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Mulher – Luta constante em busca de autonomia

Feliz Dia Internacional da Mulher

No dia 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher. Para marcar esta ocasião especial, Manuel DaCosta esteve à conversa com Cristina Da Costa, um dos grandes exemplos daquilo que é ser uma mulher do século XXI, independente e com coragem para criar o seu próprio mundo. Como Maya Angelou lhe ensinou, e hoje a Cristina passa-nos a mensagem a nós, “a coragem pode ser a mais importante de todas as virtudes, porque sem isso, não podemos praticar nenhuma das outras virtudes com consistência”.

Manuel DaCosta: Preferias ser um homem, se tivesses essa opção?
Cristina Da Costa: O Dia Internacional da Mulher deveria ser celebrado todos os dias, porque as mulheres que se prezam têm orgulho em ser mulheres, e eu sou uma delas. Jamais quereria ser homem porque sempre gostei de ser mulher.

MDC: E do que é que gostas mais em ser mulher?
CDC: Ter a minha capacidade de decisão, ser independente e tê-lo sido praticamente toda a minha vida. Ter lutado por aquilo em que acredito e continuo a acreditar, acho que isso é muito importante.

MDC: Porque é que faz falta o Dia da Mulher? E que resultados vão ser conseguidos?
CDC: O Dia da Mulher é uma “desculpa” para que ninguém se esqueça que a mulher existe, que é proactiva e progressiva na sociedade atual. O Dia da Mulher é celebrado como o Dia da Mãe ou do Pai, entre outros. São datas que são adjudicadas para que as pessoas não se esqueçam que há muito a celebrar.
Com a celebração do Dia da Mulher não há muito que vá mudar, mas ao mesmo tempo muda muita coisa. O Dia da Mulher é importante de ser relembrado porque existem muitas mulheres que precisam de autoestima, de serem relembradas, de serem tiradas da toca para nunca se esquecerem do quão digno é ser mulher, especialmente no séc. XXI e nesta sociedade que apesar de tudo, infelizmente, continua a ser dominada pelo sexo oposto.

MDC: Como mulher empreendedora, quais são os obstáculos que encontras e que um homem não encontraria?
CDC: Obstáculo é uma palavra muito forte. Não existem obstáculos, existem situações por resolver. Ser mulher empreendedora sem dúvida que lança desafios, mas os obstáculos estão na mente de cada um. Todos os dias, quando acordo, tenho uma To-Do List, sempre fui assim, sempre fui autónoma e se não completasse 90% dessa lista ficava zangada comigo mesma. Sou uma doer, gosto de alcançar. Obstáculos existem, mas também existem para os homens, talvez a diferença é que eles os cumprem mais facilmente já que as mulheres são consideradas o sexo fraco. Mas há mulheres e mulheres.

MDC: És uma mulher com muito talento e sucesso, conseguido por ti sem precisares de homens. O que é que te continua a puxar para a frente com a independência necessária?
CDC: Eu sou realmente self-made, acho que isso é muito importante, e foi essa a ideia que tentei passar para as minhas duas filhas. Sempre lhes disse que o céu é o limite, é bom pensar que podemos fazer aquilo que queremos. Primeiro tem de haver sonho e depois há que concretizá-lo. O sucesso é como tudo na vida, também temos vários fracassos, todos nós temos. Os fracassos ajudam-nos a erguer. Já dizia a minha querida mãe: “só nos levantamos depois de cair”. Eu também fui criada por uma mulher forte e independente. É muito importante cair para depois quando nos levantarmos a vitória saber melhor.

MDC: Achas que ser mulher causou mais sofrimentos na tua vida ou carreira, devido a decisões feitas com base a satisfazer a perceção daquilo que a mulher deve ser?
CDC: Eu sou um bocadinho atípica, nunca atuei como os outros queriam que atuasse. Eu sou eu. Quando eu trabalhava na rádio, as pessoas criticavam-me porque muitas vezes sentava-me com homens a fazer negócios. A nossa comunidade tem uma mentalidade tão pequena que acha que se nos sentarmos com um homem a uma mesa então já dormimos com ele. Eu não penso assim. A maioria dos meus clientes da CHIN Radio eram homens, entretanto comecei a cansar-me das mentalidades fracas e pedia reuniões com as esposas desses senhores. Nunca me vendi por um tostão, e por isso essas afirmações não me atingem.
Eu sempre fui muito dona de mim, e é um bocadinho a minha loucura que me tem ajudado a ultrapassar barreiras que outras pessoas acham impossíveis. As pessoas veem o que eu tenho, mas não veem o que eu faço para as ter, e esse é um grande problema a nível comunitário. É como se diz com o alcoólico, veem os tombos, mas não veem onde é que teve de chegar para dar aqueles tombos.

