Temas de Capa

Arthur Fleck…

Arthur Fleck,

Hoje escrevo-te na esperança que recortes este pedaço de papel e o coles nesse teu caderno que religiosamente guardas. Nesse onde escreves as linhas que te cruzam o pensamento e a vida.

Tantos de nós, que nada somos a mais que tu, fingimos não ser como tu – mas somos. Uns mais, outros menos. Estes últimos porque vivem aceites num sistema que lhes pertence, numa sociedade que os nota, numa comunidade que lhes permite existir sem constrangimentos.

Vivemos agora uma fase da história do mundo parecida com a loucura com que te pintam: anormal, confusa, perigosa, inquietante, perturbadora e de difícil compreensão. Algo que nos desconcerta a vida, mas ainda mais a mente.

Estamos inseridos numa sociedade que se esconde de assumir que vive o mesmo cansaço que tu, a mesma frustração e a mesma inevitabilidade de enlouquecer. Agora mais que do que nunca.

As máscaras que hoje nos cobrem os rostos, servem para nos proteger deste vírus que nos assombra. Não muito diferente de ti, que usas a tua – de forma bem mais original – para te protegeres deste mundo que te atormenta e não te deixa ser. Deste mundo que tem mais que fazer do que te entender, do que aturar as tuas “condições”. Deste mundo que te julga, deste mundo doente. Deste mundo que se prima pela intolerância perante a diferença.

Vives nessa linha ténue entre a esperança que te percebam e a vontade de desistir. Mas todos nós, mesmo os que nunca te “viram” e continuam sem querer saber de ti, começam a sentir que afinal também perdemos o controlo: só conseguimos controlar a forma como reagimos às surpresas desagradáveis da vida, não o que nos acontece.

Pode ser que agora, depois de obrigados a ficar em pausa, com tempo para refletir, todos nós, que te rodeamos, tenhamos a capacidade de deixar de ter medo da profundidade que não se vê à superfície. Agora, estamos todos no mesmo barco, somos todos igualmente sensíveis ao mesmo vírus que mal conhecemos e que nos – a todos, sem exceção, sem “condição” – pode tirar a vida.

E é nessa angústia que, pelo menos para já, nos revemos. Porque o incerto transporta medo. E o medo do desconhecido não nos deixa ver mais à frente – talvez seja por isso que poucos de nós te entendamos. Temos medo do que não conhecemos. É mais fácil seres apenas o… Joker.

Mas Arthur, quero dizer-te que nessa dança livre, nesse riso descontrolado, encontramos sempre a esperança de uma vida que faça mais sentido que a morte. Até porque sem um pouco de loucura, vamos acabar por ficar todos loucos.

Catarina Balça/MS

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