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Diversidade racial nem sempre significa igualdade

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Foto: DR

O Canadá é uma das nações com maior diversidade racial do mundo e a composição da sua população continua a mudar. Segundo o Census de 2016 existem 7,7 milhões de indivíduos racializados no Canadá, o que representa 22% da população. Os dados revelam um aumento de 16% quando comparado com uma década antes. Mas infelizmente este rápido crescimento da população racializada não está a ser acompanhado por um aumento a nível de igualdade económica. 

As estatísticas mostram que quem pertence a um grupo étnico diferente ganha menos do que um branco mesmo quando ocupa posições semelhantes no mercado de trabalho. Os trabalhadores racializados têm mais probabilidades de estar ativos no mercado de trabalho do que os que não são racializados, quer seja a trabalhar ou à procura de trabalho, mas isso não significa que que tenham melhores empregos. Entre 2006 e 2016 existiram poucas mudanças nos padrões de desigualdade de emprego e rendimento nos vários grupos étnicos e géneros no Canadá.

Em 2016, a população racializada teve uma taxa de desemprego de 9,2% em comparação com 6,3% da taxa da população não racializada. As mulheres racializadas tiveram a maior taxa de desemprego com 9,6%, seguidas por homens racializados com 8,8%, homens não racializados com 8,2% e mulheres não racializadas com 6,4%.

Em 2015, os homens racializados ganharam 78 centavos para cada dólar que os homens não racializados ganharam. Essa diferença de rendimentos permaneceu inalterada desde 2005. Dos grupos racializados no Canadá, o maior é formado por aqueles que se identificam como sul-asiáticos, seguidos por aqueles que se identificam como chineses e aqueles que se identificam como negros. Esses três grupos representam pouco mais de 60% da população racializada do Canadá.

Há a ideia comum de que a discriminação que os trabalhadores racializados enfrentam no mercado de trabalho canadiano faz parte da experiência como imigrante e é comum a todos os imigrantes. Todos que vêm para este país lutam, diz a história, especialmente no início, mas o sacrifício vale a pena porque as gerações seguintes colhem os benefícios desse sacrifício e integram-se rapidamente e com grande sucesso no mercado de trabalho.

No entanto a ideia não está provada em estudos. As experiências do mercado de trabalho são muito diferentes para imigrantes racializados e não racializados. Imigrantes não racializados integram-se melhor no mercado de trabalho canadiano, e mais cedo, do que os imigrantes racializados. A desigualdade de rendimentos entre canadianos racializados e não racializados vai além da experiência do imigrante e afeta a segunda e a terceira gerações.

Um dos gráficos publicados aqui mostra a salário para trabalhadores racializados e não racializados em idade ativa, dos 25 aos 54 anos. O gráfico mostra que em 2015 os homens imigrantes racializados ganhavam 71 centavos para cada dólar que os homens imigrantes não racializados ganhavam. Mas as diferenças também são visíveis a nível de género: mulheres imigrantes racializadas ganhavam 79 centavos para cada dólar que as mulheres imigrantes não racializadas ganhavam. Luisa Schwartzman é professora associada de sociologia da Universidade de Toronto e ajudou-nos a perceber melhor o multiculturalismo canadiano, mas sublinhou que a integração dos diferentes grupos étnicos no Canadá foi feita depois de um processo violento de segregação com os indígenas.

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População racializada no Canadá em 2016 e Rendimento médio do emprego por geração, trabalhadores em idade avançada em 2015. Fonte: Statistics Canada.

 

MS: Qual é o conceito de raça?

