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O berço de uma nova etapa

Pouco a pouco vamos vendo uma luz crescente ao fundo do túnel. A transição do isolamento para a rotina normal dá-se lentamente e com cautela. A balança do mundo tem estado numa disputa renhida: de um lado a economia, o sustento, e do outro a sobrevivência das populações. Eventualmente percebemos que sem uma boa economia há pouco, mas sem pessoas não há nada. E por isso optámos por um sacrifício global, em prol de um bem maior. No meu último texto pessoal sobre a pandemia, comentei que “acredito que a adversidade pode sempre transformar-se em vantagem. Chegando perto do fim da temporada de confinamento, começamos a perceber e a sentir que a COVID-19 não foi apenas um vírus. Foi um fenómeno. E mudou-nos, a cada um de nós, de alguma forma”.

Quando as restrições forem aliviadas, o coronavírus vai continuar a afetar as nossas vidas de várias maneiras. Sabemos que nada vai regressar ao que era do dia para a noite. E sabemos que é cem por cento impossível voltar a uma realidade igual à dos primeiros dias de 2020. Mas afinal o que será que vai voltar ao que era antes e o que é que pode mudar para sempre? Eis o que eu penso, e começamos pelos negócios:

A COVID-19 está a ser o maior choque do século para os negócios. É um divisor de águas. Muitos setores já estavam a passar por uma crise antes da pandemia. Os negócios que já estavam bem de saúde vão sobreviver, enquanto os efeitos do coronavírus vêm ditar o derradeiro fim dos que já estavam fragilizados.

No campo do trabalho, a pandemia traz-nos a realidade do home office, um modelo que já era praticado por algumas empresas e que se prevê que agora vá atingir números exponenciais. Se isso acontecer, outros setores sentirão a diferença, como o mercado imobiliário e o setor dos transportes. Muitas pessoas deixam de precisar de morar perto da empresa e de fazer a sua comuta diária. Será que assistiremos a uma descentralização do tecido populacional em torno das metrópoles? Fica no ar a hipótese.

Entretanto também o ensino passou a ser feito à distância, com aulas online. Pode ser uma tendência para continuar, em menor escala do que o regime home office.

Socialmente, o isolamento despoletou um senso de compatriotismo que continuará por um bom tempo após as restrições serem levantadas. Apesar disso, e apesar das saudades da nossa família e amigos, da nossa vida normal, no pós-pandemia haverá sempre um certo distanciamento e desconfiança social. Continuaremos a ver máscaras na rua, poucos apertos de mão, menos interação física, menos proximidade. Na minha visão pessoal isso não nos vai desconectar uns dos outros – deixamos esse papel para as redes sociais, os verdadeiros sabotadores de relações genuínas. Os encontros, convívios, as saídas e partilhas vão voltar a acontecer, apenas sem esses gestos. O amor não está nos apertos de mão nem nos abraços, está na oferta do nosso tempo e da nossa presença e creio que esses elementos são suficientemente fortes para nos manter perto.

Aproveitando a deixa do fator humano na pandemia, vou falar do elefante na sala: a saúde mental. Lidar emocional e psicologicamente com a pandemia pode ser formativo, destrutivo ou ambos. O isolamento social obrigou-nos a uma meditação induzida para a qual muitas pessoas não estavam preparadas. Estarmos em solitude connosco mesmos é um grande desafio. Algumas pessoas vão sair da pandemia com quadros de ansiedade e depressão, o que vai afetar o bem-estar coletivo da sociedade. Ao mesmo tempo, haverá uma camada que sairá mais firme. Como em tudo na vida, as fases difíceis abrem caminho para novas formas de viver. O nosso sentido de superação foi aguçado, provocado, e por isso esta é uma oportunidade de crescermos, de nos melhorarmos.

O que me parece mais interessante de um ponto de vista global é que muitas alterações trazidas pela pandemia gritam “Geração Z”. Todo este cenário foi uma catapulta para um mundo cada vez mais sustentado nas estruturas tecnológicas, na vida online, no funcionamento, trabalho e interação à distância. Onde todos estamos longe, mas perto simultaneamente. Onde há mais flexibilidade, liberdade e desapego. Pode muito bem ser que estejamos no berço de uma nova etapa da história. Estaremos preparados?

Telma Pinguelo/MS

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