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Nas malhas das redes… sociais

Maria é uma mulher comum. Com uma vida banal e uma profissão que nunca lhe deu mais do que um ordenado. Daqueles que são curtos. Que mal chegam para cobrir as despesas lá de casa. Maria vive o dia-a-dia sem glamour, sem reconhecimento público pela sua dedicação aos outros, pela sua beleza ou pelo simples facto de, de forma quase heróica, conseguir pôr a comida na mesa e garantir que nada de essencial falta aos seus filhos.

Um dia, influenciada por amigos, caiu nas malhas das redes… sociais. E a sua vida mudou. Passou a arranjar-se como não fazia antes. Agora é preciso estar bem para tirar a foto que ilustra os dias digitais da sua vida. O sorriso renasceu – para a foto que publica no Instagram. A legenda pouco diz – não há muito para dizer para lá de “bom dia” – a sua vida nada tem de interessante, mas a foto funciona como um motor de ânimo a cada coração que aparece no écran.

Maria passou a viver duas vidas – a real e a construída. As redes sociais ligaram-na ao mundo. Deram-lhe mundo e alimentaram-lhe o ego que estava magro de “gostos”. Graças à entrada nesta realidade virtual, passou a ter mais opinião. Concorda ou discorda com o que escrevem no seu “feed”, emociona-se com imagens ternurentas, assusta-se com as mensagens que pré-anunciam calamidades, entristece-se com mortes que afinal não aconteceram, revolta-se e insurge-se com as injustiças que ganham dimensão de calamidade. Tem opinião e manifesta-se – sem filtros! Sem os filtros que a vida real a obriga a usar.

Na vida digital, Maria recuperou muita da sua energia perdida no meio dos tachos, contas para pagar e choros dos filhos durante a noite. Até recuperou a capacidade de fazer amigos. Virtuais é certo, mas amigos. Reencontrou muitos que julgava perdidos algures nas curvas da vida. Os encontros trouxeram memórias – boas e más. Maria sentiu-se bem porque se sentiu viva.

E a família mudou – agora, a que estava longe ficou mais próxima, à distância de um clique, de um gosto numa foto ou num post. Já a que está mesmo ali ao lado ficou mais longe – a comunicação quase não existe sem um écran de computador ou telemóvel pelo meio. As frases passaram a ser escritas, lidas e muito pouco ditas e, consequentemente, ouvidas. Aprendeu a ler a alma dos mais próximos, nas fotos ou frases que publicam. Lá em casa já ninguém fala olhos nos olhos E ninguém parece preocupar-se com isso. Passou a ser normal.

A vida mudou e não foi só a de Maria. O filho, que antes era apenas o seu menino, é hoje um YouTuber de sucesso. Mudou de nome e ganha a vida com os vídeos non-sense que descobriu poderiam ser o seu modo de vida e forma de ganhar dinheiro. Ainda está a começar, mas o número de seguidores aumenta a cada história contada, sendo que os conteúdos, em muitos casos, não passam de uma soma de diversão mais disparates forçados, para fazer rir quem vê. O menino de Maria é já uma estrela e ela continua a não perceber porquê, mas está feliz por isso – afinal, alguém na família se libertou do anonimato.

Maria, na vida real, é uma mulher comum, mas na vida digital encontrou o glamour, o reconhecimento e uma felicidade que nunca havia experimentado. Em cada like nas suas páginas de redes sociais sente uma carícia na alma e um aconchego no coração. Isso bastou para se deixar apanhar nas malhas das redes.
Maria não é ninguém, mas podia ser muitos de nós.

Madalena Balça

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