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“As associações já não têm público para pagar a uma banda”

O panorama da música portuguesa em Toronto mudou muito nos últimos anos. A imigração está envelhecida e longe vão os tempos em que o público fazia fila para entrar nos bailes dos clubes portugueses da cidade. Hernâni Raposo é um conhecido produtor musical português que tem um estúdio de 1200 m2 em Mississauga e em entrevista ao Milénio Stadium reconheceu que “as associações já não têm público para pagar a uma banda”.

Hernani Raposo

Hernâni começou com o estúdio nos anos 90, mas a música sempre fez parte da sua vida. “Sou natural da Lagoa, de São Miguel, nos Açores e quando era pequeno fugia de casa para ir assistir aos ensaios da filarmónica. Tinha três anos e na altura o acesso à música não era fácil”, contou.

Um estúdio com qualidade implica um grande investimento e, para além disso, a tecnologia está sempre a mudar. “Um estúdio à antiga com paredes duplas pode custar milhões de dólares. Uma misturadora, que é o coração de um estúdio, pode chegar a $1,000,000 e um bom microfone pode custar $5,000. Mas o computador também tem de ser bom senão não aguenta. E é fundamental ter alguém que saiba equalizar uma voz ou um instrumento”, explicou.

Nem todas os grupos conseguem pagar a gravação de um álbum em estúdio e a opção parece ser a gravação de um single. “Um álbum com dez faixas pode demorar anos ou meses a gravar e a gravação de um CD com dez faixas com guitarra, viola e baixo pode custar entre $6,000 e $7,000. Se forem mais faixas e tiver percussão é mais caro. Por isso é que muitos artistas já só gravam o single, é mais económico e o público só vai à procura da sua música preferida”, avançou.

O produtor luso-canadiano trabalha com os principais artistas da comunidade e trabalhou quatro anos no México onde um dos trabalhos que produziu atingiu vendas de 80,000 unidades. Estávamos na década de 80 e o panorama musical era diferente. “Em Toronto comecei a tocar música com Os Águias e naquela época tínhamos uns 30 grupos portugueses, hoje devemos ter uns dez… Não tenho um género musical preferido, mas agora estou mais envolvido com o fado, toco guitarra portuguesa e atuo para o público português e canadiano. Hoje alguns produtores trabalham apenas com um computador e não conhecem os instrumentos. Acho que os jovens têm que focar-se em nichos de mercado e encontrar algo que ninguém está a fazer”, referiu.

Hernâni está atualmente a produzir o novo álbum dos Starlight, uma banda portuguesa que surgiu em meados dos anos 80 em Toronto. O grupo tem quatro elementos e sete álbuns gravados. O Milénio Stadium tentou chegar à fala com Tony Melo, o vocalista, mas até ao fecho desta edição não foi possível.

Tony Gouveia

Tony Gouveia faz parte dos Tabu, um grupo que existe há mais de 30 anos. O grupo já fez espetáculos em Ontário e no Quebec e fora do Canadá já tocaram nos EUA e em três ilhas açorianas. Os Tabu foram o primeiro grupo luso-norte-americano a gravar para uma editora multinacional em Portugal, a Polygram, e a discografia inclui seis álbuns, o último “Siga a Rusga” foi lançado em 2006.

O grupo é composto por cinco elementos e Tony sublinha que o mercado não está fácil. “Fazer parte de uma banda rouba muito tempo às relações pessoais, à família e aos amigos. Os Tabu só continuam porque ainda temos amor pela música e há uma grande amizade de longa data entre os nossos elementos. Mas o mercado está a ficar muito pequeno, os portugueses estão a envelhecer e os clubes estão a fechar”, disse.

A indústria mudou completamente com o aparecimento de plataformas digitais e os artistas cada vez têm menos receitas. “É mais rentável vender CD’s nos espetáculos porque com o Spotify só recebemos dois cêntimos por música e ela tem de ser ouvida centenas de vezes até que o artista receba alguma coisa. Quando atuamos num clube saímos de casa às 14H e chegamos às 2H. Temos que montar o equipamento, fazer o teste de som e só podemos tocar depois do jantar. E ainda fica mais caro se tivermos que contratar uma empresa de som”, lamentou.
Muitos dos clubes acabam por apostar num DJ porque fica mais em conta. “A banda tem os custos com a deslocação, com sala de ensaios, com instrumentos e reparações. Só para terem um exemplo a última vez que a nossa mesa de som avariou a reparação custou mais de $900. Hoje em dia uma boa guitarra não custa menos de $1,500 e se for portuguesa é entre $2,000 e $3,000”, enumerou.

Os Tabu fazem cerca de 50 concertos por ano e para já não estão a pensar em gravar um novo álbum. Tony não vive da música a tempo inteiro e desde 2005 que começou a interessar-se pelo fado e já conta com dois CD’s – “O Nosso Fado” e “Fado Ardente”.

Joana Leal

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