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Carta às próximas gerações

21 de abril de 2020

Em casa, em Toronto

Olá,

Ensinaram-me na universidade que o jornal é como o peixe: é fresco no dia e depois perde valor, porque é de ontem ou da semana passada. Mas durante esta quarentena concluí que isso está profundamente errado.

Estou a completar agora a sexta semana de isolamento. Outras pessoas já somam mais. Estamos numa espécie de “dieta social” à qual não vemos o fim e que trouxe grandes dificuldades para muitos.

2020 acabou de começar, mas parece que já vivemos os males equivalentes a 10 anos de história condensados em poucos meses. Esta década já se antecipava caótica e incerta, mesmo antes da COVID-19 andar na boca do mundo. Ainda assim, fomos surpreendidos. Estamos confinados em nossas casas não por um Governo descontrolado, não por uma guerra, mas pelo que menos esperávamos. E tudo aconteceu muito rápido. De repente o mundo virou o letreiro de Aberto para Volto Já. Só que não sabemos quando.

Viver a crise da pandemia como recente imigrante poderia ser uma experiência aterrorizante, num país onde a família que tenho ao meu redor, fisicamente, é o meu marido, gatos e um punhado de amigos que fiz num par de anos, que também considero família. A temporada está a ser um desafio. O físico e prático é mais fácil de cumprir, mesmo com a rutura de stock de máscaras, álcool e até… papel higiénico – fenómeno surreal e descabido. Já o mental é mais complicado e caminha-se um dia de cada vez. Apesar de tudo, a experiência está a ser pacífica, devo dizer, graças a um país que, mais uma vez, nos transmite um sentido de segurança, sobriedade, de acolhimento e de pertença. O mesmo posso dizer da família deste lado do oceano. E estes dois elementos fazem-me sentir que esta é a minha casa.

Desta casa tenho observado o mundo de hoje a lidar com esta crise. Surpreendi-me. É irónico que na era da tecnologia e da produção em massa temos falta de máquinas, material de proteção e falta de hospitais. Muitas vidas foram perdidas, muitas famílias afetadas e sem dúvida que a pandemia ainda vai causar mais devastação. Mas acredito que nos está a ser dada uma oportunidade: a capacidade de abrir os nossos olhos e observar os outros.

Nesta crise onde a incerteza é uma realidade diária, tem sido inspirador o sacrifício dos heróis que estão na linha da frente, a união, a coragem, a generosidade e a camaradagem que as pessoas estão a mostrar umas para com as outras – exceto nas disputas para levar o último pack de papel higiénico!

Eu acredito que a adversidade pode sempre transformar-se em vantagem. Vimos isso acontecer várias vezes ao longo da história. E espero que um dia vocês possam olhar para trás e dizer o mesmo. Talvez mais tarde, quando me puderem chamar avó, possam consultar este jornal: o meu peixe de hoje e o vosso peixe de ontem, que terá ganhado ainda mais valor. Porque este jornal, como outros, não é apenas um veículo da atualidade, mas cumpre também um papel igualmente importante para a sociedade: constitui um testemunho dos acontecimentos que se demarcam ao longo dos dias, semanas, meses, anos, nas comunidades, países e no mundo. Os relatos sobrevivem através dos tempos para bem servir as sociedades que vêm depois. E quem sabe, um dia, quando o ano de 2060 for o presente, essa geração saberá um pouco mais e melhor o que foi a crise da COVID-19 através destes artigos.

Telma Pinguelo/MS

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