Temas de Capa

Gestos de boa vontade

O meu país é pequeno em área, mas de uma enorme variedade paisagística, seja ela de matriz natural ou humana. Por muito que se passeie, há sempre um recanto escondido à espera de ser descoberto. O mês passado, a convite de casais amigos, juntei-me a eles durante um fim-de-semana. Aproveitaram para me mostrar lugares nas proximidades da zona onde vivem. Apesar de pertencerem ao meu distrito de nascimento – Viseu – a verdade é que ainda não tinha tido oportunidade de os visitar. Um deles, Ucanha, de cuja torre e ponte fortificadas ouvira há muito falar, e visto em fotos de postal.

Quando lá chegámos, o nosso relógio biológico segredava-nos que eram horas de comer. O som da água do rio Varosa acompanhou-nos na travessia da ponte até à Tasquinha do Matias, onde havíamos planeado almoçar. Escusado será dizer que mandava o bom senso que tivéssemos feito reserva de mesa. Esperançados de que num domingo de chuva e invernia, poucos quisessem sair do conforto das casas e do calor da lareira, arriscámos.

Assim que entrámos, logo percebemos o quão errado estava o nosso raciocínio. Mesas corridas e já postas denunciavam a chegada breve de grupos, o mesmo acontecendo com outras individuais, em que a placa Reservado lhes ditava ocupação. Os pratos com lascas de presunto, fatias de queijo e rodelas de enchidos aguçavam-nos o apetite que já antes se fizera sentir. Estava demasiado claro que não havia lugar para nós, mas como a esperança é a última a morrer, já diz a máxima, por ali nos quedamos a namorar o balcão de atendimento.

Às atarefadas empregadas, ainda ousámos perguntar se havia alguma possibilidade. Com ar de pesar responderam que não, impossível, estava tudo cheio, e os grupos a chegar, não tardariam. A porta de entrada encarregou-se de o confirmar, quando por ela começou a entrar gente em carreirinha.

Lamentamos não ter feito reserva, que tínhamos vindo de longe, que ouvíramos gabar muito os milhos, que havia no grupo quem nunca os tivesse provado, argumentámos numa lamúria de carpideiras. E era tudo verdade, ao ponto de eu achar que a nossa sinceridade fez soar as campainhas da comiseração de D. Filomena, proprietária do restaurante. Aproximou-se de nós e admitiu que se não estivesse a chover até nos arranjava um lugar na esplanada ou no jardim, mas com aquela chuva…

Nem o tempo nos ajudava, confidenciámos sem arredar pé, mantendo marcação cerrada ao balcão. Foi o tempo de ouvirmos D. Filomena, dizer: “Vou arranjar-vos ali uma salinha… venham, mas está fria.”

Da forma como falou, pensámos numa arrecadação, num espaço de arrumos, quando, ao segui-la, nos demos conta de que estávamos a atravessar a rua. Abriu-nos a sua Enoteca, loja de exposição, venda e prova de vinhos, bem como de outros produtos regionais.

Num ápice, retirou da mesa redonda onde estavam os copos e as garrafas para uma das sessões, e começou logo a pôr a mesa. Para combater o frio do ambiente foi buscar um aquecedor a óleo e deu instruções para que nos servissem naquele espaço. Como as paredes são rasgadas por janelas e portas de vidro, sentimo-nos figurantes de uma montra. De vez em quando, um ou outro mirone encostava a cabeça ao vidro para anular o reflexo, e tentava ver melhor o que se passava lá dentro. Trocávamos sorrisos cúmplices na certeza, como nos confidenciou D. Filomena, de que era a primeira vez que ali se serviam refeições. E os típicos e saborosos milhos chegaram numa panela de ferro de três pés, a que minha mãe sempre chamou pote.

Quando me pedem que faça o balanço do ano que agora finda, não me inclino para as grandes figuras, nem causas ou desastres naturais, porque são gestos como este de D. Filomena, anónimos e de boa vontade, que marcam o nosso quotidiano.

Aida Batista

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