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Grupos de lobby com bolsos profundos

Tentam parar o sistema farmacêutico universal no Canadá

Como esperado por muitos interessados neste assunto, empresas multinacionais de medicamentos e seguradoras patrocinaram esforços de lobby para travar o sistema farmacêutico universal no Canadá, conhecido em inglês como pharmacare.

Um relatório da Federação Canadiana de Sindicatos de Enfermeiros revela como poderosos lobistas das companhias de seguros, farmacêuticas e privadas estão a pressionar o Governo Federal a parar o plano do sistema farmacêutico universal no Canadá. O Canadá é o único país industrializado do mundo com assistência universal à saúde que também não fornece um plano universal de medicamentos. Como resultado, enquanto as seguradoras privadas cobrem 36% dos custos de medicamentos, muitos pacientes pagam franquias e pagamentos diretamente. O CFNU descobriu que uma média de 640 canadianos morrem anualmente no sistema atual devido a barreiras financeiras que se levantam na compra de medicamentos.

Ficou claro que o “Grupo de Trabalho Nacional de Farmácia” da Câmara de Comércio foi patrocinado por empresas multinacionais de produtos farmacêuticos e de seguros. A indústria farmacêutica e de seguros está silenciosamente a preparar uma campanha para interromper uma aliança de 150 organizações canadianas que pressionam o Governo Federal a seguir as recomendações do seu próprio painel de especialistas e a introduzir um sistema farmacêutico universal de pagamento único. A Câmara de Comércio Canadiana lançou um “plano de ação” em nome das “partes interessadas do negócio em todo o país”, ou seja, “provedores de benefícios” e “empresas farmacêuticas”.

Esse “movimento popular”, diz a Câmara de Comércio, “defenderá o modelo farmacêutico preferido com os líderes federais, provinciais/territoriais e municipais” e “concentrar-se-á em atingir os principais formuladores de políticas em Otava”. O “Grupo de Trabalho Nacional da Pharmacare” que formou o plano foi patrocinado por algumas das maiores empresas farmacêuticas e de seguros do mundo.

Esses patrocinadores contrastam fortemente com as 150 organizações canadianas representando profissionais de saúde, especialistas em políticas, sindicatos e grupos da sociedade civil, pressionando por um sistema farmacêutico universal de um único contribuinte. De facto, alguns dos patrocinadores da Câmara de Comércio pressionaram bastante contra a introdução de um sistema de um único pagador.

A Sun Life, uma companhia de seguros canadiana, declarou numa brochura no ano passado que se opunha ao modelo farmacêutico universal. Em 2018, a Manulife afirmou na sua apresentação ao painel consultivo do Governo Federal que “a implementação de um plano nacional farmacêutico universal com um único pagador seria uma tentativa extremamente desafiadora”.

Outras empresas farmacêuticas multinacionais que apoiam o plano têm como principal objetivo colocar os lucros à frente do interesse público:

-A AstraZeneca, uma empresa farmacêutica multinacional, esteve envolvida em controvérsias anteriores relacionadas com o marketing ilegal de drogas e foi acusada de realizar pesquisas sobre drogas perigosas.

-Johnson & Johnson, uma multinacional farmacêutica gigante, foi acusada de contribuir para a crise dos opioides por excesso de oferta de analgésicos altamente viciantes.

-Pfizer, outra gigante farmacêutica, recentemente falhou em partilhar informações valiosas sobre um novo medicamento que poderia ser usado para tratar a doença de Alzheimer.

Apesar da tentativa da Câmara de Comércio de se apresentar como a voz “popular” dos empresários, e não a voz das grandes empresas farmacêuticas e de seguros, o sistema farmacêutico universal seria um bom negócio. O próprio painel de especialistas do Governo Federal descobriu que um sistema universal de pagamento único economizaria $750 por ano por funcionário, por empresa. Ajudaria particularmente as pequenas empresas e startups atualmente incapazes de pagar a cobertura de medicamentos dos funcionários.

De acordo com a Canadian Health Coalition, o pharmacare ou sistema farmacêutico universal não apenas removeria os encargos financeiros das empresas, mas também aumentaria a produtividade e resultaria em menos dias de doença. Eles concluem que:

“A cobertura pública justa e eficiente de medicamentos também aumentará a produtividade e a competitividade do nosso país. Isso aliviará os empregadores do ónus financeiro de fornecer cobertura e permitirá que eles se concentrem nas suas operações comerciais. Uma população mais saudável também significaria menos tempo fora do trabalho”.

Infelizmente as grandes farmacêuticas e as principais companhias de seguros estão a pressionar o Governo Federal para manter o sistema atual. Para tornar as questões mais incertas, as respostas de Justin Trudeau a perguntas sobre este assunto, durante a última campanha, estão a deixar muitas pessoas sem saber se o Governo vai superar as pressões financeiras.

Peter Ferreira/MS

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