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Influência dos media na construção da opinião pública

Afinal como é que distinguimos informação credível de propaganda? A meses das eleições federais fomos tentar perceber como os media influenciam a escolha de um candidato na altura do voto. Hudson Moura é professor da Ryerson University e o especialista em media e em cinema respondeu a algumas das nossas dúvidas.

Hudson Moura

Milénio Stadium: A informação dos media influencia a opinião dos eleitores?
Hudson Moura: Os media tornaram-se uma arena de debate político-social, é onde tudo acontece. As pessoas informam-se e debatem o interesse público. Os media têm essa função de carácter social e ela precisa de ser preservada e protegida pelo Estado, é por isso que temos o CRTC (Canadian Radio-television and Telecommunications Commission).

MS: Como é que distinguimos informação credível de propaganda?
HM: A propaganda não é um fenómeno novo, desde a Segunda Guerra Mundial que ela foi bastante incentivada, o próprio governo trabalhou bastante para a implementar e ela faz parte da nossa paisagem mediática. A questão é a pessoa se informar e saber como navegar perante tanta informação, temos de conhecer a fonte e distinguir a imparcialidade dos factos porque hoje todos produzem informação.

MS: A desinformação está a crescer cada vez mais e as redes sociais contribuíram para isso?
HM: As redes sociais são o reflexo dessa transformação dos media tradicionais, elas simplificaram a informação e acabaram com as particularidades. Hoje as reportagens são escritas por um jornalista e são publicadas em várias plataformas. Não damos crédito ao autor e damos a informação mínima ao público para que seja rapidamente difundida por pessoas de todos os segmentos e de todas as faixas etárias. Os artigos são curtos, com frases bem apelativas e alguns deles são gerados por computador, já não precisamos de um humano.

MS: Os políticos hoje têm de estar presentes em várias plataformas digitais. É uma nova forma de fazer campanha?
HM: Hoje medimos o empreendedorismo de uma pessoa pela sua presença e influência na rede e o número de seguidores pode influenciar bastante o grau de interação e de credibilidade de uma pessoa, independentemente do seu cargo ou profissão. Essa dinâmica está evidenciada em todos os setores, público ou privado. Se queres alcançar o teu eleitor precisas de estar presente nas redes, é através delas que acompanhas a evolução do debate social.

MS: O WhatsApp foi uma ferramenta importante nas últimas eleições brasileiras. Será que o modelo vai ser copiado por outros países, como o Canadá, por exemplo?
HM: Cada país usa uma app diferente e no Brasil o WhatsApp é mais popular do que o Facebook. Mas no Canadá por exemplo muitas pessoas nem sabem o que é o WhatsApp e utilizam mais o Facebook. A plataforma é indiferente porque a maneira de conectares com o público é igual, de cada vez que partilhas informação com o teu amigo a informação fica muito mais pessoal.

MS: As redes sociais ajudam a mobilizar pessoas para participar em manifestações. Veja-se o caso recente dos coletes amarelos que começou na Europa e que já chegou ao Canadá.
HM: Hoje comunicamos mais através das redes sociais do que pessoalmente. É uma ferramenta útil, saudável e importante que tem de ser democratizada. Estamos a substituir o espaço real pelo virtual, não existe mais limite entre os dois mundos, quando temos alguém à nossa frente partilhamos fotografias…
Mas também existem perigos, nós temos uma responsabilidade ético-social, é como se estivéssemos a falar com a arena pública. Não partilhamos apenas com os nossos amigos, qualquer pessoa pode ter acesso àquela informação.

MS: Quem são os influencers e o que é que eles fazem?
HM: Os influencers ditam comportamentos, modelos de vida, de compras, principalmente porque as redes socias se caracterizaram por participantes bastante opinativos. Os media tradicionais que alcançaram um público cada vez maior e mais diversificado através da internet abandonaram o modelo da crónica e da critica e adotaram uma mensagem curta, direta e impessoal.
Os novos atores das redes sociais, principalmente os bloggers, estão a ocupar um lugar que antes era preenchido pelos media tradicionais.

MS: Como é que controlamos as Fake News?
HM: Através da educação porque somos praticamente iletrados a nível mediático. Não aprendemos na escola a lidar com os media e ninguém sabe ao certo porque a evolução das novas tecnologias aconteceu muito rápido. O governo está a criar novas leis, as empresas adotaram medidas mais restritas. Mas o Estado tem o dever de gerenciar tudo isso e alertar para a importância da educação mediática. Esta é a melhor forma de controlar Fake News, não é cerceando a liberdade das pessoas…

MS: Nestas eleições federais a Google decidiu banir a publicidade política, tal como fez em Washington.
HM: Acho que os media privados não deveriam tomar esta decisão por conta própria porque pode gerar injustiças sociais, afetar o processo democrático e a liberdade de expressão. O Estado tem de fiscalizar através de órgãos competentes e imparciais como a CRTC e não pode permitir esse tipo de interferência no governo.

Joana Leal

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