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Contaminados pelo medo de sermos contaminados?

VoxPop

O mundo foi contaminado por um vírus e também, ou principalmente, pelo medo. Diariamente ouvimos que o número de pessoas infetadas por coronavírus, COVID-19, subiu. E o que também aumenta é o número de mortes associadas a este vírus. No entanto, se por um lado somos alertados para que estejamos atentos e tenhamos os cuidados necessários para que não sejamos infetados, por outro ouvimos falar em exagero mediático e em propagação desnecessária e perigosa de pânico.

Nesta edição do jornal Milénio Stadium, procurámos saber a opinião de pessoas que, de uma forma ou de outra, estão diretamente ligadas a este assunto pela sua profissão. Seja pela saúde, seja pelo atendimento ao público – um público geralmente doente –, seja pela economia que, muito se fala, poderá também estar a ser contaminada.

Gonçalo Sarmento, médico

1- Que receios sente em relação ao coronavírus?

O coronavírus, particularmente na sua mutação COVID-19, tem causado uma epidemia à escala global. Causa um síndrome gripal, que na sua pior manifestação pode causar uma pneumonia, estando os doentes idosos e portadores de doenças crónicas mais expostos às suas complicações. A mortalidade parece ser semelhante à da gripe, contudo os dados ainda não são suficientemente claros. Obviamente que pelas características de uma epidemia, nós médicos temos dois tipos de receios: em primeiro lugar a exposição dos doentes mais frágeis ao vírus, em segundo da repercussão na sociedade e das consequências da mediatização da doença. Parece, no caso português, que o segundo receio tem sido significativamente mais prejudicial, atendendo ao número de casos que se tem verificado no país.

2- De que forma tenta evitar ficar contaminado?

Os cuidados são exatamente os mesmos que devemos ter para evitar a gripe. Lavar as mãos frequentemente ou utilizar gel desinfetante, ter o cuidado de tapar a boca com o antebraço quando se tosse, evitar multidões e contactos físicos (até dois metros) com pessoas doentes. Se por acaso se sentir constipado ou com sintomas respiratórios, deve utilizar uma máscara (não pela proteção individual, mas para proteção de quem o rodeia).

3- Há alguma coisa que tenha deixado de fazer com medo de ser infetado?

Não. As pessoas devem perceber que o essencial passa por ter cuidados de higiene básicos, e a sociedade civil não pode deixar de realizar as suas regulares tarefas. Claro que alguns contactos, nomeadamente com as regiões do mundo mais afetadas, devem ser evitados, mas o dia a dia das pessoas deve decorrer sem sobressaltos.

4- Segundo as notícias que nos vão chegando, sabemos que países como a China e Itália, por exemplo, estão com falta de abastecimento no setor alimentar. Já tem ou está a pensar ter algum tipo de armazenamento de comida em casa? Ou considera que isso é um exagero?

Uma das consequências da mediatização é a da propagação do medo e do pânico. Não tenho medo e julgo que todos devem estar tranquilos, cumprir com as medidas de prevenção de disseminação das infeções e desenvolver as nossas atividades com normalidade. Assim sendo, as compras realizadas devem-se enquadrar nas nossas necessidades habituais e não regidas pelo medo ou histeria coletiva.

5- Preocupa-se com as consequências que este vírus possa ter no orçamento familiar? Nomeadamente com eventuais aumentos de preços?

De momento não. É óbvio que ainda estamos na fase disseminação do vírus e portanto é ainda imprevisível sabermos como é que as pessoas se vão comportar e se as estratégias dos sistemas de saúde na prevenção e na educação para a saúde vão ser eficientes. Mais do que da doença, a contenção do medo e da histeria serão fundamentais na gestão dos problemas económicos inerentes a esta epidemia, que parece algo sobrevalorizada quando comparada com outras doenças no panorama mundial.

 

Catarina Marques, enfermeira instrumentista

1- Que receios sente em relação ao coronavírus?

Contágio fácil, após o aparecimento dos sintomas é incapacitante e, deste modo, impede que os doentes mantenham as suas rotinas.

2- De que forma tenta evitar ficar contaminada?

Se tiver conhecimento de alguém que esteve nos países com maior número de pessoas infetadas, evito o contacto no provável período de incubação. Se alguém apresenta sinais da infeção, respeito as medidas de proteção como as máscaras, luvas e usar desinfetante.

3- Há alguma coisa que tenha deixado de fazer com medo de ser infetada?

