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Efeitos da pandemia na saúde mental das crianças

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Foto: DR

Um relatório divulgado em setembro indica que a pandemia de COVID-19 está a piorar a saúde mental e física das crianças canadianas. O relatório, Raising Canada 2020, foi publicado pelo Instituto O’Brien de Saúde Pública da Universidade de Calgary, pelo Instituto de Investigação do Hospital Infantil de Alberta e pela Children First Canada, uma associação nacional que luta pela defesa dos direitos das crianças.

O estudo desta associação revela ainda que existem vários problemas que estão a aumentar nas crianças canadianas devido à pandemia: pobreza; insegurança alimentar; abuso infantil; negligência, falta de atividade física, ansiedade e depressão. A Children First Canada diz que agora “o suicídio é a principal causa de morte entre crianças entre os 10 e os 14 anos” porque a infância não é uma fase feliz das suas vidas. O relatório concluiu que uma em cada três crianças no país não teve uma infância segura e saudável durante a pandemia. Para as crianças que já viviam com fome, insegurança alimentar ou violência doméstica antes da pandemia, o desemprego ou a mudança nos rendimentos familiares agravou a sua condição. A escassez de alimentos e a insegurança financeira pode ter efeitos traumáticos nas crianças, conclui o relatório. Outra das particularidades deste relatório é que os canadianos de origem chinesa temem que os seus filhos sejam vítimas de bullying nas escolas por causa da associação do vírus à China.

A Children First Canada não está surpreendida com os resultados porque sublinha que a saúde física e mental das crianças canadianas tem vindo a piorar na última década quando comparada com outros países desenvolvidos.

Em junho um estudo publicado pelo Canadian Medical Association Journal (CMAJ) tinha alertado para os efeitos da pandemia na saúde mental das crianças e dos adolescentes. O estudo foi conduzido pelo SickKids em Toronto e pela Universidade de Exeter no Reino Unido e relatou que o isolamento forçado e a incerteza económica podem levar a um aumento do stress e dos conflitos em casa e por isso a um maior risco de violência familiar. Peter Gill, investigador do SickKids e autor deste estudo, sublinha que o encerramento de escolas pode aumentar a insegurança alimentar das crianças porque algumas dependem destes programas para ter acesso a uma refeição diária. O SickKids alerta também que crianças que vivem em moradias ou apartamentos lotados, como é o caso de refugiados, indígenas e famílias com rendimentos inferiores, também estão mais expostas a riscos. Os investigadores acreditam que menos interação social e ausência de rotinas pode levar a um aumento no tempo em que as crianças passam em frente a um ecrã, redução de atividade física e aumento das taxas de depressão e de ansiedade nas crianças.

Em crises de saúde anteriores à pandemia de COVID-19, vários investigadores provaram em diferentes países que a saúde mental das crianças é afetada. O CAMH (Centro para Adições e Saúde Mental) analisou 24 estudos que provaram o impacto psicológico negativo nas crianças no Canadá, México e EUA. Durante a crise de SARS um estudo feito em 2013 concluiu que a quarentena e o isolamento podiam ser traumatizantes tanto para os pais como para as crianças. A Perturbação de Stress Pós-Traumáticos (PSPT) aumentou 30% em crianças no Canadá, México e EUA depois de terem ficado isoladas. Outro dos elementos identificados no estudo foi uma maior propensão das crianças para PSPT quando os pais também tinham a doença.

Mais de 4,600 canadianos de 10 províncias responderam a um estudo feito pela Statistics Canada entre abril e março que concluiu que mulheres e crianças estão entre os canadianos que mais sofreram a nível psicológico com a pandemia. Apenas 42% destes jovens disseram estar sem problemas de saúde mental, enquanto que em 2018 a percentagem era de 62%. Um estudo feito em Espanha relatou que durante a pandemia 85% dos pais identificaram comportamentos diferentes nos filhos: dificuldade em concentrar-se (76.6%), irritabilidade (39%); nervosismo (38%), solidão (31.3%); inquietação (30.4%) e preocupação (30.1%).

