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As marcas do isolamento

Atravessamos, todos, uma fase desconhecida, alarmante e que nos faz isolar do mundo lá fora. Conectamo-nos através da internet, nos telefones e computadores, como já era antes, sejamos sinceros, mas agora a diferença é que temos que nos restringir a essa opção de vida social. Mas até que ponto essa necessidade, ou até, obrigação de ficar sem interação física nos deixará marcas quando este vírus deixar de nos assombrar? Como lidamos com a solidão, a nossa e a dos mais velhos que já eram, tantas vezes, seres isolados? São várias as questões que se levantam e por isso nesta edição do jornal Milénio Stadium fomos à procura de respostas junto do psicoterapeuta Tiago Souza.

Tiago Souza
Tiago Souza

Milénio Stadium: Sendo o ser humano um ser gregário, com necessidade de interação com os outros, que efeitos esta pandemia vai ter na sociedade?
Tiago Souza: Esta pandemia, uma situação mundial sem precedentes neste século, está redefinindo como nos relacionamos. As conexões humanas se dão de diversas formas, e o contato físico não é a única forma de nos ligarmos uns aos outros. Nós temos hoje o desafio de sermos intencionais, expressarmos nossas emoções aos outros com mais clareza e compaixão, e principalmente nos relacionarmos “conosco” mesmos. É um tempo de revisão de valores. Eventos em grande escala como a pandemia mudarão o paradigma dos relacionamentos. Os efeitos serão sentidos de acordo com nossa postura frente a essas mudanças. Os que puderem se reinventar, olhar para suas ansiedades e medos, e usarem a própria tecnologia em favor do bem comum, poderão achar serenidade e creascimento. Lembrando que, por mais que não pareça, isso passará.

MS: As pessoas, hoje em dia, afastam-se umas das outras, evitam o toque, olham umas para as outras com desconfiança. Acha que vamos ficar uma sociedade mais distante e desconectada no futuro?
TS: À primeira vista, sim. Ao mesmo tempo, estamos percebendo que já estávamos afastados uns dos outros. Mediamos nossas relações através dos telefones e computadores, procuramos satisfazer nossas necessidades fora dos domínios familiares, e nos relacionamos de forma superficial. Só estamos trazendo essa realidade à vista de todos. A curto prazo, isso trará uma certa prevenção, mas nós precisamos uns dos outros. Com o tempo, deveremos apertar o “restart”, e reconfigurar nossas relações, para apreciarmos mais o outro, e sermos mais presentes uns para com os outros. Só assim poderemos viver melhor socialmente, com menos medo e mais genuínos.

MS: As famílias agora veem-se através das redes sociais, videochamadas, os netos foram afastados dos mais velhos. Esta destruturação familiar que efeitos terá ao nível do equilíbrio emocional e até da saúde mental – principalmente dos mais velhos?
TS: Este é um dos mais sérios impactos advindos das restrições impostas pela pandemia. Aqueles individuos que estão perdendo o contato presencial são as gerações mais antigas, mais fragilizadas física e mentalmente. Isso traz prejuízos para a sua saúde mental, e pode levar principalmente a depressão. Os mais novos, ainda mais adaptáveis a mudanças, potencialmente serão menos impactados. Mais do que nunca, há a necessidade de usarmos com mais eficácia os meios disponíveis, para que esses riscos sejam minimizados. O velho e bom telefonema nunca será obsoleto, dizer para eles quanto são amados e apreciados sempre será algo bem-vindo, e trará alívio e paz em meio a tanta dificuldade.

MS: As dificuldades financeiras vão surgir em breve – principalmente no seio de famílias que vivem com o que recebem de duas em duas semanas. A tensão e a incerteza relativamente ao futuro aumentam – sendo certo que nada justifica, será isto que explica os relatos de aumento de casos de violência doméstica?
TS: A presença compulsória em casa tende a aumentar os conflitos nos lares em que os relacionamentos já eram marcados pela violência doméstica, infelizmente. Além disso, relacionamentos distantes e com a atitude negativa latente serão afetados drasticamente. Neste momento, com tantas restrições e preocupações montantes, é imperativo que as partes afetadas pela violência procurem os meios de guardarem a sua segurança e a dos seus tutelados, principamente quando há crianças e jovens envolvidos. Os órgãos oficiais de segurança da família, crianças e adolescentes são serviços essenciais, continuam abertos e prontos para atender aos mais vulneráveis. E se há a necessidade, procure outros familiares, ou outros amigos que podem dar abrigo temporário. Nada justifica a violência.

MS: Como psicoterapeuta, o que mais receia deste período que estamos todos a viver?
TS: Eu tenho uma preocupação com o desespero e a falta de esperança. Isso leva os indivíduos a tomarem decisões precipitadas, escutarem fontes de informação duvidosas e mal-intencionadas, e exacerbarem os problemas que já existem, tanto no âmbito individual como no coletivo.
O antídoto para isso é procurar entender as razões para as preocupações, endereçá-las uma a uma, manter um círculo de relações saudáveis, cuidar da saúde emocional, e evitar ao máximo o isolamento voluntário. O espírito de solidariedade está mais vivo do que nunca, há recursos disponíveis, e também tenho a confiança de que sairemos mais resilientes desta importante etapa em nossa história.
Lembrem: serviços de saúde mental estão abertos, por telefone e online, pois são essenciais. É hora de nos cuidarmos.

Catarina Balça/MS

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