Sim, tinha uma viagem ao norte de Itália no fim de março e já não vou. Respeitei o período de provável segurança para ir visitar uma amiga que chegou do norte de Itália.

4- Segundo as notícias que nos vão chegando, sabemos que países como a China e Itália, por exemplo, estão com falta de abastecimento no setor alimentar. Já tem ou está a pensar ter algum tipo de armazenamento de comida em casa? Ou considera que isso é um exagero?

Não tenho e acho um exagero.

5- Preocupa-se com as consequências que este vírus possa ter no orçamento familiar? Nomeadamente com eventuais aumentos de preços?

Sim, é preocupante um possível abalo económico e consequentemente aumento dos preços.

 

António Faria, economista

1- Que receios sente em relação ao coronavírus?

Que se torne uma epidemia com números elevados e a nível global e que seja mais mortífera do que se pensa.

2- De que forma tenta evitar ficar contaminado?

Penso que é difícil tomar muitas precauções porque se transmite também ao toque. Tentar evitar andar em transportes públicos em horas de ponta é a única forma que vejo. De resto fazer a vida normal e despreocupada.

3- Há alguma coisa que tenha deixado de fazer com medo de ser infetado?

Lavo as mãos bem mais vezes e uso desinfetante diariamente. Já pensei que se os números aumentarem muito vou passar a usar sempre a minha viatura pessoal para todas as deslocações

4- Segundo as notícias que nos vão chegando, sabemos que países como a China e Itália, por exemplo, estão com falta de abastecimento no setor alimentar. Já tem ou está a pensar ter algum tipo de armazenamento de comida em casa? Ou considera que isso é um exagero?

Pessoalmente considero um exagero, mas vai depender da perceção de toda a cadeia de quem produz e da distribuição até ao supermercado.

5- Preocupa-se com as consequências que este vírus possa ter no orçamento familiar? Nomeadamente com eventuais aumentos de preços?

Acho que não vai haver esse problema. Assim que houver mais números e uma estatística mais detalhada, penso que se irá ver que a taxa de morte é idêntica a uma pneumonia e pouco acima de uma gripe normal.

 

Mafalda Valente, farmacêutica

1- Que receios sente em relação ao coronavírus?

O meu maior receio é que a população portuguesa, enquanto sociedade, não saiba reagir de forma racional e responsável caso a propagação do COVID-19 se torne epidémica no nosso país. Devemos ter cuidados e precauções extra, mas sem margem para alarmismo e comportamentos extremos.

2- De que forma tenta evitar ficar contaminada?

A minha profissão implica contactar com pessoas diariamente e grande parte delas estão doentes. Os apertos de mão, mexer em objetos pessoais como cartão multibanco, dinheiro, telemóvel e receitas em papel são inevitáveis… Assim sendo a minha principal preocupação é lavar frequentemente as mãos ou desinfetar com álcool gel e evitar tocar no rosto sem fazer a higienização das mãos previamente. Pequenos gestos, muito importantes!

3- Há alguma coisa que tenha deixado de fazer com medo de ser infetada?

Até ao momento não modifiquei nada no meu dia a dia com medo do coronavírus. Vou ao ginásio, às compras, locais públicos e afins sem qualquer receio. Vou inclusivamente viajar na próxima semana!

4- Segundo as notícias que nos vão chegando, sabemos que países como a China e Itália, por exemplo, estão com falta de abastecimento no setor alimentar. Já tem ou está a pensar ter algum tipo de armazenamento de comida em casa? Ou considera que isso é um exagero?

Ainda não pensei em abastecer a despensa lá de casa. Sei que em situações como esta a população pode entrar em desespero e ter este tipo de comportamento. É importante que as entidades competentes alertem os portugueses para serem racionais de forma a evitar ruturas de stock de bens essenciais como temos visto noutros países.

5– Preocupa-se com as consequências que este vírus possa ter no orçamento familiar? Nomeadamente com eventuais aumentos de preços?

Infelizmente o aumento de preços é uma realidade que tenho assistido de perto. Devido à imensa procura e à reduzida oferta de máscaras e álcool gel, os poucos fornecedores que disponibilizam este tipo de equipamento aumentaram o preço destes produtos de forma brutal e a verdade é que as pessoas continuam a comprar. Tenho consciência de que o mesmo se irá passar noutros setores caso a propagação deste novo coronavírus se descontrole no nosso país. Mas de momento não é algo que considere preocupante.

Catarina Balça/MS

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