Luísa Schwartzman: A raça não existe na natureza, é apenas uma construção social. No Brasil está mais relacionada com a cor da pessoa e na mesma família dois irmãos podem cores diferentes, um pode ser negro e o outro pode ser branco. No Canadá e nos EUA acho que a origem e o grupo étnico a que a pessoa pertence também é importante. O Canadá era muito fechado a imigrantes de pessoas que não fossem brancas. Antes dos anos 60 se você não fosse branco de origem europeia era muito difícil emigrar para o Canadá. Depois a imigração passou a ter por base o Points-based System que na realidade discrimina por classes sociais, mas passámos a ter pessoas de vários países no mundo, independentemente da sua raça, que podem emigrar para o Canadá. Já existiam cá muitas pessoas origem africana, asiática, etc., mas desde que o país mudou as regras estas populações cresceram. Também existem fenómenos que ocorreram depois da II Guerra Mundial, como a descolonização da África e da Ásia, o movimento dos direitos civis nos EUA e o movimento pela independência do Quebec que facilitaram a luta pelos direitos das minorias no Canadá. O multiculturalismo surgiu porque algumas minorias que residiam no Canadá que não eram nem de origem francesa nem inglesa também começaram a lutar pelos seus direitos e contra a segregação. O multiculturalismo tornou-se numa forma de combater o racismo, mas mais recentemente, especialmente depois do 11 de setembro de 2001, a questão da discriminação religiosa se tornou mais evidente porque algumas pessoas vêem muçulmanos como terroristas ou como pessoas culturalmente distintas que não podem se integrar à nossa sociedade.

MS: De acordo com os dados do Census de 2016 divulgados pela Statistics Canada, 7,7 milhões de canadianos pertencem a uma minoria visível, o que representa 22,3 por cento da população, mais 4,7 por cento do que em 1981. Como é que analisa a integração destes diferentes grupos étnicos na sociedade canadiana?

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Luisa Schwartzman é professora associada de sociologia da Universidade de Toronto. Crédito: DR

LS: Qualquer país tem segregação e o no Canadá não foi diferente, as pessoas tiveram que lutar pelos seus direitos. Mas o facto de o país ter instituído o multiculturalismo como ideologia deu às minorias uma oportunidade para lutar por esses direitos. Aqui não há tanta segregação como nos EUA, mas não quer dizer que não existam problemas. A polícia canadiana continua a perseguir mais os negros do que outros grupos raciais. A questão dos indígenas também é complexa, havia uma política genocida que tirava as crianças da família para colocá-las em colégios internos, e depois disso houve uma política de dar crianças indígenas para adoção sob o argumento de que os pais não cuidavam das crianças, foi uma política de assimilação forçada da população indígena no Canadá. A própria percentagem de indígenas presos no Canadá é muito elevada: embora os indígenas sejam apenas 5% da população canadiana cerca de 30% está hoje preso em prisões federais, há quatro anos eram 25%. A integração dos imigrantes e dos diferentes grupos étnicos foi feita em cima de uma sociedade que colonizou a população indígena, não nos podemos esquecer disso.

MS: As famílias mestiças no Canadá são comuns, mas o facto de mais pessoas casarem e se misturarem não significa necessariamente que enfrentem menos racismo, ou até os seus filhos. A discriminação continua nestes casos ou a integração é mais bem-sucedida?

LS: Um dos meus amigos costuma dizer que o Brasil é o que o Canadá vai ser porque o Canadá agora tem muitas minorias e o Brasil sempre foi assim. A população brasileira é muito misturada, mas claro que o racismo não acabou. Tem até racismo dentro da mesma família, e nos EUA também já está a acontecer, acho que a cor vai ser algo cada vez mais importante, talvez até mais do que a etnia. Uma das minhas colegas, a socióloga Chinyere Osuji, escreveu um livro sobre casamentos entre brancos e negros no Brasil e nos EUA e concluiu que existem muitos conflitos dentro das famílias destes casais.  Mas mesmo fora da família mesmo quando as pessoas não conseguem fazer distinções rígidas por raça, elas muitas vezes ainda fazem distinções por cor da pele, aparência física, etc., por isso acho que a definição que temos de raça e de etnia vai mudar. Mas vamos ter outros tipos de discriminação, acho que vai ser mais subtil.

MS: O Canadá começou como um país onde os europeus brancos se misturavam com os povos indígenas. Os canadianos entendem essa herança ou é algo que precisamos abraçar melhor como sociedade e que poderá ser útil para integrar os diferentes grupos étnicos?

