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Eles e elas no mercado de trabalho

 

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As mulheres canadianas e portuguesas são a maioria nas universidades, mas nem um curso superior lhes garante o mesmo acesso ao mercado de trabalho do que a um homem, sobretudo a nível de salário. As posições de liderança dentro das empresas públicas e privadas continuam a ser lideradas pelos homens. A informação não é revelada diretamente porque o setor público proíbe a divulgação do género, mas pelo primeiro e último nome é possível perceber que os homens continuam a representar 95% das posições de liderança em empresas públicas.

Na Europa a realidade é igual. Dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos apontam que as mulheres têm salários inferiores aos dos homens em praticamente todas as profissões. A desigualdade de género começa no momento em que nascemos e prolonga-se pelo resto da vida, inclusive nas aposentações. É difícil de perceber e de aceitar que em média uma mulher tenha mais escolaridade, inclusive formação superior, e que mesmo assim entre em desvantagem no mercado de trabalho porque vai ter acesso a empregos mais precários do que os dos homens. Não surpreende por isso que a Fundação Francisco Manuel dos Santos aponte que as mulheres têm um risco de pobreza mais elevado quando comparado com os homens. Outro dos problemas apontado num estudo desta entidade é o facto das mulheres serem líderes em número de horas de trabalho que não é remunerado – aqui inclui-se o tempo extra que investem na carreira profissional como na vida doméstica. 

No Canadá, a pandemia agravou este fosso entre homens e mulheres e um relatório do RBC divulgado em 2020 concluiu que a participação das mulheres no mercado de trabalho caiu para os níveis mais baixos dos últimos 30 anos. Resta agora saber quanto tempo vai ser preciso para recuperar os níveis da década de 90, se é que vamos voltar a vê-los.

O relatório do RBC indica que 1,5 milhões de mulheres canadianas perderam o seu emprego nos primeiros dois meses da pandemia e 45% das mulheres viu as suas horas serem cortadas. A explicação, ou parte dela, parece estar no facto de que as mulheres são dominantes em setores como a hotelaria, retalho, serviços educacionais e assistência social. Os direitos das mulheres constam da The Canadian Charter of Rights and Freedoms e do Canadian Human Rights Act, mas a diferença salarial, a maternidade, as doenças relacionadas com o trabalho e o equilíbrio entre a vida familiar e profissional não são problemas novos. Em 2018 o Governo federal dedicou um ministério à questão do género e da igualdade – o Women and Gender Equality Canada (WAGE) -, o que revela que o problema continua a ser bem atual, apesar de todos os esforços. O ministério dedica-se à promoção da igualdade da mulher em três eixos essenciais:  aumentar a segurança económica e a prosperidade das mulheres; encorajar a liderança das mulheres e a participação democrática e acabar com a violência de género. 

Em 1951 a província de Ontário foi a primeira província canadiana a adotar a primeira legislação de igualdade de remuneração do país. Oito anos depois todas as províncias seguiram Ontário, exceto o Quebec e Newfoundland & Labrador. Os benefícios relativos à maternidade só foram incluídos no subsídio de desemprego em 1971. O código do trabalho do Canadá só foi alterado em 1978 para eliminar a gravidez como justificação para despedir uma mulher. 

Em 2009, pela primeira vez na história do Canadá, o mercado de trabalho tinha mais mulheres do que homens. Agora a pandemia mudou o mundo e as conquistas que a mulher adquiriu nas últimas décadas voltam a estar em risco uma vez mais. 

As mulheres também são afetadas porque assumem mais responsabilidades de cuidar dos filhos, pelo menos quando comparadas com os seus colegas homens e não hesitam em pedir uma redução do horário de trabalho se os filhos não regressarem à escola no outono.  Outras preferem voltar ao trabalho mais tarde porque colocam a família em primeiro lugar. Dados da Statistics Canada apontam que o emprego entre mulheres com crianças em idade escolar caiu 7% entre fevereiro e março. Ainda não existem dados em relação aos outros meses, mas tudo aponta para que a tendência se mantenha. Nos homens com crianças da mesma idade o desemprego caiu 4%.  

As mães solteiras com um filho pequeno ou em idade escolar viram a sua taxa de emprego cair 12% entre fevereiro e junho, quase o dobro quando comparado com pais solteiros. O relatório da RBC compara a recessão económica criada pela pandemia com recessões anteriores e conclui que antes os homens tinham uma probabilidade maior de serem despedidos. O banco compara as recessões dos anos 80 com a crise financeira de 2008 e conclui que agora as mulheres têm mais riscos. 

Com a pandemia o RBC adianta que um terço das mulheres que perderam o emprego entre fevereiro e junho não procuraram um novo emprego e por isso enfrentam mais riscos de demissão a longo prazo e/ou futuras penalizações no salário. 

As mulheres que não perderam o emprego alegam por sua vez que uma das hipóteses poderá ser deixarem o seu emprego definitivamente porque ganham menos do que os companheiros e precisam de tomar conta dos filhos. Mas uma pausa na carreira também pode significar perder a confiança e a rede de contatos.

Por outro lado, há também quem argumente que não existem condições para procurar emprego porque as creches são agora ambientes instáveis que a qualquer momento podem ter um surto de COVID-19 e o novo empregador pode não ter esta flexibilidade.

Em jeito de conclusão fica aqui a nota de que até hoje o Canadá só teve uma primeira-ministra na sua história. Kim Campbell foi eleita em 1993 e uma das suas frases conhecidas é de que ficaria ainda mais orgulhosa se um dia fosse uma das 10 primeiras-ministras do país. Em Portugal, que acabou de reeleger Marcelo de Rebelo de Sousa para Presidente da República, a diplomata candidata Ana Gomes foi a mulher mais votada de sempre numas eleições presidenciais em Portugal. Razões que nos levam a crer que ainda existem áreas onde as mulheres dificilmente conseguem chegar dentro da organização de uma sociedade. 

Joana Leal/MS

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