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Camões às Portas de Santo Antão

Em Lisboa, gosto de descer devagar uma das ruas, paralela à Avenida da Liberdade – a Rua de Santa Marta -, onde fica o Hospital do mesmo nome, com lojas populares e tasquinhas com filas de clientes na conversa à espera da sua vez. Essa rua é longa, mudando a certa altura de nome para Rua de São José, que continua sempre a direito, mudando, no Largo da Anunciada, para Rua das Portas de Santo Antão, até terminar no Largo de São Domingos, ao Rossio.

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Tunel vista para a rua
Tunel vista para a rua
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Santa Marta Lojinha tradicional
Santa Marta Lojinha tradicional
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Ginginha sem rival
Ginginha sem rival
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Azulejos Camões de Leonel Moura
Azulejos Camões de Leonel Moura
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Tunel vista para o Pátio do Tronco.
Tunel vista para o Pátio do Tronco.
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Rua de São José - Leitaria.
Rua de São José – Leitaria.
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Ruas de Santa Marta e São José.
Ruas de Santa Marta e São José.

    Os passeios são tão estreitos, que sou forçada a ir parando e a encostar-me às paredes, para deixar passar os carros ou dar lugar a outra pessoa. Aproveito esses bocadinhos para olhar com atenção as fachadas dos palacetes, os portões de ferro trabalhado que escondem jardins interiores, os antigos mosteiros e igrejas.  Leio as inscrições do registo de nomes de pessoas ou instituições relevantes daquela vizinhança e, nos últimos tempos, reparo em lojas e restaurantes étnicos que vão enchendo de cores e sabores esta zona histórica de Lisboa.

    Num desses passeios ao final do dia, descobri, por acaso, um túnel parcamente iluminado, que conduzia a um pátio mal cuidado, nas traseiras do que era o famoso cinema Odéon, hoje transformado em Hard Rock Café na Praça dos Restauradores. Surpreendi-me, ao reconhecer o retrato, várias vezes repetido do poeta Luís Vaz de Camões, em azulejos de tons ocre escuro cobrindo o teto do túnel. Uma placa indicava: Pátio do Tronco.

    A curiosidade levou-me a investigar que, naquele pátio tinha existido uma prisão municipal, a Cadeia Municipal do Tronco, onde Camões havia estado preso, a certa altura de sua vida. A pintura dos azulejos é da autoria do reconhecido artista Leonel Moura que reproduzem um retrato do poeta feito em 1570, por um artista chamado Fernando Gomez. Este reconhecimento dum episódio marcante da vida do poeta data de 1992, e deve-se à iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.

    Constatei que Luís Vaz de Camões, aos 28 anos de idade, no dia 15 junho de 1552, dia da festa de Corpo de Deus, andava, como muita gente, a passear e a divertir-se naquela área da cidade, entre o Rossio e as Portas de Santo Antão, junto ao Convento de São Domingos. Era dia de grande festa popular, de alegria desenfreada, de desordens e rixas. Luís de Camões, numa briga, a tentar auxiliar uns amigos, feriu, com um golpe de espada, um dos criados do Rei. Foi levado para a Cadeia do Tronco, próxima do local, e nela ficou encarcerado durante quase um ano.

    O rei Dom João III acabou concedendo a liberdade ao jovem: “Mancebo pobre que me vai este ano servir à Índia”. Terá sido nessa condição que Camões foi libertado, a 24 março de 1553, tendo essa viagem à Índia servido de inspiração para escrever “Os Lusíadas”.

    Esta área de Lisboa, às Portas de Santo Antão, nome que vem dum antigo convento dos dominicanos de 1400, continua a ser de boémia e animação.  Hoje, é uma rua pedonal onde turistas e nacionais se aglomeram nas inúmeras marisqueiras, cervejarias e na conhecida Ginginha Sem Rival. É igualmente um local de entretenimento pois ali fica ali o imponente Coliseu dos Recreios, o Teatro Politeama e o Teatro Nacional Dona Maria.

    Coincidência ou não, a poucos metros do Pátio do Tronco, e da antiga cadeia, localiza-se a Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875.  Com um museu etnográfico e biblioteca riquíssima, nela se destaca uma coleção cartográfica de atlas e mapas. Constitui um espaço cultural onde a obra de Camões tem sido e vai continuar a ser destacada.

    Estar no Pátio do Tronco é regressar, por momentos, ao século XVI e imaginar o jovem e aventureiro Camões naquela prisão, a sonhar com a liberdade e vontade de voltar a novas expedições, depois da experiência de Ceuta. Acredito que os oito meses que ali esteve preso, o tenham estimulado a escrever sobre os descobridores, rotas novas e mapas tracejados pelos “mares nunca dantes navegados” que perpetuou no seu poema imortal.

    Manuela Marujo/MS

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