Temas de Capa

No mundo dos afetos quem é patudo é rei

Vivemos um tempo em que o ser humano parece ter tomado consciência de que o respeito pela natureza e pela diversidade animal é essencial para a sua própria sobrevivência. Finalmente! Começam a ficar cada vez mais distantes os tempos em que os chamados animais de estimação, não eram propriamente bem estimados. O cão ou o gato tinham apenas uma função utilitária – servir de algum modo o seu dono. O cão era de guarda e o gato caçava os ratos. Não havia idas ao veterinário, a comida estava muito longe das preocupações com os nutrientes ou vitaminas e o conforto era procurado numa cabana que de confortável não tinha mesmo nada.

Estamos numa nova era, sem dúvida. Os animais, que amam de forma incondicional, que não reclamam nada, que nos confortam, que não nos traem, estão a tornar-se o centro da vida de muitos humanos. Literalmente. A vida passa a estar absolutamente dominada pelo cão que precisa de ir à rua, mesmo que esteja a nevar e temperaturas nada convidativas a passeios. O gato passa a ser o dono de casa, toma conta do sofá, da cama. São tratados como mais um elemento da família, o único que dá pulos de contentamento quando, ao fim do dia, chegamos a casa. A “humanização” dos animais é cada vez mais uma realidade – são poucos os que ainda se chamam Patusco, Fofinha, Tareco ou Bobby, agora temos cada vez mais Lucas, Rita, Zeca, Joana… – já não há “vem cá ao dono”, agora é mais “vem cá ao pai”.

Nesta edição do Milénio Stadium tentamos perceber como e porque este novo mundo está a transformar-se, cada vez mais num imenso Reino dos Patudos. Nos dias de hoje, os animais têm, de facto, uma importância crucial na vida em sociedade – percebe-se, por exemplo, como cada vez mais ajudam em tratamentos de vários tipos de doença ou deficiência. Ajudam na superação da dor emocional, mas na hora da partida deste mundo deixam os seus companheiros dilacerados com a dor da sua perda. Na entrevista que nos concedeu, Tiago Souza (psicoterapeuta) ajuda-nos a concluir que a chave para se entender tudo isto passa por duas palavras – afeto e emoção.

Tiago Souza

Milénio Stadium: Na sua perspetiva de psicoterapeuta, pode dizer-nos o que pensa da relação que o ser humano estabelece, hoje em dia, com os animais de estimação?

Tiago Souza: A relação dos seres humanos com os animais é de longa data. Os cães, por exemplo, são descendentes dos lobos, e nossa relação com eles data de há, aproximadamente, 20.000 anos. De uma relação de mútuo benefício (comida fácil para eles e proteção para nós), nós evoluimos como espécie, e começamos a estreitar os nossos laços afetivos o que, do ponto de vista emocional, é fundamental para sobrevivência.  É uma relação muito importante para nós humanos, social e emocionalmente.

M.S:  Esta “humanização” dos animais, que cada vez mais se observa na sociedade de hoje em dia, poderá relacionar-se com o amor e o carinho que os animais dão, sem pedir nada em troca?

TS: Nós como humanos tendemos a projetar a nossa vida interior em tudo e todos ao nosso redor. Muitas vezes os animais são como uma tela branca, onde projetamos nossos desejos, frustrações e necessidades. Como todos necessitamos de amor, companhia, afeto e aceitação, os animais cumprem esse papel nas nossas vidas, especialmente em momentos de dificuldade. Podemos “conversar” com eles, e eles não julgam, para dar um exemplo. Isso dá-nos seguranca, o que muitas vezes nos falta nos relacionamentos interpessoais.

MS:  Do ponto de vista emocional, qual é a vantagem de ter um animal em casa? Dizem, por exemplo, que os gatos funcionam como antidepressivos…

TS: O que cada animal representa para nós é subjetivo. Num sentido amplo, eles são uma ótima companhia, ajudam-nos a praticar afeto, carinho, de maneira segura e previsivel, ajudam a compensar a solidão para muitos e muitas, e também colaboram para nos dar confiança que nos permita exercer o cuidado a outro ser vivente. Isso pode ter uma função terapêutica secundária, como aliviar sintomas emocionais negativos.

MS:  A propósito… os animais são cada vez mais usados como elementos essenciais em alguns processos terapêuticos – estou a lembrar-me dos autistas, por exemplo. Da sua experiência profissional o que pode dizer-nos sobre isto?

TS: Cães e cavalos são muito usados em atividades terapêuticas, pelos mesmos motivos que mencionei: são criaturas que, quando dóceis e treinadas, nos deixam praticar o afeto de maneira segura e sem intimidação. A terapia com equinos também ajuda na coordenação motora e o ambiente colabora para uma experiência de mais conexão com a natureza. Os animais em terapia sao ótimos elementos que nos ajudam a expressar emoções com segurança.

MS: O que leva alguém a ter na sua casa, como animal de estimação, espécies exóticas cujo habitat natural não é, certamente, um apartamento ou uma casa? (por exemplo, cobras…)

TS: Nós queremos ser diferentes e únicos, o que nos ajuda a definir a nossa identidade. Animais exóticos são uma maneira que as pessoas encontraram para expressarem a sua identidade, as suas excentricidades, e os seus valores. Eles são uma extensão da nossa personalidade. Em casos específicos, alguns animais comumente considerados perigosos são como um escudo, afastando pessoas do convívio dos donos. É um mecanismo de defesa, pela pessoa ter dificuldade em se relacionar com outros humanos.

MS: Para muitas pessoas a dor da perda de um animal é imensa e profunda, há quem a compare à perda de um familiar próximo. Como se explica esta analogia?

TS: Emoções são necessárias para a nossa sobrevivência. Os objetos de afeto variam, mas os nossos sentimentos têm a mesma origem, e causam o mesmo efeito. A dor da perda é sentida por nós quando perdemos alguém, ou um animal, ou mesmo quando mudamos do bairro em que crescemos. Quando nos ligamos a um animal, a sua perda causa-nos uma dor análoga à da perda de qualquer ente querido. Afinal, precisamos sentir. É o que nos faz viver plenamente. E muitas vezes são os animais que nos ajudam a viver uma vida mais plena emocionalmente.

Madalena Balça/MS

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