Temas de Capa

Duas perspetivas – Proprietários & Inquilinos

Ruas vazias. Negócios fechados. Casas particulares cheias, com a família a proteger-se de uma doença que se tem mostrado de forma assustadora em todo o mundo. Mas se estar em casa, normalmente, é um desejo de quem tem que sair todos dias para trabalhar e ambiciona por tempo com a família e algum descanso, agora esta obrigação está a tornar-se não só difícil de suportar, no que diz respeito a saúde mental, como traz preocupações sérias em termos financeiros.

A informação sobre apoio às famílias anunciado pelo Governo parece ainda não ter chegado devidamente ao destino. Por outro lado, a frase de Doug Ford – “ninguém poderá ser posto fora da sua casa por não pagar a renda” – teve outro impacto. Este é um assunto que tem sempre duas perspetivas – a do senhorio e a do inquilino (ou rendeiro). Nesta edição do Milénio Stadium trazemos uma pequena amostra do que poderão ser atualmente as preocupações de um e de outro lado.

Maria – (nome fictício) – 40 anos – empregada de supermercado

MS:  A Maria continua a trabalhar?

Maria: Sim. Tem que ser, não é? As pessoas precisam de comer, por isso os supermercados têm que continuar abertos. Temos algum receio, mas pronto…

MS: Então os seus rendimentos continuam a ser os mesmos…

M: Os meus sim, mas os do meu marido não. Ele veio para casa porque trabalha numa empresa que está praticamente fechada agora.

MS: Está preocupada com o futuro?

M: Estou sim. Lá em casa temos falado muito sobre como vai ser a nossa vida. Temos muitas despesas – o carro que ainda estamos a pagar, o seguro do carro e a renda da casa. O meu marido diz que agora ninguém nos pode pôr na rua, mas não sei como vai ser.

MS: Sabe que foram anunciadas medidas de apoio às famílias, tanto pelo Governo Federal como pelo da província?

M: Pois é isso. Parece que o Ford disse que ninguém nos pode pôr na rua se não pagarmos a renda, mas pelo que entendo nós vamos ter que a pagar. Se não for agora será depois. Por isso vai dar no mesmo. Mas se chegarmos ao ponto de não ter dinheiro para tudo, primeiro temos que dar de comer aos nossos filhos.

MS: Também foi anunciado um apoio mensal que pode ir até 2.000 dólares por mês.

M: Ai sim? Olhe isso é que eu ainda não sabia. Isso sim, dava muito jeito. Quando chegar a casa já digo ao meu marido para ver onde podemos pedir essa ajuda. No meio de tanto medo da doença pelo menos deixávamos de ter tantas preocupações com os pagamentos.

 

Fernando Silva – 28 anos – construção civil

MS: Neste momento qual é a sua situação profissional?

Fernando Silva: Estou em casa. Tive que ir para EI por causa da falta de trabalho. O meu patrão faz pequenas obras de reparação e agora ninguém quer gente dentro das suas casas. O trabalho que tínhamos desapareceu quase de um dia para o outro. E o pior é não saber quando posso voltar a trabalhar.

MS: O Fernando não tem casa própria, vive numa casa arrendada. Está preocupado com o pagamento da renda?

FS: Muito. Sou uma pessoa que não gosta de falhar com os meus compromissos. Sempre fui habituado a isso. Já vem de família. Por isso estou preocupado porque as despesas continuam a ser as mesmas. Tenho algum dinheiro de lado, mas vai-se embora depressa se lhe começar a mexer. Portanto, se isto durar muito tempo não sei como vou fazer.

MS: Sabe que foram anunciadas medidas de apoio às famílias, tanto pelo Governo Federal como pelo da província?

FS: Ouvi dizer qualquer coisa, mas sinceramente ainda nem entendi ao que posso ter direito, nem como.

MS: Pode ter um apoio até 2.000 dólares por mês e por outro lado o seu senhorio não o pode por fora de casa por falta de pagamento.

FS: Bem, isso dos 2.000 dólares por mês era uma boa ajuda. Vou ter que ver isso. Mas espero não chegar ao ponto de falhar com o pagamento da renda da minha casa.

 

Fernando Silva – 28 anos – construção civil

MS: Neste momento qual é a sua situação profissional?

Fernando Silva: Estou em casa. Tive que ir para EI por causa da falta de trabalho. O meu patrão faz pequenas obras de reparação e agora ninguém quer gente dentro das suas casas. O trabalho que tínhamos desapareceu quase de um dia para o outro. E o pior é não saber quando posso voltar a trabalhar.

MS: O Fernando não tem casa própria, vive numa casa arrendada. Está preocupado com o pagamento da renda?

FS: Muito. Sou uma pessoa que não gosta de falhar com os meus compromissos. Sempre fui habituado a isso. Já vem de família. Por isso estou preocupado porque as despesas continuam a ser as mesmas. Tenho algum dinheiro de lado, mas vai-se embora depressa se lhe começar a mexer. Portanto, se isto durar muito tempo não sei como vou fazer.

MS: Sabe que foram anunciadas medidas de apoio às famílias, tanto pelo Governo Federal como pelo da província?

