Temas de Capa

“Cresci com pouca liberdade e prometi a mim mesma que com os meus filhos ia ser diferente”

Duas gerações diferentes que em comum têm a paixão pela cultura portuguesa. A família Mafra aceitou partilhar a sua história pessoal com os nossos leitores e provou que a maternidade é uma das maiores aventuras da nossa espécie.
Isabel Mafra foi mãe aos 21 anos. A filha, Ashley, passou pela mesma experiência aos 30. O Jacob tem 13 meses e já é membro do Rancho Folclórico da Nazaré.

Milénio Stadium: Sempre quis ser mãe?
Isabel Mafra: Tive o meu primeiro filho em Portugal e tinha apenas 21 anos. Na altura não sabíamos se ia ser menino ou menina e o Diogo acabou por nascer através de cesariana, porque aos sete meses cai nas escadas. Felizmente correu tudo bem e ele nasceu saudável. Sempre quis ser mãe, antes de emigrar para o Canadá trabalhava num infantário e já nessa altura gostava muito de crianças. A maternidade traz muitas responsabilidades, mas é uma das coisas mais gratificantes da vida e é difícil encontrar palavras para defini-la.

MS: Mais tarde veio a Ashley, qual deles é que foi mais difícil de educar?
IM: A minha filha sempre foi mais curiosa do que o meu filho e lembro-me que fazia perguntas muito difíceis. Mas, por outro lado, sempre defendi a liberdade e julgo que quando proibimos ainda é pior. Os pais são as maiores referências que eles vão ter quando crescerem e nada melhor do que explicar-lhes os prós e os contras das suas atitudes. Cá em casa sempre tivemos uma relação muito aberta com os nossos filhos, tanto eu como o meu marido. A Ashley é mais próxima do pai e o Diogo é mais cúmplice da mãe.
Hoje é fácil tirar dúvidas com a internet, naquele tempo era com a minha mãe. Ficava em pânico com as febres, as cólicas e os choros e ia logo a correr ter com ela.

MS: É verdade que nunca mais se dorme da mesma forma?
IM: Completamente! E quando o meu filho era adolescente os telemóveis ainda não existiam. Ele gostava de sair à noite com os amigos e normalmente eu é que o trazia para casa, não conseguia dormir enquanto ele não chegasse. O pai não gostava que eles dormissem em casa de amigos, nesse aspeto éramos mais conservadores.
Sempre conciliei o trabalho com a maternidade. Trabalhava e trabalho numa empresa de catering que fornece refeições para transportadoras aéreas e era difícil porque funcionamos com turnos. Às vezes começava às 2 ou às 4 da manhã, o meu marido sempre me ajudou muito, com as crianças e com a vida doméstica, ele cozinha, vai ao supermercado, faz a lavandaria, limpa a casa.

MS: Porque é que emigraram?
IM: O Canadá era e é um país de oportunidades, aqui podíamos ter casa própria e estabilidade financeira. Além disso como estávamos cá sozinhos acho que o nosso casamento beneficiou muito com isso porque construímos uma relação muito forte. Em Portugal teria sido muito mais difícil e nunca teríamos sido tão livres. No Canadá realizamos os nossos sonhos mais depressa e hoje constato que muitas das minhas amigas de infância estão divorciadas.

“Não podemos criar os nossos filhos da mesma forma porque o mundo mudou”

 

MS: Ambos os filhos falam português e têm uma grande ligação com a cultura?
IM: A nossa família está toda em Portugal e eles não falam inglês e queríamos que eles se relacionassem bem com eles. A Ashley e o Diogo sempre foram à escola portuguesa e passavam as férias grandes em Portugal na Nazaré. Durante esses dois meses eles estavam em Portugal e nós ficávamos no Canadá.
Eles sempre dançaram no Rancho Folclórico da Nazaré, é claro que hoje têm as suas vidas e não dançam tanto quanto gostariam.

MS: Educou os seus filhos da mesma forma que os seus pais a educaram?
IM: Foi muito diferente porque os meus pais eram mais rígidos, sobretudo a minha mãe. Cresci com pouca liberdade e prometi a mim mesma que com os meus filhos ia ser diferente. Tinha medo de fazer determinadas perguntas, não podia sair sozinha e havia o receio que os outros nos criticassem. A sexualidade era um tabu, por exemplo, com os meus filhos foi completamente diferente.

MS: A sua mãe faleceu há pouco tempo.
IM: Ela partiu há dois anos, mas ficaram as recordações. Ela adorava os netos e ficaram as lições, ela sempre me ensinou a praticar o bem para tê-lo de volta e a ser educada com os outros. Ensinou-me todas as tarefas domésticas, cozinhar, lavar a roupa, passar a ferro, arrumar a casa, naquela época tinha de ser assim. Mas os meus filhos também sabem fazer tudo, e na cozinha o Diogo até é melhor do que a Ashley.

