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Dilema birracial

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Foto: DR

Sou mãe solteira de um bebé que abraça duas etnias – Eu sou portuguesa caucasiana e o pai afro-americano. Numa primeira análise, assim bem superficial, não há nada de complexo nesta fusão, mas desde que engravidei me fui deparando com algumas questões que se foram tornando bem relevantes.

Cor da pele

O meu filho tem um tom de pele bem clarinho – um copo de leite com umas gotas de café, estão a imaginar? Acontece que, desde que ele nasceu, já ouvi comentários bem estranhos acerca disso – por exemplo: “Ele nem é assim tão preto!” ; ou, pior “Ele saiu mais a ti, vá lá, vês?”. Vejo, vejo bem. Vejo que adoro que ele tenha a cor que tem, adoraria se fosse mais escuro, se fosse mais claro – Na verdade, estou-me nas tintas, desculpem a sinceridade, para isso. Não é sinal de “sorte” ele ser “praticamente branco”, como também já ouvi. Ele é o que é, ponto final. A sorte é ele ter a possibilidade de poder abraçar duas culturas e etnias diferentes.

Antes de mais nada, para mim isto começa desde já pelo facto de eu ter/sentir a necessidade de aprender mais e mais sobre a cultura do pai do meu filho, para conseguir acompanhar o crescimento dele nessa descoberta riquíssima de identidade.

Num exemplo mais prático, posso confidenciar-vos que desde logo me deparei com um “não problema”, mas que me fez correr atrás do Google: o cabelo do meu filho é muito encaracolado – não tanto quanto o do pai, mas claramente parecido. Acho que ninguém imagina a dificuldade que é para mim cuidar do cabelo dele. Fiz mil e uma pesquisas de produtos a usar, como tratar dos caracóis dele, passo tempos e tempos no YouTube a ver tutoriais.

E já que vos falo de algo tão banal quanto o cabelo, lanço assim o repto para vos contar do dilema com o qual me deparei, nos vários (leia-se, vááários) artigos que li sobre “mixed babies”. Num dia, em conversa com alguém de raça negra, perguntei quando (com quantos meses, vá) é que poderia fazer tranças no cabelo do meu bebé – primeiro porque ajuda na definição dos caracóis (já aprendi alguma coisa!), depois porque é mais fácil para o dia a dia e por fim, simplesmente, porque gosto! Qual não é o meu espanto, quando ouço “disseste tranças? Eles vão crucificar-te. Vão considerar apropriação cultural.” Estagnei. “Como?”. Ou seja: o meu filho seria, eventualmente, olhado de lado pela comunidade negra porque, enquanto alguém que “parece ser branco”, principalmente acompanhado sempre por mim, se estaria a “apropriar” duma cultura que não lhe pertence.

No entanto, vou puxar a cassete atrás e contar-vos que, com cerca de quatro meses, o meu filho foi para uma babysitter quando voltei ao trabalho e logo ao segundo dia ela já me dava sinais de que não o queria lá. Dizia que ele não comia. Ao terceiro dia apareci mais cedo, porque andava com o coração nas mãos, e mal abro a porta (que estava sempre destrancada), deparo-me com uma serie de miúdos na sala que, muito aflitos, gritam “ela chegou!!!!”. Entretanto sobe a tal ama com o meu filho, trazendo-o da cave, onde ele estava, não sei por que razão. Talvez eu devesse ter perguntado, mas eu estava já decidida a ir embora com ele, de vez. Ao passar-me a criança para os braços diz-me “dá de comer ao pretinho que ele tem fome”. O meu filho chorava imenso e eu antes de sair resolvi dar-lhe de mamar. Enquanto isso acontecia, ouvi os últimos comentários: “ele deve ser mesmo a cara do pai, com esse nariz e essa boca, só pode”. Arranquei dali e fui no carro a chorar até casa. Não porque fiquei ofendida, mas porque não disse nada. Isso foi o que me fez ficar frustrada. Não estar habituada a lidar com comentários racistas e aceitar de forma leviana palermices daquelas. Devia ter tomado uma posição perentória e não o fiz na altura.

Limbo

Isto tudo para vos dizer que me deparo com o tal dilema, que por tantos cantos da internet ouvi falar.

De um lado, no caso, o meu filho, é categorizado pela população branca como “preto”, porque “se vê claramente”; mas do outro, para a comunidade negra não é “suficientemente preto”.

O meu filho tem apenas um ano, para já sou apenas eu a tentar entender algumas coisas que nem por isso me deixam satisfeita, mas já li imensos relatos de pessoas birraciais que falam, precisamente, de um problema na criação da sua identidade. Não se sentiam nem uma coisa, nem outra. Em alguns casos, não havia sentimento de pertença, não se sentiam acolhidos, havia uma desconexão qualquer com uma das etnias ou então faziam trinta por uma linha para provar que eram, de facto, da etnia X ou Y. Principalmente na fase da adolescência.

Li uma vez um artigo de uma mãe afro-americana que dizia, no seu blog, que o seu filho, cujo pai é caucasiano, chorou uma noite inteira quando a mãe lhe disse que no dia seguinte (primeiro dia de escola) só o pai o iria acompanhar, porque ela teria uma reunião. Ele chorava e dizia “não pode ser, tu tens que ir senão não vão perceber que eu também sou preto”. A necessidade de provar ambas etnias para os colegas de escola era crucial para ele, para que fosse “aceite e percebido” (palavras dele).

Dupla identidade

Num outro texto, Adiah Siler, uma rapariga, agora com 18 anos, fala abertamente da complexidade de se ser uma criança e, depois, adolescente com duas etnias – ela descreve-se como alguém que viveu (e ainda vive, segundo a própria) com duas identidades. Diz que na juventude, tanto ela quanto o irmão se adaptavam consoante o ambiente – ora hoje somos brancos porque estamos com amigos brancos, ora amanhã somos negros porque estamos com amigos de raça negra. Adiah conta ao detalhe essa “mudança” que surgia, inconscientemente na maioria dos casos, na sua forma de estar consoante o grupo, destacando até a diferença na forma de falar.

Certos assuntos não abordava com os amigos caucasianos, por exemplo, porque diz que eles “não entenderiam”, mas por outro lado também evitava falar sobre alguns tópicos com os amigos de raça negra porque achava que não sentia na pele, literalmente, o que eles sentem. “É confuso crescer assim; constantemente a esconder um aspeto sobre ti própria e ao mesmo tempo tentar entender quem realmente és, quando a tua identidade está sempre a mudar”, acrescentou ela. “Basicamente, ser birracial torna-nos um pouco diferente dos nossos amigos, pais e familiares. Vivemos duas verdades, funcionamos de duas formas, aprendemos dois conjuntos de regras distintos”.

Ter um/a filho/a birracial é, para mim, maravilhoso e enriquecedor – leva-me para bem mais perto de uma cultura que não é a minha, faz-me aprender, conhecer, educa-me! Mas traz-me medos por não saber responder a algumas situações.

No entanto, e depois de mergulhar em tantas leituras sobre o assunto, descobri que o maior desafio será ajudar o meu filho a lidar com a construção da sua identidade da melhor forma que eu conseguir, acompanhando-o em algumas, eventuais, “lutas” interiores, incentivando-o, sempre, a abraçar esta fusão de etnias, culturas, línguas, sabores, da forma mais natural possível.

Catarina Balça/MS

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