Temas de Capa

Gordura já não é formosura

Longe vão os tempos em que a gordura era considerada formosura. Para além do ditado popular, que durante tantos anos serviu para justificar o peso a mais, é fácil percebermos como, ao longo dos séculos, as formas humanas arredondadas inspiravam a veia artística e tanto seduziam pintores, escultores e até escritores. A moda de outras eras, se por um lado impunha o espartilho para acentuar a cintura, também estimulava esse imaginário da mulher voluptuosa, com as saias a mostrarem-se particularmente generosas na zona da anca. Por outro lado, ser gordo e anafado era próprio de alguém que estava bem na vida, ou seja, com um estatuto social que conseguia criar inveja.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e vivemos hoje quase no pólo oposto – numa sociedade que se auto-sujeita a uma verdadeira ditadura da imagem esguia, fina, magra e não raras vezes, até quase esquelética. Hoje olha-se de soslaio quem tem peso a mais. Os mais gordos sofrem a pressão dos outros (dos magros) que comentam, de forma descarada ou entredentes, “já viste como está gordo/a”, “quem o/a viu e quem o/a vê”… que se riem e gozam com a figura arredondada outrora tão apreciada e agora tão rejeitada socialmente.

A obesidade é uma doença, que fique muito claro! Desde o excesso de peso ligeiro à chamada obesidade mórbida. É uma doença, sem dúvida, e de muito difícil tratamento. Desenvolve-se numa espécie de espiral em que, quando se entra, é difícil sair. Ou porque há disfunções hormonais que provocam desequilíbrio e a sensação de fome parece ser insaciável ou porque há uma absorção excessiva de tudo quanto é ingerido ou, simplesmente, porque o organismo se vicia em comer. Depois, a tal espiral entra em funcionamento – aquele que cada vez come mais, cada vez precisa mais de comer, por outro lado, à medida que sobe o peso corporal a autoestima desce a pique e, com cada vez menos autoestima, mais tenta compensar as angústias e as pressões, comendo cada vez mais. E, raramente, os outros – os magros – os compreendem e tentam ajudar. Há quem tente. Sejamos justos… há quem tente, mas o sair da espiral passa por uma decisão muito solitária. Terá que ser o próprio a aceitar que a obesidade ou o excesso de peso já afeta o seu dia-a-dia, de tal modo, que lhe traz limitações várias – porque se cansa quando dá uma pequena corrida para apanhar um autocarro, porque não consegue dobrar-se para atar os sapatos ou até as brincadeiras com os filhos ou netos passam a ser verdadeiras provas olímpicas, tal é o esforço que têm que despender. Terá que ser o próprio a perceber que, por causa do excesso de peso, há outros males a invadirem-lhe o corpo – a diabetes, os problemas cardiovasculares… e a depressão que, tantas vezes, anda escondida por detrás dos croissants, pratos cheios de batatas, bolos ou pães com manteiga.

E depois vêm os “abutres” – as inúmeras propostas de emagrecimento milagroso; as clínicas que engordam os seus cofres com planos alimentares que emagrecem tanto e tão rapidamente quanto, logo a seguir, deixam os corpos ainda mais pesados; as pílulas que prometem a silhueta tão desejada em poucos dias, “sem esforço” – dizem eles…; e as contas bancárias também entram no jogo só que ao contrário – as dos gordos emagrecem e a dos outros (pretensos benfeitores) aumentam. Muito frequentemente, decorrentes de dietas malucas, para além de um corpo yo-yo (que emagrece, engorda, torna a emagrecer e volta a engordar..), quem embarca nelas ainda consegue juntar à sua doença, mais doença.

Naturalmente, que a obesidade tem cura. Claro que sim! Se a dieta alimentar começar na cabeça, não na boca e se for acompanhada por técnicos sérios e qualificados. Hoje trazemos, nesta edição do Milénio Stadium, alguns exemplos da determinação e querer que faz a diferença e produz efetiva mudança na vida das pessoas com problemas de excesso de peso ou obesidade. Porque queremos, genuinamente, ajudar quem precisa de um estímulo para se transformar num ser humano mais saudável, com um outro estilo de vida e outro tipo de alimentação. Porque queremos dizer-lhe que compreendemos a sua angústia e temos a certeza que, se for essa a sua vontade, com as pessoas certas (médicos, nutricionistas…) vai conseguir. Vai mudar por si, não pelos outros.

Madalena Balça

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