Temas de Capa

Ao ritmo de uma nova celebração

“A minha Pátria é uma corda de estender a roupa”.,  Mahmoud Darwich, poeta palestino

Celebra-se mais uma vez o país, mas de uma forma diferente. Todas as cerimónias programadas ficaram sujeitas à ditadura de um vírus que, de repente, obrigou a cancelar e a alterar agendas. Serão contidos os festejos deste ano, sem multidões nem convívios, tão ao gosto do nosso Presidente dos afetos. Foi ele quem, no início do seu primeiro mandato, e interpretando o espírito das celebrações, expresso na definição do dia – de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas –, decidiu que a festa extravasaria o território nacional. Celebrar o poeta das muitas andarilhagens, é celebrar o povo que deu origem ao mote do “se mais mundo houvera, lá chegara”.

Assim, e inaugurando um modelo inédito, passou a dar voz aos diferentes espaços onde as nossas comunidades estão massivamente representadas. No primeiro ano, a festa fez-se entre Lisboa e Paris, a que se seguiram, em 2017, o Porto e as cidades brasileiras do Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2018, o périplo dividiu-se entre Ponta Delgada e as cidades de Boston, Providence e New Bedford, nos Estados Unidos da América. No ano passado, iniciada a cerimónia na cidade de Portalegre, rumou-se depois para a Cidade da Praia, em Cabo Verde. Tudo estava programado para que, na próxima semana, se repartisse entre o Funchal e a forte comunidade residente na África do Sul. Um valor mais alto se levantou para impedir a festa – a defesa da saúde pública.

Recordo-me de, no início, ter ouvido alguém comentar que o Dia de Portugal deveria ser sempre celebrado em solo pátrio, reservando-se as visitas às comunidades portuguesas para outras datas. Nesse dia interroguei-me sobre a questão do chão de cada um de nós. Como sabemos, “jus soli”, que em latim significa “o direito de solo”, pode ser condição única para alguém ser considerado cidadão de um determinado país. Ou seja, o nascimento, por si só, confere o direito à nacionalidade, que o mesmo é dizer – a pertença a um chão.

Mas aquilo que cada um considera o seu chão não pode ser definido de forma tão simplista, embora a possamos considerar determinante. Pensemos, por exemplo, nas nossas comunidades dispersas pela diáspora. Quantos dos que as formam, depois de décadas de ausência, não escondem que se sentem tão portugueses hoje, como no dia em que se viram forçados a deixar o seu chão. Depressa se percebe que um chão nem  sempre se representa pela materialidade do espaço físico, do pedaço de terra onde deixamos gravados os nossos primeiros passos. É bem mais do que o lugar a que ficamos ligados pelo cordão umbilical do nascimento, porque é feito da memória ancestral dos que nos precederam, que montaram o tear onde vamos urdindo a trama das nosssa vidas. Essa memória acompanha-nos, tatuada no corpo e na alma, sem precisar de um lugar onde assentar, mesmo que lhe aumentemos o território das vivências acumuladas.

Por isso, sempre que Marcelo Rebelo de Sousa visita uma comunidade portuguesa, fora de Portugal, esta continua a ser solo pátrio. Foi nele que cresceram novas raízes, mas o húmus de que se alimentaram mais não foi do que o resultado de um processo de decomposição das antigas. Arrancadas às origens, e transplantadas para os mais variados mundos, souberam gerar uma seiva híbrida, que alimentou a frondosa copa de que se formaram novas genealogias.

Na bifurcação de todos estes ramos, continuaremos a estender a corda da memória, para, ao ritmo das aves migratórias, nela pendurarmos as roupagens puídas pelos cheiros, sons, imagens e sabores antigos, e as expressões de uma linguagem que diariamente se reinventa. É esse estendal que fitaremos quando, no dia 10, voltarmos a entoar o hino de Portugal.

Aida Batista/MS

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