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Contra a discriminação racial

A chave é a educação

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Foto: DR

O Canadá é um dos países do mundo com melhor desempenho quando se avalia a capacidade de acolhimento e integração de imigrantes provenientes de todos os continentes. Ainda assim a vivência do dia a dia e, principalmente, os estudos académicos apontam para uma realidade incontornável – a cor da pele ainda conta. O trabalho que está por fazer para acabar com a discriminação racial e proporcionar direitos iguais para todos os que têm as mesmas competências, independentemente da cor da sua pele, na perspetiva de José Carlos Teixeira, doutorado em Geografia e, atualmente, professor na Universidade de British Columbia Okanagan, tem que começar pela família, para depois ter seguimento na escola e, finalmente, ter repercussão no ambiente de trabalho. A educação é a chave. Os mais jovens são a grande esperança de que o caminho continuará a ser desbravado até ficar claro e limpo que só faz sentido todos terem as mesmas oportunidades, independentemente do seu tom de pele.

Milénio Stadium: Podemos quase afirmar que o mundo está no Canadá, tal é a diversidade de etnias que aqui vivem. Neste enquadramento, a pergunta que lhe faço é – num país como o Canadá, que tem sido construído com uma população multiétnica, a cor da pele é um fator diferenciador?

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José Carlos Teixeira, doutorado em Geografia e, atualmente, professor na Universidade de British Columbia Okanagan. Foto: DR

José Carlos Teixeira: Tanto nos EUA como no Canadá, infelizmente, a cor da pele conta para muita gente. Não é só a questão do género, não é só a orientação sexual, não é só a questão religiosa, mas a cor da pele, a etnicidade, o estatuto de imigrante… são variáveis que infelizmente acabam por afetar muito a integração de uma pessoa imigrante ou não imigrante num país multicultural. Portanto, as variáveis são muitas e uma das mais importantes é precisamente a variável raça. Gostei muito da expressão que usou – “o mundo no Canadá”. Realmente o mundo está no Canadá, o país que foi e é, cada vez mais, um país de imigrantes e descendentes, onde ¼ da população nasceu fora do seu território. É um mosaico cultural. Sendo o Canadá um país multicultural, um país onde há sempre um familiar ou amigo com ascendência de imigrantes, um país que adotou a política do multiculturalismo nos anos 70 para acolher e encorajar os emigrantes a preservar a sua língua, a sua cultura e os seus costumes, como é que se justifica que nos dias de hoje, século XXI, ainda exista discriminação racial?

Nos censos a expressão “minorias visíveis” é a adotada para diferenciar os cidadãos brancos dos de cor. Aqui se incluem os afro-canadianos, os asiáticos, basicamente todos os que podemos identificar com base na cor da pele com exceção dos brancos. Como investigador, esta é de facto uma categoria que utilizamos teoricamente para os nossos estudos. Também se incluem nesta categoria as pessoas de casamentos mistos, famílias multirraciais. Para muitos dos jovens que nascem destes casamentos o problema da discriminação racial continua e é complexo, começa com as crianças nas escolas e depois no mercado de trabalho, onde são rotulados como membros de minorias visíveis.

Infelizmente há alturas em que se fala pouco da questão da discriminação racial no Canadá que, sem dúvida, tem sido um grande defensor deste mosaico e é talvez um dos países onde sentimos menos barreiras para a nossa integração como imigrantes. Contudo, há imigrantes que são brancos e imigrantes que são de cor, e aí existem diferenças, na integração e na mobilidade social. Um emigrante de cor encontra mais barreiras e mais dificuldades na sua integração.

MS: Poderá afirmar-se que nos cargos diretivos, como em empresas públicas, instituições governamentais ou grandes empresas, ainda se encontra a chamada supremacia branca?

JCT: A minha observação, por tudo o que tenho lido, comprova-se que a raça importa, a cor da pele da pessoa ainda tem um impacto grande na integração social e económica. Infelizmente, ainda desempenha um papel importante. Muitas vezes, o emigrante de cor que chega ao Canadá, com as mesmas qualificações que um branco, as probabilidades de ter um salário menor e de encontrar barreiras de mobilidade socioeconómica são muito maiores. Existem vários investigadores que têm provado esta tendência, de que a cor da pele ainda importa.

MS: Quando é que o Canadá, que tem tantos anos de construção de uma sociedade mesclada, aprende a lição e vemos um fim à discriminação? Será uma utopia?

JCT: Como académico e como alguém que tem trabalhado em assuntos referentes à emigração, esse seria o meu desejo. Espero que quando me reformar, muitas das questões em que tenho trabalhado sejam solucionadas, como o acesso à habitação por parte dos emigrantes, dos refugiados e das pessoas de cor…  Por exemplo, no caso de estudo de arrendamento de uma habitação, a discriminação por parte dos proprietários em relação a uma pessoa de cor que está à procura de uma casa é muito maior do que em relação a um branco. Existe preconceito na questão da cor da pele, e isso vê-se também a vários níveis e noutros setores como no mercado de trabalho e nas estruturas hierárquicas das empresas. Infelizmente, aos mais diversos níveis, a cor da pele funciona como uma barreira. Claro que nós continuamos a acreditar que a grande maioria dos canadianos, até porque parte dessa grande maioria inclui imigrantes e descendentes de imigrantes, não praticam essa diferenciação num país que é altamente reconhecido por tudo o que tem feito em prol dos imigrantes, dos refugiados, como país de acolhimento.

