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Idosos vivem em asfixia financeira em Toronto

Lucy tem 70 anos e é natural de Trás-os-Montes. Quando emigrou ainda Salazar estava no poder em Portugal e, tal como muitos outros, partiu à procura de uma vida melhor. Primeiro ainda experimentou França, mas acabou por se decidir pelo Canadá. Casou duas vezes e teve dois filhos, mas acabou por criá-los sozinha.

Hoje vive com uma reforma de $1,300. Habituada desde cedo a fazer contas à vida, pouco mudou na vida de Lucy. A renda custa quase $1,150 e o aumento já está prometido. Lucy vive sozinha num apartamento próximo de Davenport e as pernas já não são as mesmas. “Tinha dois trabalhos para conseguir sustentar os meus filhos e para que eles pudessem estudar para terem uma vida melhor do que a minha. Hoje vivo sozinha e vou ao supermercado, ao banco e ao médico. O inglês não é perfeito, mas desenrasco-me (risos)”, disse.

Lucy, nome fictício, é uma das muitas luso-canadianas que frequenta os programas de atividades destinados aos seniores do First Portuguese Canadian Cultural Centre. Na cidade, a sua deslocação é feita a pé ou em transportes públicos, nos Wheel-Trans, os autocarros do TTC que transportam pessoas com mobilidade reduzida. No First faz voluntariado e tricô, um extra que ajuda a equilibrar o orçamento. “O custo de vida em Toronto está cada vez pior. Quando vamos ao supermercado as proteínas são muito caras, a carne e o peixe deveriam ser mais acessíveis. Penso que precisamos de mais casas acessíveis, é muito difícil para alguém com eu pagar a renda e sobreviver”, contou.

Mas as dificuldades financeiras não são o único problema dos idosos. “Às vezes sinto-me sozinha, falta um ombro amigo para partilhar as dores, tenho uma cadelinha que me faz companhia porque o meu filho mora em Ajax e a minha filha está em Portugal. O First ajuda-me a passar o tempo e e lá acabamos por recordar os nossos tempos em Portugal. Gostava de visitar o que resta da minha família, mas o dinheiro não chega para tudo e há seis anos que não vou à minha terra.

Paula Faria é Coordenadora de Seniores do First Portuguese Canadian Cultural Centre e conhece bem esta realidade. “Trabalho com pessoas dos 55 aos 101 anos. Alguns têm problemas com o inglês e gostavam de ter um médico que falasse português. Outros não saem de casa porque não sabem pedir um Wheel-Trans. Alguns vivem em casas e precisam de ajuda para limpar a neve e para colocar o lixo na rua. Ajudamos a amenizar as saudades de Portugal e a combater a solidão com música, dança, cinema, ginástica, jogos, trabalhos manuais, pintura, informática…”, explicou.

Paula defende que a saúde mental dos idosos é importante e que a sua experiência de vida deveria ser reaproveitada. “Alguns precisam de ajuda psicológica porque vivem muito isolados. Penso que seria bom se a sociedade fosse mais inclusiva e se eles pudessem trabalhar até mais tarde. Eles não têm força física, mas têm know-how que seria benéfico para os nossos jovens”, justificou.

O First recebe cerca de 70 idosos de segunda a sexta-feira na sua sede na Caledonia Road e as verbas são sempre escassas para as necessidades. “Precisamos de um chão novo e de mais técnicos. Somos só três pessoas com mais alguns voluntários. E ainda ajudamos nas income taxes, um dos serviços que prestamos de forma gratuita”, adiantou.

Joana Leal

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