmente para as nossas próprias contradições. Tal é o caso de Portugal, em que a seca persistente afeta grandes regiões do nosso Alentejo e Algarve, criando graves problemas às nossas populações locais e respetivas culturas agrícolas, mas que, em contrapartida, somos o país europeu que, em média, gasta mais água e, curiosamente, o que consome mais água engarrafada.

No meio das nossas próprias contradições portuguesas e daquelas que, eventualmente, possam afetar aqueles que se afirmam como defensores da neutralidade carbónica, surgiu há dias uma disposição da reitoria da Universidade Coimbra (UC) proibindo a utilização da carne de vaca nas cantinas universitárias, em nome da emergência climática.

Este anúncio deixou perplexos todos aqueles que gostam das proteínas de um bom bife de vaca e todos os que, não sendo amantes do bife, gostam da carne deste tradicional mamífero cozinhada em mil e uma combinações.

Não sei se esta decisão do Reitor da UC visa forçar uma lei nacional nesse mesmo sentido, ou se foi um ato do seu desespero perante as ameaças ao clima mas, embora tenha suscitado divergentes perspetivas na opinião pública portuguesa e muitas críticas, nomeadamente nos criadores de gado bovino, há uma substancial razão nesta posição do Reitor.

De facto, e durante a digestão dos animais (bois, vacas, porcos, ovelhas, cabras e outros), estes produzem gás metano (um gás 20 vezes mais prejudicial ao ambiente do que o dióxido de carbono), que sai pela boca e pelo ânus desses animais, atingindo valores que são cerca de 90% do metano que é libertado para a atmosfera.

Admitindo cientificamente que o dióxido de carbono e o metano são gases poluentes, causadores do efeito de estufa e que mesmo a quantidade desses herbívoros produtores desse gás em Portugal é diminuta face aos grandes produtores mundiais desse gado, este assunto é sério e não pode ser publicamente desacreditado pelas piadas brejeiras à flatulência e arrotos desses animais.

No entanto, o alarmismo da reitoria da UC, talvez para nos recordar da emergência da situação climática, excederam a razoabilidade do que é possível fazer com as vacas e outro gado, para diminuir as emissões de metano.

É igualmente reconhecido por especialistas científicos que a alteração da dieta destes animais e o tempo de abate reduzem razoavelmente as suas emissões de metano, para além de que o seu pasto natural, só por si, consegue preservar nos solos mais gás metano do que aquele que é expelido pelos animais. Situação que pode reduzir o alvoroço agora causado pelo Reitor da UC e um estímulo à criação de uma legislação consequente, mais amiga do ambiente e do homem!

Por isso e enquanto este assunto não estiver completamente esclarecido e sem alarme, mas igualmente sem sonegação de uma informação correta e comprovadamente científica, os leigos, como eu e tantos outros, continuarão a degustar os seus “bitoques” e as vacas “bufando” e andando nos prados verdejantes do nosso país, sem nos sentirmos culpados (mas também inteiramente desculpados…) dos desastres do nosso planeta!

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