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Como a COVID-19 mudou os planos para as férias

A pandemia de COVID-19 alterou os planos de muitos portugueses que estavam a aguardar pelo verão para desfrutar das suas aguardadas férias na terra natal. Embora as restrições continuem em vigor, agora é mais fácil viajar quando comparado com os últimos meses durante o pico da primeira vaga de COVID-19.  João Ferreira é proprietário da Dundas Travel & Tours, uma agência de viagens localizada em Toronto que viu a maioria das suas reservas serem canceladas. 

 

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Excursão de Toronto para Guimarães, Portugal. Foto: Nellie Pedro.

 

O empresário contou ao Milénio Stadium que as pessoas continuam assustadas e informa que desde que reabriu vendem poucos bilhetes. “Tivemos 90% de cancelamentos de viagens para Portugal e reabrimos há duas semanas, mas os próprios familiares em Portugal são os primeiros a não aconselharem viagens. E com o novo surto de COVID-19 em Lisboa ficou ainda pior. A comunidade portuguesa que reside em Ontário está envelhecida e tem doenças crónicas e o facto de pertencer a um grupo de risco também faz aumentar os receios. Os portugueses estão a cancelar as férias em Portugal, sobretudo os açorianos. Os madeirenses continuam a viajar, talvez porque não houve nenhum óbito na região devido à COVID-19”, disse.

O empresário lamenta que os apoios federais sejam pouco atrativos para a indústria do turismo que continua a acumular prejuízos. “Infelizmente os empréstimos até $40,000 não chegam para fazer face às despesas. Fui obrigado a ir às poupanças e vou tentar ativar o Canada Emergency Commercial Rent Assistance. Os funcionários tiveram que ir para casa durante a pandemia e desde que abrimos não estamos a conseguir vender bilhetes”, contou.

Ferreira compreende que os clientes estejam ansiosos e prefiram que o dinheiro da passagem lhes seja devolvido ao invés de receberem um voucher, mas sublinha que neste caso a decisão é da transportadora aérea. “A maioria dos nossos clientes estão a pedir reembolsos, já recebi inclusive ameaças verbais, mas a partir do momento em que entregamos o dinheiro das passagens às transportadoras a responsabilidade já não é nossa. Tanto a Air Transat, como a TAP e a Azores Airlines estão a optar por emitir vouchers e neste momento a TAP é a transportadora que está a processar os vouchers mais rápido. Mas o problema é que toda a indústria mundial está em crise e os pedidos dos clientes estão a entrar todos ao mesmo tempo”, explicou.

A indústria está a tentar adaptar-se à nova realidade e Ferreira acredita que agora é seguro viajar para Portugal. “É muito importante que não entrem em pânico porque os aviões e os aeroportos estão a realizar desinfeções regulares, tanto no Canadá como em Portugal. Na minha opinião é seguro viajar para Portugal desde que a pessoa cumpra com as novas regras que são impostas pelas autoridades, mas o cuidado também tem que partir dos passageiros”, adiantou.

Em Portugal existem regras diferentes de acordo com a região e Açores e Madeira pedem a realização de um teste negativo à COVID-19 nas últimas 72 horas antes do embarque. O teste tem que ser realizado em laboratórios certificados pelas autoridades nacionais ou internacionais, mas em Ontário o agente de viagens revela que parecem existir atrasos na realização dos testes. “Segundo alguns dos meus clientes os resultados em Ontário demoram entre três e quatro dias úteis. Talvez se os laboratórios processassem os testes mais rápido mais pessoas poderiam viajar. Mas o facto do Canadá impor uma quarentena obrigatória no regresso também não ajuda porque algumas pessoas não se podem dar ao luxo de tirar um mês de férias”, informou.

