Temas de Capa

Mesa de Natal

Como a maioria das pessoas de uma geração já convertida às novas tecnologias, também eu faço viagens com os olhos pregados ao telemóvel.  Tanto pode ser uma chamada que atendo ou recuso (dependendo da oportunidade de quem chama), como um sinal de mensagens de SMS, Messenger, Whatsapp, atualização de uma qualquer notícia, ou até uma volta rápida pelo Facebook, movida pela simples curiosidade de espreitar os mais recentes posts, fotos e respetivos comentários, a que acrescento um ou outro like.

São estes plins que me fazem interromper a leitura de um livro ou revista que sempre me acompanham, porque ainda não gosto de os ler em formato digital. Manusear e cheirar o papel continua a dar-me um prazer que não desejo substituir pela luminosidade do ecrã, seja ela do computador ou do telemóvel.

Vem esta introdução a propósito do que, no comboio a caminho de Lisboa, acabei de ler num daqueles posts que se multiplicam pela partilha, sem que saibamos a sua proveniência: “O Natal perdeu o encanto quando começaram a faltar algumas pessoas na mesa”.

De imediato me vi confrontada com as memórias de todos os que já não se sentam à minha mesa – uns, porque partiram; outros, porque, pelas mais diversas razões, simplesmente deixaram de festejar comigo esta data festiva. Concluí que as ausências, por uma razão ou por outra, não fizeram com que o Natal perdesse o encanto. O meu Natal será sempre aquilo que eu planeei que fosse de cada vez que a data se aproxima e, dessa forma, continua a existir dentro de mim com a mesma alegria com que sempre o celebrei.

À semelhança da mesa do poeta José Luís Peixoto, “Hoje,/ na hora de pôr a mesa, somos cinco,/ menos a minha irmã mais velha que está/ na casa dela, menos a minha irmã mais/ nova que está na casa dela, menos o meu/ pai, menos a minha mãe viúva. Cada um/ deles é um lugar vazio nesta mesa onde/ como sozinho. Mas irão estar sempre aqui./ na hora de pôr a mesa, seremos/ sempre cinco”, também os meus, que em qualquer refeição forem lembrados, terão sempre um lugar à minha mesa. E continuarão a conviver comigo em cada momento celebrado, seja ele à mesa ou em qualquer outro lugar onde juntos festejámos a alegria do convívio. Porque essa é a mensagem mais importante que devemos passar. A de que vale a pena estarmos juntos, mesmo quando os encontros não são apenas reuniões de pessoas unidas por laços de consanguinidade. A nossa família pode ser bem mais do que isso, “maior que a humanidade”, como a definiu Mia Couto, porque composta por aqueles que amamos e, livremente, escolhemos estarem connosco.

O Natal vive dentro de mim, impregnado das minhas mais arreigadas crenças, aonde não chegará nunca qualquer ameaça ou tentativa de acabar com ele. Tal como na letra da canção de intervenção, tantas vezes trauteada por gente da minha idade, “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, também não se consegue matar uma convicção desde que a saibamos manter viva dentro de nós.

O Natal, decretou Ary dos Santos num dos seus poemas, é quando um homem quiser. Eu acrescentarei “e na mesa que cada um de nós quiser”, mesmo quando diminui a presença física dos que nela se sentam.

Na minha, seremos sempre muitos!

Aida Batista/MS

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