Temas de Capa

Heróis como nós

Ao longo da minha vida profissional tenho armazenado, felizmente, alguns pedaços de excelentes memórias. As más também existem, claro, mas a distância e o tempo têm-me feito o favor de as esbaterem, quase ao ponto de se tornarem insignificantes. Não são, na realidade. Têm aliás uma importância crucial na valorização do que vale a pena lembrar. Para sempre. Mas… vamos ao que interessa.

Hoje nesta edição do Milénio Stadium falamos de heróis. Dos que não têm capa, nem espada. Dos que marcam a sociedade com ações diárias – abnegadas e de profunda entrega aos outros. É aqui que entram as memórias. As minhas memórias. Em tempos não muito distantes tive ocasião de conhecer e dar a conhecer, através do meu trabalho, muitos. Chamei-lhes Heróis como nós porque são isso mesmo – heróis por aquilo que fazem, por marcarem pela diferença, mas pessoas, como nós. E há tantos… incógnitos, que gostam de passar despercebidos, e que recusam sempre ser o que são – os tais heróis.

Neste tempo tão angustiante quanto assustador que vivemos, neste tempo em que perdemos o controle das nossas vidas – somos obrigados a parar, a repensar a forma como nos relacionamos … – damos conta que a sociedade, à escala global, parece ter acordado da letargia em que vivia e impedia que fossem trazidos à luz do dia os perfis daqueles que hoje todos consideram serem os nossos Heróis. De repente olhamos para os médicos, os enfermeiros, os auxiliares de limpeza, os seguranças, os bombeiros, os polícias, os trabalhadores de supermercados ou padarias, os responsáveis pela recolha do lixo, os transportadores/motoristas (…) e percebemos que não somos nada, nem ninguém, sem eles. As cidades pararam é certo, mas a vida não. E por nós, que ficamos resguardados em casa, tentando escapar de um vírus maldito que está a devastar a humanidade, eles saem todos os dias. E todos os dias arriscam a própria vida.

Propositadamente, não mencionei uma classe profissional que aprendi a respeitar muito – os cuidadores de idosos. Seja trabalhando em Lares, seja no apoio ao domicílio, este é um trabalho difícil, desgastante tanto física, como emocionalmente, e merecedor da minha mais profunda admiração há uns anos. A dor sentida a cada perda, o luto que não se faz porque não há tempo a perder, o cuidar da higiene, dar de comer, dar atenção, o substituir uma família ou inexistente ou ausente, o carinho… tudo isto (e muito mais…) faz de cada cuidador (conhecem designação mais bonita do que esta?) um herói anónimo. Sempre, mas agora que se sabe que os mais velhos são os mais vulneráveis e por isso quem mais morre com Covid-19, o heroísmo assume outra dimensão. Os cuidadores de sempre continuam ao lado dos seus velhos (nunca tive medo desta palavra). Recusam-se a abandoná-los, mesmo sabendo que põem em risco a própria vida. Mesmo ouvindo todos os dias os números de mortes que aumentam na sua classe profissional – a contaminação fácil abre as portas e os tais heróis como nós, porque são como nós, muitas vezes não resistem e os cuidadores são obrigados a “abandonar” quem cuidam e quem, em casa, espera o seu regresso. E um dia não regressam. Para sempre. Mesmo sabendo disso, os Lares continuam a funcionar, a cuidar de quem precisa. Mesmo sabendo disso, quem faz serviço ao domicílio continua a circular nas cidades desertas e a entrar em casas que não são suas, todos os dias. Para cuidar de alguém. Numa demonstração de dedicação aos outros que emociona. E os outros são os nossos pais, os nossos avós que, por razões várias, nós lhes confiámos.

Só posso dizer a todos – obrigada. E prometer que não esquecerei tudo o que estão a fazer agora – nos hospitais, nas estradas, nas ruas, nos supermercados, nos lares… – tenho a certeza de que muitos que me estão a ler dirão exatamente o mesmo. As palmas que têm ecoado das janelas em todo o mundo, as diversas manifestações de agradecimento público que têm surgido de forma, mais ou menos, espontânea, fazem-me acreditar que sim. A gratidão vai perdurar e a forma como todos nós olhamos para estes profissionais será diferente. Quero acreditar que assim será. Que não vamos esquecer tudo, de repente.

Quero acreditar, afinal, que este tempo de Quaresma que, por ironia de um destino que desafiou todos os povos, se transformou num tempo de recolhimento e quarentena, será substituído pela esperança que representa a Páscoa. Esperança numa vida que se renova e renasce. Melhor e mais forte.

Madalena Balça/MS

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