MDC: Porque é que as mulheres sacrificam mais do que um homem para chegar ao mesmo lugar?
CDC: Quando comecei na CHIN Radio foi muito interessante, eu fui testada e posta à prova todos os dias, era a única mulher no meio de uma selva de homens. Com o meu charme, ensinei-lhes que as mulheres também prevaleciam.
Eu tinha um colega que dizia “ela consegue estes contratos porque é mulher”, uma vez encarei-o e disse-lhe que não conseguia aqueles contratos só porque era mulher, mas porque era mais inteligente que ele e não passava tardes inteiras a apanhar bebedeiras com os clientes. Eu assinava o contrato e já estava pronta para ir assinar outro. Sendo mulher ou não, era mais ativa e trabalhadora, porque tinha duas filhas em casa para criar e graças ao meu trabalho nunca lhes faltou nada. Eu tinha essa motivação para produzir e mostrar que o meu dia tinha sido lucrativo. Foi com essa força. As minhas filhas empurravam-me sem dizerem nada. Elas na altura nem sabiam o que se passava, mas como mãe solteira elas sempre foram a minha inspiração.
Também existiam pessoas, alguns deles até já nem vivem na comunidade, que diziam que como tinha duas filhas precisava de ajuda. E eu dizia-lhes “tire as suas patas de cima de mim, não preciso da sua ajuda, sei perfeitamente criar as minhas filhas sozinha”. Há muito homem sujo na nossa comunidade, mas também há muito homem bom.

MDC: O que faz falta no futuro para se conseguir igualdade? E que erros estão a ser feitos?
CDC: Igualdade existe na mente de cada um de nós. O sonho comanda a vida, temos de pensar naquilo que queremos e se quisermos com muita vontade, acreditarmos em nós próprias e formos positivas, então a igualdade já existe. O que faz falta é derrubar algumas barreiras. O estigma do sexo ainda existe, a ideia de que ao irem para a cama com aquela mulher ou homem conseguem ficar protegidos financeiramente. Adoraria que a sociedade deixasse de pensar assim, porque cada pessoa tem uma mente, tem poder de imaginação e criação, e consegue com essa mente ultrapassar toda e qualquer barreira.

MDC: Para que haja mudança na sociedade são sempre precisos líderes. Quem são os líderes mundiais do movimento das mulheres e principalmente da nossa comunidade em Toronto?
CDC: A nossa comunidade é muito complicada, tem gente muito boa, mas também tem gente que se aproveita dos papéis que desempenham para espezinhar aqueles que os rodeiam. Sem ofender, na nossa comunidade, não existe uma líder, nem femininas e poucos masculinos. As pessoas ganham um certo status e depois encostam-se à sombra da bananeira… jamais isso pode ser feito. Há que lutar todos os dias. Na nossa comunidade, no que diz respeito a líderes, existe uma vaga ainda por ser preenchida. A Dra. Maria Amélia Paiva, que foi nossa cônsul-geral, seria uma líder fantástica para estar na nossa comunidade. Espero que ao ler isto fique orgulhosa que eu e muitas outras pessoas não nos tenhamos esquecido dela. Tinha ideias incríveis, não discriminava, falava bem com toda a gente, sempre amável e sensata. Fazia falta regressar à nossa comunidade, que talvez agora já esteja mais madura para aceitar certas e determinadas situações sem ter a necessidade de criticar o próximo.
A nível mundial, eu tinha uma admiração muito grande por Maya Angelou, já a conheci tarde na minha vida através da leitura. Lia coisas que ela escrevia e emocionava-me porque ela tinha uma visão fantástica do que é ser mulher. Infelizmente já não está entre nós, mas deixou um legado fantástico.
A Michelle Obama também acho que é uma senhora extremamente inteligente, com ideias fantásticas. Deveria ser ela Presidente dos EUA, quem sabe um dia. Existem ainda muitas outras pessoas, como a Malala que desafiou o mundo islâmico, uma rapariga tão nova com uma perspetiva tão viva baseada na ideia que saber é poder, e é disso que o mundo islâmico tem medo. Eu acho que a sabedoria ultrapassa todas as fronteiras dentro de nós, e ela própria sentiu-o na pele, quase perdeu a vida ao lutar pelo direito de estar na escola. E acho que à medida que vai crescendo, vai desenvolver mais ideias fantásticas sobre o que é ser uma líder no mundo feminino no século XXI e talvez no séc. XXII.
Existem muitos outros e muitas mulheres a lutar pelos direitos das outras mulheres.

MDC: Muito obrigado pela tua mensagem, espero que as tuas palavras façam alguma diferença.
CDC: Espero que sim, eu estou sempre recetiva a críticas, mas prefiro as construtivas. Mulher não deveria derrubar mulher. Vamos ser unidas, que assim somos mais fortes. Feliz Dia Internacional da Mulher para todos vós e para todas as mulheres que habitam este planeta fantástico.

Manuel DaCosta

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