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Ana Almeida: “Vemos de tudo para se conseguir um bom jogador”

Ana Almeida nasceu em São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. O desporto desde cedo esteve presente na sua vida – começou por praticar atletismo, mais concretamente 100 metros e salto em comprimento, mas, infelizmente, teve de abandonar a prática desta modalidade por conta de uma lesão.

Determinada, não permitiu que este contratempo a impedisse de perseguir um novo sonho: com 17 anos decidiu experimentar o mundo do futebol, como defesa. A Académica de Alvalade foi a sua primeira equipa. Depois de ter sido chamada, por duas vezes, à seleção de Lisboa e de ter sido campeã nacional pelo 1º de dezembro, Ana Almeida, que sonhava em ser médica, estava longe de saber o que o futuro lhe reservava. E não, não eram batas nem bisturis.

Depois de ter aceitado colaborar com um empresário, percebeu que este não tinha licença. Foi aqui que, na sua cabeça, se fez luz. Ana é, desde 2003, a primeira mulher agente FIFA em Portugal e a segunda no mundo. E não fez a coisa por menos: foi a melhor candidata no exame, alcançando 34 pontos em 40 possíveis.
O Milénio Stadium esteve à conversa com Ana Almeida para tentar perceber, afinal, de que é feito este mundo dos agentes de futebol. Será que tudo não passa de um simples negócio? Haverá ainda alguma preocupação com a vertente humana ou, no futebol, o que fala mais alto são os números?
O “desporto rei” move milhões… mas será que o faz da maneira mais correta?

Milénio Stadium: Ana, antes de mais, qual é o caminho a tomar por alguém que decide ser empresária/o de jogadores de futebol?
Ana Almeida: Para ser agente FIFA é necessário fazer-se um exame onde temos de ter conhecimento de todos os regulamentos e estatutos da FIFA e da Federação Portuguesa de Futebol de jogadores de futebol profissional. É necessário ter também o mínimo conhecimento do Direito Civil e de Contratos de Trabalho e toda a legislação associada. Hoje em dia a designação dada a este cargo é a de intermediário.

MS: É fundadora da Associação Nacional de Agentes de Futebol. Que propósito tem esta Associação?
AA: Em 2005 foi fundada a Associação Nacional de Agentes de Futebol (ANAF), e eu tomei o cargo de vice-presidente do Conselho Fiscal.
O objetivo geral da ANAF é promover e defender os interesses dos agentes de jogadores licenciados pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Nos dias de hoje a ANAF marca presença no Conselho Nacional do Desporto, que pretende aconselhar o membro do Governo responsável pela área do desporto em matérias relacionadas com a política nacional para o desporto, mais concretamente na definição de áreas e setores prioritários que digam respeito a essa política.

MS: Como é jogar e ter influência no futuro de seres humanos – principalmente, no domínio da vida profissional, mas também numa esfera mais pessoal?
AA: É muito bom ver os nossos atletas a ter sucesso e saber que tive influência na carreira deles. É importante respeitar a família e as suas religiões – valorizo sempre a parte humana.

MS: Neste ramo profissional o objeto de negócio são os desportistas – que regras de ética devem ser respeitadas?
AA: Quando tiramos o exame FIFA assinamos um código deontológico que, obviamente, deve ser respeitado pelos agentes. Entre outros, destacam-se a integridade e os comportamentos éticos, o fairplay, o tratamento respeitoso e digno a todas as pessoas, proteção da privacidade e dos direitos humanos e a tolerância zero à discriminação, ao assédio, ao suborno e à corrupção.

MS: Apesar de eventuais regras que existam neste meio há sempre a tendência para atitudes de deslealdade e para as chamadas “rasteiras”? É um “salve-se quem puder” entre agentes?
AA: Nesta área lido com muitas pessoas, dos mais diversos perfis e personalidades – umas com menos credibilidade que outras.Vemos de tudo para se conseguir um bom jogador. A credibilidade e a confiança são muito importantes neste negócio.

MS: Podemos olhar para o negócio da transferência de jogadores quase como um leilão ou uma bolsa de valores? Do tipo “quem dá mais”?
AA: Eu vejo mais pelo lado da bolsa de valores porque, em relação ao valor dos jogadores, nem sequer a lei da oferta e da procura vale para os que ditam estas regras ao mercado. Muitos dos jogadores são, sem dúvida, sobrevalorizados.

MS: Pelo caminho será que não se perde a componente pessoal daquilo que se está a negociar? Isto é, não serão os jogadores cada vez mais vistos como “mercadoria” ou “números”?
AA: Eu vejo os atletas como família e procuro sempre ver as melhores opções para eles, tanto a nível de clube, monetário e pessoal. Têm de ser felizes, porque só assim terão sucesso na carreira. É verdade que os jogadores são vistos como mercadoria por muitas pessoas, sim. Essas pessoas só pretendem mesmo fazer os negócios sem olhar a meios para os conseguirem fechar.

MS: Para além da recompensa monetária, o que fica desta profissão de agente/empresária desportiva?
AA: Descobrir novos talentos é sem dúvida uma das minhas características. Sinto-me muito realizada com o trabalho atingido e respeito sempre a parte humana.

Inês Barbosa


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