FS: Ouvi dizer qualquer coisa, mas sinceramente ainda nem entendi ao que posso ter direito, nem como.

MS: Pode ter um apoio até 2.000 dólares por mês e por outro lado o seu senhorio não o pode por fora de casa por falta de pagamento.

FS: Bem, isso dos 2.000 dólares por mês era uma boa ajuda. Vou ter que ver isso. Mas espero não chegar ao ponto de falhar com o pagamento da renda da minha casa.

 

Maria Ferreira – proprietária

MS: Uma das questões que mais se tem colocado nos últimos tempos, em que muitas pessoas veem os seus rendimentos diminuídos, com teletrabalho ou mesmo despedimento, diz respeito à capacidade financeira das famílias. “Como vai ser possível pagar as suas despesas mensais, com destaque para a renda da casa?”. Já sente nos seus rendeiros essa preocupação ou mesmo já dificuldade?

Maria Ferreira: Falou-se disso… Nós agora não estamos no escritório, falaram disso, sim, mas até agora não tivemos problemas. Até já está tudo pago. Já desde a semana passada. Talvez tenham falado para experimentar a nossa reação, mas já temos tudo pago.

MS: O Governo tentou descansar as famílias, anunciando que ninguém poderia ser despejado da sua casa, por falta de pagamento das rendas. E em relação aos proprietários, sente-se apoiado pelo Governo nas suas necessidades?

MF: Sabe, nós estamos a falar de à volta de 1000 rendeiros. Eu adoro os meus rendeiros. Até agora não se têm levantado problemas.  As pessoas têm os seus compromissos (as suas mortgages…), mas os rendeiros têm direito a receber subsídios do Governo. O Governo está a ajudar os rendeiros e eu compreendo. Nunca fui atrás de nenhuma ajuda, mas compreendo. Como digo, até estou bastante satisfeita porque já começaram a pagar desde a semana passada. No entanto, é bom clarificar que o Governo está a dar 2.000 dólares por família/mês para ajudar nas despesas principais. É bom anunciar porque talvez as pessoas não saibam. E este é um ponto importante. Obviamente têm que provar que é verdade que perderam o trabalho ou tiveram diminuição de rendimentos, mas eu penso que o Governo está a ajudar os rendeiros. Por agora eu não tenho ninguém a não pagar.

MS: Há quem diga que forma como foi comunicada essa decisão de proibir o despejo em caso de não pagamento da renda pode dar azo a abusos por parte dos inquilinos. O que pensa disso?

MF: Até agora, como disse, eu não tenho nenhuma situação dessas, mas acredito que isso possa acontecer – que algum rendeiro possa querer tirar alguma vantagem disso. Infelizmente isso pode acontecer e, por isso, penso que devia haver certas restrições porque vai haver abusos dessa situação. E não é por ser proprietária, eu penso que não deviam fazer essa publicidade tão aberta. Penso que realmente foi um defeito. Vai haver proprietários que vão sofrer com isso, talvez injustamente. Sim… se for uma situação real, verdadeira, temos que dar tempo ao rendeiro, não paga hoje pode pagar daqui a duas semanas… tudo isso eu concordo. Devemos tentar ajudar, este é um problema mundial para todo o povo. Ainda agora acabei de desligar uma chamada onde me falaram de situações de dificuldade de pagamento dos rendeiros em Portugal, tanto do ramo residencial, como comercial – eu sugeri uma redução de 25% das rendas (nem sei se vão aceitar ou não). Por isso eu acho que temos que colaborar e tentar ajudar porque os rendeiros são pessoas como nós, mas vai haver gente que vai abusar dessa situação.

MS: Qual será a solução, na sua opinião, para haver um maior equilíbrio? No fim de contas, como se pode garantir que as famílias agora afetadas com a crise gerada pela pandemia sejam efetivamente apoiadas, mas sem prejudicar o negócio de arrendamento?

MF: Ora bem, eu acredito que se o Governo está a dar 2.000 dólares por mês para ajudar as famílias em dificuldades, aquelas que estão a ser realmente afetadas pela crise e isso para a maioria dos rendeiros já vai ser uma grande ajuda – porque eu também tenho muitos a quem isto não vai afetar, são pessoas que ganham cento e tal mil ou 200 dólares por ano e que pagam 50.000 dólares de renda sem problemas nenhuns. Também esperamos que isto não dure muito tempo, obviamente. Se chegar ao ponto de as pessoas não conseguirem mesmo pagar eu como proprietária não sou um animal para dizer “vai para a rua”. Visto que, felizmente, 99% dos nossos rendeiros são pessoas sérias, não temos problemas. Ora se eu tenho um rendeiro que tem sido um rendeiro de respeito, pontual, se chegar e disser que está nessa situação “não consigo pagar hoje, pago para a semana, em vez 2.000 pago 1.800, 1.700…”, não há problema. Estou open mind para poder ajudar, com um gesto de simpatia, mas o rendeiro tem ajuda do Governo por isso acho que não deve haver necessidade disso. Também não se pode exigir dos proprietários mais, porque os proprietários também têm as despesas deles.

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