O Canadá é um país muito diverso. Eu estive 25 anos em Toronto, já vivi em Montreal e agora na Costa Este, conheço o país de costa a costa, e existem bastantes disparidades no que concerne a este tema. De região para região, existe uma grande diferença na forma como os canadianos pensam. A província de Ontário é a mais multicultural, especificamente a cidade de Toronto sendo que mais de 53% da população nasceu fora do Canadá e por isso é mais aberta à emigração. As províncias do Oeste, Manitoba, Calgary e Saskatchewan são muito conservadoras. E depois temos a British Columbia que é uma província muito mais liberal. E por fim, os do Québec que têm características muito únicas.

Se formos a analisar o comportamento dos canadianos em relação às minorias visíveis, vemos que varia de província para província. E não só, o acolhimento é muito mais favorável nos grandes centros urbanos do que nos meios rurais. Quanto mais pequeno for o meio, maior é o receio e a relutância em aceitar as minorias visíveis. É uma questão muito complexa.

MS: Em relação às minorias visíveis, é quase imediato associar-se às pessoas de raça negra, mas na verdade, no Canadá, existem várias etnias. O que disse é transversal a todas as etnias ou aplica-se mais às pessoas de ascendência africana?

JCT: Segundo os vários estudos apresentados sobre este tema, as comunidades afro-canadianas ou descendentes de afro-canadianos, são o grupo mais afetado pela discriminação, depois seguem-se os asiáticos e depois os latino-americanos que são um grupo mais recente. A maioria dos estudos relativos ao Canadá, apontam mais para os grupos afro-canadianos e descendentes como sendo aqueles que sofrem mais na procura de habitação e na procura de emprego.

MS: Em relação às crianças que nascem de relações mistas, como é feita a sua integração e acolhimento na sociedade? 

JCT: Esta é uma questão que não lhe posso responder, porque não tenho visto muitos estudos sobre este tema. As relações mistas são algo comum no Canadá. Agora, até mesmo na comunidade portuguesa. Antigamente, na nossa comunidade, não eram bem aceites estas relações com pessoas de outras raças, mas hoje em dia isso já não acontece. O que temos notado é que existe uma aceitação muito maior.

Em relação à integração dessas crianças, é algo que começa nas escolas. Certamente que muitos desses jovens sofreram ou sofrem de bullying. Acho inclusive que há a necessidade de fazerem mais estudos sobre este tema, que é muito importante, mas acredito que já existam estudos deste tipo, no Canadá. Depois segue-se outra etapa de integração no mercado de trabalho.

MS: Portanto, é ainda um tema a estudar.

JCT: Sem dúvida. O que posso acrescentar é que acredito que o nível de discriminação é muito menor do que, por exemplo, os pais ou os avós sofreram. Existe uma evolução positiva, acredito que sejam mais aceites e se integrem mais facilmente. Hoje em dia, os nossos jovens estão muito mais preparados para esta diversidade racial, étnica, religiosa, etc. Acredito que irá existir progresso, mas infelizmente é uma questão que tem perdurado durante séculos e vemos isso evidentemente no caso dos Estados Unidos. Penso que o Canadá nunca será como os Estados Unidos, mas temos de trabalhar e educar os nossos jovens, temos de alertar e chamar à atenção para este tema. Mas acredito que os nossos jovens hoje estão muito mais bem preparados.

MS: Para além da educação, o que é que podemos fazer? Poderá a componente de intervenção política contribuir para a mudança ou estamos mesmo perante a necessidade de uma mudança de mentalidade?

JCT: Os políticos têm um papel fundamental, e temos visto isso com o partido liberal e todo o trabalho que têm desenvolvido com as First Nations. Contudo, na minha opinião, o Canadá é o povo. Nós é que nos deveremos educar a nós próprios, aos nossos filhos, aos nossos vizinhos. Passa por vários setores da nossa sociedade, começando na escola e acabando na universidade. Passa pela intervenção nos três níveis de governo, a própria media tem um papel fundamental é uma ponte que liga as populações a todos os outros setores da nossa vida sociopolítica. Basta ver o que acontece nos EUA, quando os media chamam a atenção para determinados temas, os políticos vêm-se obrigados a agir. Isto que o Milénio Stadium faz não é muito comum nas comunidades étnicas – termos jornais a abordar estas questões -, normalmente focam-se nos temas comunitários.

É um trabalho muito complexo, começa em casa, segue no sistema educativo e depois nós como sociedade temos de nos educar uns aos outros. Eu hoje vinha no autocarro da universidade e está bem explicito que as pessoas têm de usar máscara e duas pessoas não estavam a cumprir, eu senti-me frustrado por essas pessoas não estarem a respeitar as regras e as restantes pessoas que iam no autocarro. É um exemplo de, num período de crise, as pessoas não respeitarem a liberdade dos outros. E a questão racial, para muita gente, está impregnada naquelas pessoas e muitas vezes isso transmite-se de familiar para familiar e é difícil educar as pessoas que todos são iguais e merecem as mesmas oportunidades.

No caso das comunidades portuguesas, é interessante verificar Portugal onde existem hoje emigrantes de várias partes do mundo. Eu saí dos Açores em 1971 que, na altura, era uma das regiões mais homogéneas do país, eram todos brancos, todos católicos e não havia divórcios. E veja como é hoje! Hoje, somos um país aberto à Europa e ao mundo. Consideramos que temos de viver com esta diferença que é boa, é saudável e é útil.

Madalena Balça/MS

Transcrição: Inês Carpinteiro

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