LS: Em 1600, no início da colonização, existia uma certa cooperação entre indígenas e europeus. Nessa altura os europeus mantinham relações comerciais com os indígenas para comercializar peles e alguns europeus acabavam por casar com indígenas e acabavam por se misturar e integrar naquela comunidade. Então podemos dizer que o Canadá começou com esta mistura no início, onde até existia alguma cooperação. Depois, sobretudo no século XIX, os europeus e os seus descendentes começaram cada vez mais a reclamarem o espaço dos indígenas. Entretanto o Canadá começou a ser uma nação independente e a libertar-se do poder de Inglaterra e com a expansão para Este havia a ideia de que era preciso trazer pessoas da Europa para ocupar o território dos indígenas. Os indígenas foram empurrados para pequenas áreas e começaram a perder direitos e até hoje, tanto no Canadá como no Brasil, eles vivem com pressão porque os países procuram recursos naturais. O Canadá proibiu os indígenas de exercerem a sua religião, de falarem a sua língua e limitou-lhes a terra para plantar. Foi um processo muito repressivo e segregativo até aos anos 60. Nas minhas aulas eu ensino um pouco dessa história e muitas pessoas acham que a nossa cultura e as nossas instituições vem toda da Europa, mas tento explicar aos meus alunos que a sociedade de hoje foi criada através da interação de pessoas e culturas de várias origens. Acho que como sociedade aprendemos e assimilámos muito dos imigrantes oriundos de diferentes países no mundo. Primeiro tivemos os indígenas, depois os franceses e os ingleses e começam a questionar o poder uns dos outros. Nos anos 60 houve uma grande contestação muito grande por causa da língua e o país acabou por definir o bilinguismo e adotar duas línguas oficiais. Mas outros europeus que vieram para o Canadá, como alemães, húngaros, noruegueses, suecos, ucranianos, polacos, portugueses, italianos, não falavam nem francês nem inglês e o país acabou por adotar o multiculturalismo.

MS: Depois do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos, o primeiro-ministro canadiano reconheceu que ainda existe racismo sistémico em todos os sistemas que governam o país, incluindo a polícia nacional. As pessoas de diferentes grupos étnicos podem ascender a cargos de topo nas empresas canadianas e ganhar o mesmo que os brancos?

LS: O meu colega Jeffrey G. Reitz fez um estudo que concluiu que quando alguém enviava um curriculum com um sobrenome inglês tinha mais hipóteses de vir a ser contratado no Canadá. Acho que isto revela que ainda há discriminação no mercado de trabalho e que o acesso a bons empregos ainda é limitado para estes grupos étnicos. Na Universidade de Toronto, onde eu trabalho, existem muito poucos professores negros por exemplo, os brancos ainda são a maioria. Se tivermos em conta que 10% da população de Toronto é negra as instituições públicas deveriam refletir esta diversidade étnica. E nas posições de administração também trabalham sobretudo brancos. Mas a questão étnica não é o único problema, a nível de género também existem muitas desigualdades. Existem estudos que provam que as empresas da área tecnológica ainda contratam sobretudo homens. Mas quando falamos das dificuldades dos grupos étnicos ao mercado de trabalho também temos de ter em conta que para estes grupos étnicos é mais difícil transformar a educação dos filhos em rendimentos. Alguns imigrantes já trazem educação e também existem casos em que os filhos não conseguem ter acesso à mesma educação que os pais tiveram. Mas com a mesma educação os negros ganham menos do que os brancos quando ocupam funções semelhantes, isto acontece não só no Canadá, como em outros países desenvolvidos como os EUA e a Inglaterra. E no Brasil que não é um país tão desenvolvido a situação é semelhante. E embora muitas pessoas de origem asiática tenham bastante  formação, acabam por ganhar menos do que pessoas brancas do mesmo nível educacional. No caso dos portugueses que emigraram para o Canadá a grande maioria trouxe pouca educação, então é normal que demore algum tempo até passar a educação para os filhos e para as próximas gerações.

MS: Ao longo da história canadiana, quase todas as pessoas escolhidas para liderar os partidos provinciais e federais foram homens brancos. Acredita que a realidade vai mudar nos próximos anos?