A agente de viagens Nellie Pedro vende excursões em grupo e desde março até agosto praticamente todos os clientes cancelaram as viagens. “Tivemos 100% de cancelamentos em seis meses, tínhamos viagens programadas para a China, Dubai, Portugal, Madeira (Festa da Flor), Açores (Festa do Senhor Santo Cristo em S. Miguel e Sanjoaninas na Terceira), mas foi tudo cancelado e as próprias festas também acabaram por ser canceladas. Foi complicado, mas agora é mais seguro viajar porque os aviões melhoraram os filtros de ar e os aeroportos estão a investir mais em desinfeção”, avançou ao nosso jornal.

Agentes de viagens preocupados com quarentena obrigatória

Nellie Pedro já está a fazer novos agendamentos, mas foi obrigada a mudar alguns critérios de forma a evitar surpresas desagradáveis. “Em setembro vamos aos Açores com um grupo de 30 pessoas – normalmente são 50, mas devido à COVID-19 reduzimos a dimensão do grupo. Assim podemos praticar a distância física nas deslocações em autocarros. Todos os veículos têm o selo Covid free, um certificado criado para garantir segurança aos passageiros. Para além disso só aceito pessoas que tenham teste negativo à COVID-19 aqui em Ontário, que usem máscara e que tenham até 75 anos no máximo. Com pessoas mais idosas é muito arriscado e o seguro de viagem não cobre COVID-19 em nenhum país porque a pandemia é mundial”, informou.

A agente lamenta que a hotelaria açoriana tenha aumentado os preços ao invés de incentivar o turismo e diz que a Azores Airlines precisa de concorrência. “Ainda não recebi os valores da hotelaria em Portugal Continental, mas nos Açores as dormidas estão mais caras. E os hotéis estão vazios, o que não faz sentido nenhum. Um hotel na região, independentemente da ilha, agora custa cerca de €140, mais ou menos $200 canadianas, mas antes da pandemia rondava os $100. Há países com campanhas mais económicas. A nível de viagens falta apoio político para fazer concorrência à transportadora aérea açoriana, os bilhetes têm que ser mais acessíveis”, sublinhou.

Nellie Pedro aplaude a decisão do Governo Federal de ter alterado os critérios para permitir que empresas com menos faturação possam candidatar-se a um empréstimo de $40,000 sem juros durante dois anos, mas garante que o turismo não vai aguentar se o Canadá não acabar com a quarentena obrigatória no regresso ao país. “Estamos à espera que no final deste mês o PM Justin Trudeau anuncie que a quarentena já não é obrigatória. Até para mudar de província no Canadá temos que fazer quarentena, mas a indústria está a pressionar o Governo e acredito que seja apenas uma questão de tempo até eles cederem. As regras têm que mudar senão o setor não sobrevive. As empresas aéreas deviam exigir um teste negativo à COVID-19 a todos os passageiros e o Canadá podia abrir mais exceções e permitir que os canadianos viajassem para destinos onde existem menos casos ativos de COVID-19 sem que tivessem que cumprir quarentena”, sugeriu.

Nellie Pedro defende que a fronteira dos EUA com o Canadá deve manter-se fechada para viagens não essenciais e revela que está a notar uma nova tendência em relação aos amantes de cruzeiros. “Infelizmente os casos de COVID-19 nos EUA estão fora de controlo e abrir a fronteira pode provocar um aumento de casos aqui no Canadá. Mas as pessoas querem viajar porque já não aguentam estar fechadas em casa, e de uma forma geral até aceitam as novas regras porque compreendem que é por razões de segurança. As pessoas que costumavam fazer cruzeiros agora estão a comprar viagens em grupo”, revelou.

O Governo canadiano, à semelhança de outros governos, está a incentivar os canadianos a explorarem o seu próprio país ao invés de fazerem férias no estrangeiro. Um estudo da Leger and the Association for Canadian Studies conduzido em julho avança que 72% dos canadianos não se sente à vontade para voar desde que algumas transportadoras aéreas decidiram acabar com a distância física nos voos e 85% dos entrevistados admite que não vai viajar para fora do país até ao final do ano.

Joana Leal/MS

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