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A vida do outro lado

Em 2012 surgiu a oportunidade do meu pai vir para o Canadá. A altura foi oportuna e em pouco tempo se tomou uma decisão. E de repente o Canadá, que antes nunca me disse nada e pelo qual nunca tive curiosidade, passa a fazer parte da minha vida. Olhando para trás nem me lembro bem da sucessão dos eventos, acho que ignorei o assunto até não poder mais, parece que aconteceu tudo numa semana.

A imigração não era novidade na família, mas que me tocasse a mim era uma novidade. Se alguma vez pensei em sair do país? Claro que sim, mas pensei que seria eu a deixar a minha casa e não os meus pais. A 27 de fevereiro, veio para o Canadá o meu pai, o meu padrinho, o meu tio e três tios do meu pai. Mais tarde, a minha madrinha e os meus primos. E assim, a nossa família ficou reduzida a metade. Nos almoços que aconteciam todos os meses, em vez de sermos 30 éramos 15, mas aconteciam com mais frequência, porque também percebemos o tempo que devíamos ter aproveitado quando estávamos todos juntos.

Quando pensamos em imigração, pensamos sempre que vamos ser nós, os filhos, a dizer adeus. E hoje, que já estive do outro lado, acho que no início até é mais fácil, afinal somos nós que tomamos a decisão, que partimos à aventura, não somos nós que ficamos no mesmo sítio, onde tudo é igual, mas já não é a mesma coisa.

E assim, aos 44 anos, o meu pai decide mudar de país: uma nova língua, um novo trabalho, aprender a desenrascar-se sozinho em coisas tão simples como fazer comida ou lavar a roupa. E há que ter orgulho de alguém que faz isso pela família. Numa idade em que se vê obrigado a deixar para trás os amigos de longa data, o trabalho que sempre conheceu, a aldeia onde nasceu, os hobbies que tinha e apanhar um avião pela primeira vez, atravessar o oceano e começar de novo.

Na altura com 16 anos, não foi fácil não ter sempre o meu pai por perto. Não foi fácil não por ser meu pai, mas porque sempre fui muito chegada a ele, e temos feitios tão parecidos que às vezes acho que é a pessoa que me compreende melhor. Acho que o meu pai é responsável por 70% da minha personalidade, o resto são as experiências que vivi. Os meus ideais, trabalhar por aquilo que queremos, ter mérito próprio, não viver para agradar os outros, são tudo coisas que aprendi com ele. Mesmo durante o tempo em que esteve longe, sempre foi um grande apoio. Sempre contei tudo ao meu pai, desde os pequenos dramas do dia a dia a problemas mais sérios.

Durante o ano e meio seguinte fiquei eu, a minha irmã e a minha mãe em Portugal. Os passeios de domingo e o convívio diário foram substituídos por um telefonema uma vez por semana, devido à diferença de horário e ao meu pai, na altura, não usar internet.

Em 2014, depois de terminar o ensino secundário, uma semana depois de eu fazer 18 anos, a minha irmã e a minha mãe juntaram-se ao meu pai. Eu fiquei, contra a vontade deles, mas porque quis e respeitaram. Imigração ainda não estava nos meus planos, mudei de cidade, fui para a universidade, o que muitas vezes me fez sentir que eu própria estava num país diferente por já não ter os meus pais ali tão perto. E muitas vezes pensei “isto é mais difícil do que pensava, vou embora”, mas o orgulho de ter tomado uma decisão e de ter de a levar até ao fim manteve-me fiel ao objetivo. Isso e o apoio que sempre recebi.

Tive a sorte da minha família alargada ser incrível, nunca me faltou apoio nem carinho. E os meus pais estiveram sempre presentes. E este tempo também foi bom para mim – aprender a estar sozinha, evoluis mais rápido e amadureces, aprendes a contar contigo, a tomar decisões sozinho e a responsabilizares-te por elas. Quando decidi vir, em 2017, foi um choque. Passei de viver sozinha, em que a maior presença do meu dia a dia eram os meus amigos e os meus avós, para vir para um sítio onde finalmente recuperava a minha família, mas sem amigos nem a família completa.

A imigração tem dois lados: o que perdemos e o que ganhamos. Se por um lado a nossa vida financeira fica mais desafogada, por outro a nossa vida pessoal também fica mais vazia. E nesta altura perdem-se aniversários, as conquistas do dia a dia, a rotina e as épocas especiais como o Natal deixam de parecer relevantes. Imigrar ou ter alguém imigrado é ter um vazio seja em que parte for. E custa tanto a quem vai como a quem fica.

Inês Carpinteiro/MS

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