A Association for Canadian Studies percebeu este ano que a pandemia afetou mais as crianças do sexo feminino. Um estudo que analisou as respostas de mais de 1.000 crianças e jovens entre os 12 e os 17 anos entre abril e maio revelou que 72% das crianças e jovens do sexo feminino estavam a sentir-se tristes, enquanto que nas crianças e jovens do sexo masculino a percentagem desceu para 55%.

Abaixo publicamos uma entrevista à Children’s Aid Foundation of Canada (CAFC), uma fundação que trabalha com 72 agências nacionais e ajuda jovens e adultos (até aos 29 anos) em todo o país a conseguirem construir uma vida independente. 

Milénio Stadium: Durante a pandemia, mais de 93% dos jovens que se inscreveram no fundo de apoio à crise da Children’s Aid Foundation of Canada procuraram ajuda para alimentação e moradia. Como analisa esse número em comparação com o ano passado?

CAFC: No início da paralisação da pandemia no nosso país, a Children’s Aid Foundation do Canadá ouviu um número sem precedentes de antigos jovens [hoje adultos] que precisavam de ajuda para fazer a transição de um orfanato para uma vida independente.  Os jovens que crescem nestas instituições enfrentam uma série de desafios em circunstâncias normais quando precisam de ser independentes. Quando fazem 18 anos, a lei impede-os de continuarem neste tipo de instituições. Como não têm família permanente, com a pandemia muitos sentiram-se completamente sozinhos e isolados. Rapidamente fizemos um apelo nacional de arrecadação de fundos de emergência COVID-19 para apoiar jovens e crianças que estão nestas instituições.

MS: O governo de Ontário apoiou a Children’s Aid Foundation of Canada com $500.000. Como é que a fundação estabeleceu as prioridades?

CAFC: O governo de Ontário concedeu um subsídio único ao Fundo de Apoio COVID-19 da Fundação para Antigos Jovens em Cuidados para fornecer cuidados aos jovens com necessidades básicas durante a COVID-19. O objetivo do fundo é ajudar os jovens a pagar as despesas básicas do dia a dia e os custos ocultos da pandemia, para que possam pagar uma teto, comprar alimentos, evitar caminhos perigosos e tentar ficar sem dívidas.

MS: Às vezes as famílias não têm recursos financeiros para obter apoio ao nível da saúde mental para os seus filhos. Como é que as crianças estão a lidar com o isolamento e a ansiedade durante a pandemia?

CAFC: A CAFC está preocupada com o impacto da pandemia a longo prazo nas crianças, famílias e jovens. Como a pandemia continua indefinidamente, o stress contínuo de um futuro incerto e imprevisível pode contribuir para o aumento de tensões nas famílias e pode exacerbar ainda mais situações difíceis e perigosas que envolvem crianças, famílias e jovens vulneráveis. Através de doações para o nosso Fundo de Apoio à Criança e Família COVID-19, podemos aliviar o stress e a ansiedade, enquanto disponibilizamos acesso a programas de saúde mental online, tecnologia de e-learning que ajuda as crianças a ficarem conectadas e atividades educacionais em casa, como ciências e artes visuais.

MS: Quantas crianças, jovens e adultos é que a CAFC ajuda anualmente?

CAFC: A CAFC é a instituição de caridade líder no nosso país e dedica-se a melhorar a vida de crianças e jovens que vivem nos orfanatos. Através de fundos oferecemos uma vasta gama de programas e serviços que têm um grande impacto na vida destes jovens. Trabalhamos em parceria com 72 agências de atendimento em todo o país que apoiam mais de 19.300 jovens vulneráveis e 4.200 famílias anualmente.

MS: A CAFC recebeu uma doação de $ 5 milhões da família Rogers para apoiar crianças, jovens e famílias vulneráveis durante a pandemia. Infelizmente poucas empresas canadianas podem fazer uma doação tão grande.

