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Comunicação em estado de emergência

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DR.

 

A comunicação social é, nos dias de hoje e mais do que nunca, um serviço fundamental. É através dela – seja em papel, em websites ou redes sociais -, que dia após dia vamos recebendo informação importante, que esclarecemos dúvidas e que tomamos consciência das medidas e comportamentos a serem adotados  como forma de combate à pandemia que vivemos.

Em tempos de incerteza, queremos acreditar que as informações que chegam até nós são as mais credíveis, ainda que estas estejam em constante atualização e sujeitas a constantes “adendas”.

Podemos olhar para o papel do jornalismo como um constante jogo de “equilibrismo” – há que educar e sensibilizar, mas sempre com o cuidado de não aumentar (ainda mais) o medo e o ruído que se fazem sentir. Por outro lado, existem entidades que fazem exatamente o contrário e chegam até a aproveitar-se da pandemia para propagar a desinformação,  a descredibilização de algumas instituições e até limitar a liberdade individual de pensamento e opinião.

David Pontes, Diretor adjunto do Público – um jornal diário português fundado em 1990 -, aceitou partilhar com o Milénio Stadium as suas opiniões e visão acerca do presente e futuro da democracia e da forma como a informação é partilhada e “consumida” em Portugal e no mundo.

Tal como escreveu num dos seus editoriais, “o combate à pandemia não nos pode fazer esquecer que se a saúde é um bem fundamental, a liberdade e a democracia também o são”.

Milénio Stadium: Um estudo recente realizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho chegou à conclusão que cerca de 92% dos jornalistas em Portugal teve a preocupação de produzir e divulgar conteúdos que funcionassem como uma orientação para os cidadãos, no que a comportamentos de prevenção e tratamento da Covid-19 diz respeito. Pode dizer-se que pela primeira vez se “usa” o jornalismo como parte integrante da estratégia de combate a uma pandemia?

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David Pontes, Diretor adjunto do jornal Público

David Pontes: Bom, nós nunca tínhamos estado numa situação similar a esta e por isso há essa primeira vez – há de facto algum comportamento inédito em relação àquilo que é normal dos jornais, eu diria mesmo que de alguma forma tivemos que tornar menos visíveis alguns dos nossos instintos porque acreditamos todos, pelo menos aqui no Público, que há um bem maior do que só o bem da informação. Ou seja, mesmo que seja o normal do jornalista procurar o conflito, a confusão, o erro, a dúvida, houve um momento, eu sinto, na nossa prática, que acima disso colocámos aquilo que nos parecia ser o interesse geral. Ou seja, sabendo nós que as autoridades estão num momento em que elas próprias têm dúvidas, questões, interrogações, porque é algo inédito para todos nós, nós quisemos de alguma forma – não houve nenhuma ordem, não houve nada decidido disso -, mas olhando para trás e vendo em apreciação, eu julgo que em alguns momentos em vez de procurarmos o conflito e o problema procuramos muito mais ter uma palavra construtiva em relação àquilo que se estava a passar para não contribuir para um ruído que, nomeadamente no início da crise, nós percebíamos que aí vinha e que hoje em dia se calhar se sente mais, até porque as pessoas estão mais cansadas e o arrastar de toda a situação leva-nos para uma maior conflitualidade. E eu julgo que houve essa tensão de nos mantermos de alguma forma mais cautelosos em relação a tudo aquilo que estávamos a transmitir e à forma como reportávamos aquilo que estava a acontecer.

MS: No entanto, um pouco por todo o mundo acabam sempre por surgir as chamadas fake news ou até muita informação contraditória. Como é que avalia o papel da comunicação social neste contexto?

DP: Nós estamos do outro lado da barricada, não é? Nós estamos completamente interessados e por isso não queríamos de alguma forma aumentar esse ruído. Nós estamos interessados em contribuir para, de alguma forma, termos uma posição mais edificante e mais capaz de construir do que propriamente aquilo a que as fake news se dedicam que é destruir – destruir nomeadamente a confiança dos cidadãos nas suas instituições. Ora, todos nós sabemos bem o tipo de informação que circula nas redes sociais, nas mensagens de Whatsapp – o jornalismo não pode fazer outra coisa a não ser estar o mais distante possível disso.