MS: Como é que viveu a fase em que eles saíram de casa?
IM: O Diogo foi o primeiro a sair, ele queria ser independente e nunca o impedimos porque achámos que era a decisão certa. Achámos que lhe ia fazer bem porque ele ia ganhar responsabilidades. A Ashley saiu quando casou e foi ainda mais difícil porque já tínhamos um neto. A casa ficou vazia, agora somos só nós os dois e a Nina, a cadela.

MS: É bom ser avó?
IM: É mais fácil do que ser pai e mãe porque não temos de tomar decisões. Além do mais quando somos pais o tempo passa muito rápido e acabamos por não apreciar o momento. Com o Jacob é diferente, temos mais tempo e mais disponibilidade para mimá-lo e para cuidar dele. Se pudesse voltar atrás, hoje tinha tido mais um filho.

Ashley Mafra – mãe há 13 meses

“Não podemos criar os nossos filhos da mesma forma porque o mundo mudou”

Milénio Stadium: A maternidade foi planeada?
Ashley Mafra: Depois de casar sempre sonhámos em aumentar a família e acabou por acontecer aos 30. O Jacob foi planeado e apesar de ser uma experiência muito recente, porque ele só tem 13 meses, é muito bom ser mãe. Acho que é mais difícil do que eu imaginava, somos confrontados com muitos conselhos, dos amigos e da família e às vezes é difícil perceber qual é o melhor caminho. Se pudesse pedia mais algum tempo para mim e sobretudo para dormir (risos). Hoje tenho menos vida social e valorizo muito mais o tempo, ia muito ao ginásio, as idas ao supermercado eram rápidas, hoje a vida passou a ser uma excursão entre fraldas e papas (risos).

MS: Hoje dás mais razão aos teus pais?
AM: Sem dúvida (risos), sempre disse que comigo ia ser diferente e que os meus filhos iam fazer o que pedisse e que eles é que se iam adaptar aos meus horários. Mas a verdade é que se o Jacob não dorme, a mãe não dorme e ninguém está feliz lá em casa. Quando fui mãe a maioria das minhas amigas já tinha filhos e isso foi bom para tirar dúvidas. Não podemos criar os nossos filhos da mesma forma porque o mundo mudou. Temos muito mais acesso à informação, através do Google, de blogs… Prefiro produtos orgânicos e leite de cabra, por exemplo, mas tento fazer com que o Jacob também se adapte ao leite de vaca para não desenvolver alergias. O meu marido é mais preocupado do que eu com as bactérias, eu por exemplo já não sei se concordo com as vacinas. Até agora ele tem tomado todas, mas não sei se no futuro fará sentido.

MS: O Jacob vai continuar envolvido na cultura portuguesa?
AM: Ele já faz parte do Rancho Folclórico da Nazaré. O meu marido é natural da Costa Rica e é adventista. Eu sou católica e sou mais liberal, quero que ele siga a religião que quiser. Nós viajamos muito, já conheço praticamente todos os continentes, só me falta a Austrália e a Antártida. Quando ele crescer queremos que ele nos acompanhe nas viagens para conhecer outras realidades e dar valor ao que tem.

MS: Como é que eram os verões em Portugal?
AM: Passava muito tempo na praia e em casa dos meus avós, os pais da minha mãe. Ajudava no negócio familiar e alugávamos quartos aos turistas. Com a minha avó aprendi a ser mais cuidadosa com as pessoas e comia muitos gelados. Quando lhe pedia moedas para comprar um gelado ela dizia sempre que não, mas depois dava-me uma nota. Nas despedidas no aeroporto havia sempre muitas lágrimas.

MS: O Jacob vai herdar o feitio da mãe?
AM: Ele ainda não fala, mas já percebi que também vai ser teimoso (risos). Quando era mais jovem queria saber tudo, reclamava e nunca dava razão aos meus pais. Mas também comecei a trabalhar cedo, aos 13 anos. Gostava que ele falasse português para comunicar com a família, sobretudo a do meu marido que só fala praticamente espanhol.

MS: O lado português sempre foi importante na tua vida?
AM: Eu já nasci no Canadá, mas quando era pequena tinha mais orgulho nas minhas raízes portuguesas do que propriamente nas canadianas. Hoje sou chefe de cabine na Air Canada e trabalho entre Otava, Winnipeg, Calgary, Vancouver e Nova Iorque, Chicago e Boston. Às vezes também vou ao México e o português é uma ferramenta importante no mercado de trabalho.

MS: E consegues conciliar a tua profissão com a maternidade?
AM: Nunca me passou pela cabeça parar de trabalhar para ser mãe. Temos todo o tipo de horários e é possível estar em casa quando precisamos, só temos de ser organizados. Às vezes estou longe de casa durante quatro dias, mas hoje felizmente há o facetime e estamos muito mais perto.

Joana Leal

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