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Ana Bailão leva a habitação acessível ao Canadian Club

Toronto: 78,000 famílias em lista de espera

A responsável pela pasta da habitação acessível na Câmara Municipal de Toronto levou o tema ao Canadian Club na última quarta-feira (6) e contou com um importante painel de convidados.

O evento foi no Fairmont Royal York Hotel e no seu discurso Ana Bailão sublinhou que a habitação acessível é um assunto chave com grande impacto no futuro de Toronto.

Comprar casa em Toronto não está ao alcance de qualquer um. Os valores do mercado imobiliário, na cidade que mais cresce na América do Norte, continuam a bater recordes e a maioria dos millenials vai adiando o sonho da casa própria.

Segundo o Toronto Real Estate Board, o preço de referência de uma casa ou apartamento vendido na cidade é agora de $ 810.900, mais 5,8% do que em 2017. O relatório foi divulgado esta semana e indica ainda que em outubro de 2019 foram vendidas 8,491 casas, mais 14% do que no período homólogo de 2018.

A equação não parece simples, mas a Royal LePage ajuda a explicar. Em cada cinco casas compradas no Canadá em 2019, uma pertence a um novo imigrante. De acordo com o estudo feito pela agência imobiliária, os chamados newcomers representam cerca de 21% dos compradores do país.

Antes de comprar casa um recém-chegado espera em média três anos e cerca de 75% traz dinheiro para ajudar na compra da casa. Se os números de novos imigrantes se mantiveram iguais, a Royal LePage estima que os newcomers comprem 680,000 casas nos próximos cinco anos.

Neste relatório a agência imobiliária avança que definiu newcomers como aqueles que viveram no Canadá durante 10 anos ou menos. Neste grupo incluem-se imigrantes, estudantes, refugiados e cidadãos de outros países que vieram trabalhar para o Canadá.

No Fairmont Royal York Hotel estiveram presentes Alyssa Brierley,  diretora executiva do Centre for Equality Rights in Accomodation CivicAction DiverseCity Fellow; John Capobianco da Fleishman-Hillard’s Toronto; Art Eggleton, antigo presidente da autarquia de Toronto; Paula Fletcher, vice-presidente do Comité Toronto Planning and Housing; Sean Gadon, diretor executivo da City of Toronto Housing Secretariat; Gregg Lintern, chefe de planeamento da autarquia de Toronto e Tom Giancos senior Vice President do Urban Development KingSett Capital.

Ana Bailão

Milénio Stadium: Como é que foi subir a esta palco e discursar pela primeira vez no Canadian Club?

Ana Bailão: Quando foi anunciado pela primeira vez, um dos antigos presidentes da Câmara Municipal de Toronto, Art Eggleton, enviou-me um e-mail a felicitar-me pelo facto de estar a falar sobre habitação acessível no Canadian Clube porque normalmente o tema só é abordado aqui por ministros ou autarcas.  Nunca mais pensei no assunto até chegar hoje cá e em conversa com a diretora executiva do Canadian Club perceber que nomes como o de Winston Churchill e o de Margaret Tatcher, antigos primeiros ministros de Inglaterra, já discursaram neste clube. Foi importante porque acho que é o reconhecimento do meu trabalho e fiquei feliz por a sala estar completamente esgotada. No início quando comecei a falar sobre habitação acessível percebia que as pessoas não estavam muito interessadas neste tema. Hoje a sala estava cheia, desde empresários a associações sem fins lucrativos e foi bom perceber que eles estavam interessados num assunto que é tão importante para o futuro de Toronto.

Milénio Stadium: Hoje o preço da habitação em Toronto é bastante elevado e a população continua a aumentar. A habitação deveria ser um direito?

Ana Bailão: O governo federal já reconheceu isso com a criação do National Housing Strategy. Estou confiante que quando este plano para os próximos 10 anos for apresentado a cidade também o vai fazer, pelo menos eu vou lutar para que isso aconteça. O plano da Câmara Municipal tem de ser concreto e tem de apresentar formas de medir o processo para a criação deste tipo de habitação.

Como é lógico os governos não podem dar casas às pessoas, mas temos a obrigação de criar legislação para que haja oportunidade para construir estas casas e para que as pessoas possam ter acesso.

Milénio Stadium: Mais de 100,000 habitantes gastam mais de 50% dos seus rendimentos em aluguer. É um valor justo?

Ana Bailão: É um valor muito elevado e sabemos que as pessoas estão sobreendividadas por causa destes valores. As pessoas têm de facto dificuldades para viver em Toronto e a classe trabalhadora não consegue comprar nem arrendar na cidade. Isto não é saudável para a economia nem para a existência social da cidade.

Milénio Stadium: Vamos ter millenials a viver em Toronto nos próximos anos?

Ana Bailão: Espero que sim e é para isso que estamos a trabalhar tanto. Mas se continuarmos a trabalhar da mesma forma como temos trabalhado até hoje acho que isso não vai acontecer. Vamos ter uma cidade onde só quem consegue comprar uma casa de $2 milhões é que pode viver cá e o nível de pobreza vai ser muito elevado.   

Milénio Stadium: Quais foram os principais avanços nesta área a nível municipal?

Ana Bailão: Com o atual presidente da Câmara Municipal de Toronto, John Tory, temos vindo a dar grandes passos, ainda que a grande custo. Felizmente tive a sorte de ter um presidente que acredita e defende este projeto.  Criámos incentivos e disponibilizámos fundos para a habitação; cedemos terrenos municipais para construir e remodelámos as unidades do Toronto Community Housing Corporation (TCHC). Toronto sofre diariamente muitas pressões, inclusive na área dos transportes públicos, mas de certa forma estes problemas são transversais a todas as grandes cidades mundiais. A população aumenta nas cidades e as autarquias não tem os mesmos recursos financeiros que um governo federal ou provincial tem. Em Toronto temos o imposto predial e pouco mais e fazer tudo isto neste imposto não faz sentido.

Milénio Stadium: Que exemplos mundiais é que Toronto pode seguir? EUA, Europa…

Ana Bailão: Disponibilizar mais terrenos para construir, flexibilizar as leis para construir; precisamos de investimento, temos de construir, mas em simultâneo precisamos de manter o que já temos.  O atual presidente da autarquia comprometeu-se a construir 40,000 habitações em 12 anos. Nos últimos três anos conseguimos aprovar mais de 1,000 habitações em cada ano, acho que conseguimos fazer melhor e é para isso que estamos a trabalhar.

Milénio Stadium: Quantos pessoas é que estão atualmente em lista de espera e quais são os próximos passos?

Ana Bailão: Temos 78,000 famílias à espera de habitação. Normalmente quem está a aguardar por arrendamento tem um nível de rendimento anual muito diferente de quem quer comprar.  Agora em dezembro vamos lançar o plano para os próximos 10 anos que inclui algumas recomendações para alterar o planeamento.  Para a comunidade portuguesa o Magellan Community Centre que vai nascer em Davenport vai contar com cerca de 60 unidades deste género. Eu vivo em Davenport e se fosse hoje não conseguia comprar a minha casa.

Joana Leal/MS

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