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João Paulo Guedes: Os desafios e as delícias da profissão de estilista

João Paulo Guedes, estilista brasileiro renomado, mora em Montreal há pouco tempo a convite da marca no qual trabalha atualmente. Vencedor de prêmios do mundo da moda, seu trabalho tem sido requisitado. Destaque em publicações do mundo todo como Vogue Itália, Vogue Reino Unido, GQ Brasil, Elle Canada Man, Schon Magazine, vive um momento muito bom na carreira. Tem a sua própria marca e a ideia é expandi-la cada vez mais.

Mas nem tudo foi glamour e sucesso na vida do estilista. Ele enfrentou desafios intensos para chegar aonde está.
Conversamos com ele sobre como foi sua trajetória, sonhos, conquistas e, demonstrando muita simplicidade, explicou as delícias e os desafios do mundo da moda.

Milénio Stadium: Como foi sua trajetória até aqui e quando surgiu sua paixão pela moda?
João Paulo Guedes: Eu sempre tive vontade de ser estilista, e trabalhava no Brasil com publicidade e propaganda. Em 2008 me mudei para o Canadá e comecei a fazer um curso de moda na George Brown College em Toronto. Me formei e desde então eu trabalho com moda.

MS: De onde vem a inspiração para a criação de uma peça?
JPG: Não tem uma forma definida, mas a cada coleção eu tento procurar fontes de inspirações. Muitas das vezes essa fonte vem da arte contemporânea, também gosto muito da arquitetura. Eu já criei uma coleção completamente inspirada em arquitetura de igrejas góticas. Já tive oportunidade de criar uma coleção através de fotos microscópicas A minha viagem pra Índia foi uma outra fonte de inspiração importante para a criação… Enfim, não existe uma fórmula certa, mas se tiver que sinterizar, eu tenho uma tendência para a arquitetura e arte contemporânea.

MS: Você criou uma marca. Como surgiu essa ideia e como você define o seu DNA?
JPG: Tudo aconteceu quando eu comecei a trabalhar na Canada Goose. Na mesma época foi lançado um concurso para selecionar novos estilistas na semana masculina de moda em Toronto. Eu acabei competindo, e levei o prêmio no valor de 10 mil dólares. Foi aí que tudo começou. Eu lancei seis coleções da minha própria marca, inclusive as pessoas podem adquirir essas peças através da internet. Eu também dou consultoria para diversas marcas como Sears Canada, Canada Goose e atualmente trabalho em Montreal para a Mackage. É engraçado porque eu sou de Fortaleza e lá faz muito calor, mas desde que eu estou aqui só crio casacos de frio.

MS: Como foi o seu início de vida aqui no Canadá?
JPG: Eu fiquei em Toronto por 12 anos, antes de vir para Montreal. E, olhando para trás, eu consigo perceber que a minha carreira foi uma grande trajetória. Isso porque quando eu cheguei aqui não falava inglês. No início é sempre muito difícil a vida de um imigrante e começar uma nova carreira é bem complicado. Comecei trabalhando aqui como zelador de um prédio durante um ano e meio, então foi bem difícil, mas eu nunca desisti. Eu tinha um sonho e lutei para que isso acontecesse.

MS: Como é feita a pesquisa das matérias-primas que você utiliza para a criação de uma peça?
JPG: Geralmente todos os tecidos vêm da Itália, mas o problema é que o preço é muito mais alto. Um dos grandes desafios de um estilista independente no Canadá é a quantidade de tecido. Porque quanto maior a quantidade de matéria-prima que você solicita, menor fica o preço. Outro desafio complicado é a questão de mão-de-obra por aqui, que não é nada barata.

MS: Você se preocupa com a questão da moda no uso consciente?
JPG: Eu acredito que trabalhar com tecido sustentável é algo que vem crescendo cada vez mais entre as grandes marcas. Estão em alta os processos de reciclagem de matérias-primas, além de tecidos que são feitos de garrafas de plástico. Fazendo um balanço, eu acho que sim, a preocupação com esse assunto é cada vez maior, mas ainda não está totalmente assimilada no mundo da moda.

MS: Como você define a moda de uma cidade multicultural como Toronto?
JPG: Eu sou do Brasil, e por isso eu venho de um lugar onde o povo gosta de colorido e estampas vibrantes. O que eu percebi desde que vim para cá é que o estilo é mais minimalista e sóbrio. Toronto adora o preto. Acho que o canadense não se arrisca muito nas cores, e as pessoas acabam adotando o preto, verde militar e, no máximo, vermelho.

MS: Quais peças que não podem faltar num guarda-roupa de uma mulher e de um homem?
JPG: Acho que a tendência é o xadrez e as estampas listradas – são estampas que têm crescido muito. E em relação às cores, o momento é do neon – moda muito forte nos anos 90 – nas cores verde limão e pink, e ao que tudo indica a moda do neon continua no próximo ano.

MS: Atualmente estamos lidando e transformando o conceito do que é belo através da diversidade de corpos e a moda plus size tem se destacado cada vez mais como forma inclusive, de empoderamento. O que você acha desse novo momento no mundo na moda?
JPG: Eu acho que uma grande tendência entre as marcas e grandes estilistas é a moda andrógina. Outro fato é que eles estão percebendo que não existem só pessoas magras no mundo, e eles estão se atentando que precisam criar produtos que atendam a todo tipo de público e não só um em específico. Outro estilo que está crescendo é o oversize, que são as roupas mais larguinhas e descoladas, independente do tipo de corpo.

MS: Quais são os seus planos para o futuro?
JPG: Eu acabei de mudar para Montreal, e consegui um novo contrato com uma marca local, que é a Mackage e em paralelo tenho a minha marca. Acho importante manter a minha marca, que é onde eu tenho a possibilidade de criar a minha identidade como estilista. Então o meu plano agora é exportar a minha marca para o Brasil e ter uma produção made in Brazil.

Adriana Marques

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