MS: Na sua opinião, que efeito é que esta pandemia pode vir a ter sobre a democracia, tal como a conhecemos hoje em dia?

DP: O efeito imediato foi que muitos governantes, numa tendência que vem de trás de diminuição da força das democracias, aproveitaram a pandemia para diminuir instituições e para perseguir a oposição.Vários casos reportados um pouco por todo o mundo em que, por exemplo o caso de Hong Kong, nós percebemos claramente que o nível de contestação que existia a determinado momento arrefeceu porque, a pretexto da pandemia, foram proibidas as reuniões, as manifestações. Houve eleições adiadas, onde já existiam problemas. Nomeadamente nos sítios onde se luta pela democracia esses problemas aumentaram de alguma forma. E essa é a primeira ameaça que nós temos durante a pandemia, ou seja, ter capacidade de resistir a essas forças iliberais para não dizer outra coisa, que se aproveitam deste momento excecional para reduzir liberdades, direitos e garantias e para de alguma forma minar a democracia. Eu tenho alguma esperança que no final disto tudo – nomeadamente graças à capacidade que a humanidade mostrou, apesar de tudo e apesar de todas as mortes -,  2021 nos dê também capacidade de perceber que sem uma série de instituições e sem algum trabalho concertado não seria possível aquilo que eu julgo que virá a ser possível ao longo de 2021, que é graças à vacina erradicarmos esta coisa. Claro que todo o barulho, todo o ruído não ajuda à democracia – a democracia tem problemas que vêm de trás e porventura, diria, de alguma maneira a pandemia ajudou a reforçar algumas dessas tendências mas não me parece que venha a ser absolutamente determinante em relação àquilo que aconteceu com o sistema. Há outras coisas que provavelmente pesam mais nisso.

MS: Acha que a comunicação social pode ver no horizonte, com esta nova realidade que nos foi imposta, um novo obstáculo no que à defesa da liberdade de informação e expressão diz respeito? 

DP: Vamos lá ver: o primeiro obstáculo é que só existe democracia livre completamente, ou pelo menos tendencialmente, se existir democracia sustentada. E o primeiro obstáculo que nós todos tivemos foi que a democracia, nomeadamente em meios como o Público que tem uma edição em papel para além do seu universo digital, isso significou uma perda de rendimentos muito forte. E isso é aquilo que me preocupa no imediato em relação às consequências, é aí que de facto elas mais se fizeram sentir. Agora acho que, por outro lado, isso também se reflete por exemplo no nosso crescimento do digital, um pouco como em todas as áreas que aconteceu graças à pandemia, ou seja, não tanto o nosso crescimento em termos de operação mas mais os hábitos. Os leitores passaram a perceber que nem sempre poderiam ter o jornal em papel, o que levou a que muita gente assinasse o jornal e por isso aumentasse aquilo que me parece ser uma via de maior futuro em relação à sustentabilidade do Público. Depois o Público foi dos primeiros jornais do mundo, num movimento que existiu, a colocar todos os seus conteúdos relacionados com a pandemia de livre acesso a toda a gente – e isto também permitiu que as pessoas percebessem o quanto nós estávamos empenhados nesse bem comum, e de alguma forma a capitalizar alguma simpatia das pessoas por aquilo que é o papel dos jornais e aquilo que conseguimos fazer de bem. E por isso temos estas duas duplas forças, esta contradição que eu julgo que o tempo se encarregará de alguma forma de clarificar, e espero que no final sobrevenha mais a capacidade que tivémos de nos adaptar, nós e os leitores, a este novo mundo e a este novo tempo do que propriamente os prejuízos que são obviamente avultados numa coisa que todos nós percebemos que tem um prazo, que é a edição em papel, e que provavelmente nós, Público, tencionamos aguentá-la até ao limite, enquanto for possível, mas acreditamos que obviamente as pessoas estão a mudar de hábitos de consumo e isso vai refletir também nessa frente.

Inês Barbosa/MS

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