LS: O líder do NDP, Jagmeet Singh, de origem indiana é um sinal de mudança. Mas ele foi expulso este ano do Parlamento justamente quando estavam a debater o racismo. Claro que existe uma certa resistência a estes assuntos. Nos EUA tivemos em 2008 a eleição do Barack Obama. No Canadá já começam a existir mais candidatos e MPP de outros grupos raciais. A nível de género no Parlamento nas últimas eleições foram eleitas 98 mulheres, já é quase 30%, mas isso ainda é uma minoria dado que as mulheres representam a metade da população. O Canadá tem uma população imigrante que vota e que é importante para os candidatos. E todos os partidos têm de estar atentos às necessidades desta população senão não se conseguem eleger. Acredito que vamos ter mudanças, mas certamente que vamos ter resistências, sobretudo dos grupos que já tinham conquistado os seus privilégios. No Brasil está a acontecer algo parecido porque o partido dos trabalhistas ficou muito tempo no poder. Eu tenho uma visão otimista e apesar de me preocupar com o crescimento da extrema direita, acho que isso também reflete uma reação a mudanças positivas ao longo dos últimos 40 anos, que tenderão a continuar no longo prazo. Acredito que, no longo prazo, a mudança tem expandido os direitos das minorias, não só raciais, mas também os direitos dos LGBTQ, das mulheres, etc. Acho que a mudança vai chegar à política, mas a sociedade também pode ficar mais radicalizada, temos de ficar atentos.

MS: Este mês o governo federal anunciou um programa multimilionário para ajudar os canadianos negros a obterem empréstimos comerciais com bancos nacionais e informou que o governo está a analisar mais medidas do género. Acha que isto pode ser um “game changer” e devia ser estendida a outros grupos étnicos?

LS: Tem estudos que sugerem que quando o dono da empresa é de uma determinada etnia talvez contrate mais pessoas dessa etnia e talvez seja menos racista. Existem algumas evidências, por exemplo em Miami, nos EUA, através de ethnic enclave alguns imigrantes cubanos mais ricos que decidiram emigrar na época do Fidel Castro e conseguiram ter mais sucesso a nível empresarial em Miami e gerou empregos para outros imigrantes latino-americanos que vieram depois, que tiveram mais oportunidades de mobilidade social do que outros imigrantes que vieram da América Latina e se fixaram noutros lugares nos EUA. As vezes a economia étnica quando tem recursos faz com os imigrantes sejam mais bem-sucedidos, isso também acontece com algumas comunidades asiáticas. Mas o contrário também existe e a segregação pode ser ainda maior. Mas o facto de o patrão e os empregados serem negros não significa que não vai existir racismo. Mas a versão mais otimista será a ideia de que com o acesso a empréstimos bancários estas minorias têm mais hipóteses de contratar mais pessoas e talvez até optem por contratar dentro da sua própria raça ou etnia.

MS: Podemos dizer que ainda existe uma supremacia branca no Canadá? As recentes manifestações têm fundamento ou são exageradas?

LS:  O problema da supremacia branca começa logo pela sua definição porque cada pessoa tem um conceito diferente. Algumas pessoas entendem supremacia branca como se referindo a grupos de extrema direita como neonazis e o Ku Klux Klan. Esses grupos são uma minoria, mas têm ganhado mais força nos EUA do que no Canadá recentemente, embora estejam ganhando força aqui também.  Mas muitos académicos e ativistas anti-racistas definem a supremacia branca de uma forma mais ampla que dizem que os brancos ainda controlam desproporcionalmente a maior parte da riqueza do país, e muitas das nossas principais instituições, desde a educação até à segurança. É claro que dentro dos brancos, assim como dentro de outros grupos raciais, também existem desigualdades sociais. Mas independente disso, o facto de ser branco dá uma certa vantagem de conseguir emprego, de não ser perseguido pela polícia e são essas desigualdades raciais que alguns definem como supremacia branca. Os manifestantes que saem à rua pensam nesta estrutura onde os brancos ainda têm mais poder económico e mais controlo sobre a segurança em todo o país. Os manifestantes que estão contra o abuso da força dos polícias contra os negros acreditam que a polícia é controlada desproporcionalmente pelos brancos.

Joana Leal/MS

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