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Lembrando o ano de 2020…

O ano em que o criador de Mafalda morreu
Um dos últimos cartoons de Quino – Jogam as pretas e fazem check-mate quando lhes apetece. DR.

Mafalda era uma jovem sábia e idealista, uma criança de banda desenhada com um cabelo preto volumoso, um ódio por sopa e um nome inspirado numa marca de eletrodomésticos falida. A banda desenhada de Mafalda tornou-se uma referência cultural na Europa e na América Latina e ficou conhecida por retratar assuntos como a ditadura, o nacionalismo, a guerra, a pobreza e a destruição ambiental. O criador, o cartonista Quino, morreu este ano, mas fica a obra e os problemas que continuam a ser atuais. 

Na banda desenhada Mafalda era retratada como tendo apenas nove anos, ouvia Beatles e tinha um sentido de humor apurado. Sobre esta característica, o autor escreveu “Não acredito que o humor possa alterar qualquer coisa, mas às vezes pode ser o pequeno grão de areia que atua como um catalisador para a mudança.” A tartaruga de estimação de Mafalda chama-se Burocracia e quando uma amiga lhe pergunta o motivo pelo qual batizou a tartaruga com este nome, Mafalda responde que precisa de voltar no dia seguinte para dar mais informações, mas não sabe dizer exatamente quando.

“Mafalda” estreou num semanário de Buenos Aires em 1964 e espalhou-se pela Europa depois de ser defendida pelo escritor italiano Umberto Eco, o homem que defendia que a literatura era terapêutica porque permitia o escape do mundo real. A história em quadradinhos foi traduzida para mais de 20 línguas e fez de Quino o cartonista mais famoso da Argentina e o símbolo do movimento pela democracia e pelos direitos humanos naquele que foi um dos governos mais autoritários do século XX da América Latina. 

Quino disse que a banda desenhada ia terminar em 1973 porque estava preocupado com o autoritarismo do poder político. Mais tarde terá dito à BBC que se tivesse continuado provavelmente estaria morto. Muito mais tarde Quino ainda criou alguns cartoons para campanhas de saúde pública e causas políticas, incluindo uma campanha da UNESCO que queria alertar para os direitos das crianças. 

Quino era filho de emigrantes espanhóis e cresceu a ouvir as histórias sobre a guerra civil e sobre o ditador Franco. Quando a ditadura irrompeu na Argentina foi viver para Milão e só regressou à Argentina quando os ventos da democracia voltaram a soprar. Numa das suas poucas entrevistas, porque era tímido e reservado, terá dito que gostava de ser recordado como alguém que fez as pessoas refletirem sobre os acontecimentos.

Num dos últimos desenhos de Quino, o autor coloca Mafalda sentada em frente a um globo enquanto sonha em ser intérprete da ONU. Se um delegado dissesse a outro que o seu país era repugnante, Mafalda, depois de refletir, interpretaria mal as suas palavras e diria que ele achou o país encantador. Mafalda queria que o mundo durasse até crescer e que as guerras e os problemas do mundo acabassem. 

E como terminar o ano sem fazer referência à pandemia? Quino não sobreviveu para ver o fim da pandemia, mas fica no ar a curiosidade de como seria a banda desenhada do ano da pandemia. Muitos dos problemas mantêm-se e a crise de saúde criou uma crise económica que por sua vez criou uma crise social. Desemprego, fome, pobreza, abuso de opióides, problemas de saúde mental, revolta social – problemas pós-pandémicos que antes já existiam, mas que agora ganharam uma dimensão maior. 

Muitos países já apresentaram o seu plano de vacinação contra a COVID-19 e depois será a vez de reconstruir as vidas e os sonhos que o vírus destruiu ou adiou. O deficit que a maioria das economias mundiais acumulou durante a crise de COVID-19 vai ser pago sobretudo por aqueles que hoje são jovens, depois de programas de incentivo à recuperação do emprego vão seguir-se orçamentos mais austeros e onde não vai existir a mesma disponibilidade financeira em determinados setores que vinha sendo comum até ao início da pandemia. No início a pandemia foi comparada a uma guerra – se assim for, as guerras são feitas de batalhas e no fim vence o melhor. Na COVID-19 a ciência conseguiu encontrar uma solução em tempo recorde para um vírus sobre o qual nada sabíamos no início do ano. Não existe melhor exemplo da capacidade de resiliência do ser humano, com a vacina voltou a existir esperança. 

Joana Leal/MS

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