CAFC: A Fundação de Ajuda à Criança do Canadá recebeu um grande apoio de muitos de seus doadores de longa data e também de novos doadores que estão a colaborar e a querer ajudar populações vulneráveis em crise. Mas como a pandemia continua indefinidamente, reconhecemos que vai ter repercussões a longo prazo para estes jovens. Depois da pandemia estas crianças e jovens vão precisar de mais assistência para conseguir reerguer-se e por isso todo o tipo de doações são bem-vindas.

Conselhos para ajudar crianças a navegar na nova realidade

A UNICEF acredita que professores e pais devem ajudar as crianças e os adolescentes a lidar com o stress durante a pandemia e por isso defende que ambos têm que estar atentos e saber escutar para identificar fatores de risco nos mais novos. Em declarações à UNICEF, Lisa Damour, psicóloga especialista em adolescentes, colunista mensal do New York Times e autora de vários best-sellers que podem ser encontrados nas livrarias canadianas, diz que existem vários passos importantes para aprender a navegar nesta nova realidade. Entre eles, manter a calma, criar uma rotina, deixar as crianças viver as suas próprias emoções, verificar as informações que absorvem, criar distrações agradáveis e monitorizar o seu próprio comportamento.

Lisa sublinha à UNICEF que as crianças precisam de ser informadas para que os adultos possam intervir. “Digam aos vossos filhos que podem começar a sentir sintomas da COVID-19 a qualquer momento e que se tal acontecer não devem ficar assustados. Peçam às crianças para vos avisarem se algo não estiver bem para que possam ser ajudados pelos adultos”, disse.

A autora de vários best-sellers sobre crianças e adolescentes encoraja os pais a explicarem aos filhos que normalmente os sintomas da COVID-19 nas crianças são “leves”, que muitos desses sintomas “podem ser tratados” e que é importante que lavem as mãos com frequência, não toquem no rosto e pratiquem distância social. A rotina é importante na formação das crianças e por isso as brincadeiras devem ser incluídas durante o dia e até podem incluir telemóvel ou tablet. Para os pais que estão a trabalhar e não podem acompanhar os filhos estas regras devem ser transmitidas a quem o faz. Com os encerramentos das escolas ou com a preferência dos pais pelo ensino à distância para tentar proteger os filhos de possíveis surtos de contágio, é normal e natural que as crianças se sintam tristes e frustradas. A psicóloga recomenda por isso que se coloque no lugar do seu filho, que o apoie e que lhe transmita que entende que ele esteja triste.

Outro dado importante é verificar a informação que os mais novos estão a reter. Com tantas teorias de conspiração a circular sobretudo nas redes sociais é normal que também as crianças sejam vítimas da desinformação que circula um pouco por todo o lado sobre o novo coronavírus.

Daí a importância dos pais confrontarem os filhos e perceberem se a informação que eles têm sobre a COVID-19 é verdadeira e idónea. Assim vão evitar mal-entendidos e sempre que existirem dúvidas devem consultar entidades credíveis e não redes sociais. A UNICEF, a Organização Mundial de Saúde e as autoridades de saúde, neste caso a Health Canada, são fontes confiáveis e por isso devem ser privilegiadas.

No campo das distrações, Lisa Damour recomenda preparar refeições juntos ou fazer até uma noite de jogos em família. Os tablets e os telemóveis podem ser usados, mas os tempos de consumo devem ser limitados e controlados.

Ansiedade e stress são fatores que afetam a maioria dos seres humanos, sobretudo se lhes juntarmos pelo meio uma pandemia de um vírus novo para o qual a comunidade científica mundial ainda não encontrou a cura. Na semana em que a Health Canada recomendou que as máscaras não-médicas devem ter três camadas para proteger as pessoas em espaços fechados durante o inverno, lembre-se que as adversidades fazem parte da vida humana desde sempre e que a história ensinou-nos que o ser humano é capaz de encontrar soluções até nos momentos mais desesperantes. Quem sabe se este ano não poderemos ter uma vacina antes do Natal e se em breve não podemos recuperar a nossa antiga normalidade. Até lá aproveite para construir uma relação mais forte com o seu filho. Como dizia Antoine de Saint-Exupéry no livro O Principezinho, “foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”.

Joana Leal/MS

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