Temas de Capa

A vergonha do privilégio

Sou branca, quase transparente. Caucasiana, chamam-me. Vivi 24 dos meus 28 anos de vida em Portugal, e pelos diferentes sítios que passei, posso dizer que somos, na maioria, grande maioria posso garantir, muito ignorantes no que ao racismo diz respeito. Não temos noção nenhuma, e digo isto sem qualquer dúvida, do que isso é. Primeiro porque, maioritariamente, em Portugal, somos caucasianos. Privilegiados, portanto. E não, não vou dizer que não passamos por dificuldades, sejam elas quais forem, uns mais do que outros, mas somos uns privilegiados e com vergonha digo que não temos noção nenhuma disso.

Sabemos lá nós o que é isso de sair de casa e não ter a certeza se voltamos porque, pura e simplesmente, nascemos brancos. Algum de nós, brancos, tem medo de ser parado pela polícia porque pode acabar morto? Algum de nós, brancos, tem receio que um filho nosso possa ser morto porque, pura e simplesmente, nasceu branco? Parece até absurdo perguntar, não é? Até vir para o continente norte-americano eu não tinha noção nenhuma do que o racismo é. Não digo que não exista em Portugal, porque disso não tenho dúvidas, até porque só pela expressão “mas eu sou preto?” quando “nos” referimos a algo que nos sobrecarrega ou nos faz mal, diz tudo. Tenho amigos meus de raça negra que me dizem, no entanto, que em Portugal não é “tão mau”, apesar de tudo. E, realmente, lá não ouvimos falar da palhaçada – e desculpem lá se o termo é forte, é só pena não puder escrever outro com ainda mais conotação e à norte – que é o abuso da autoridade por parte da polícia. Pelo menos não desta forma que se conhece ser tão desumana aqui pela América, principalmente, e talvez sobretudo, nos Estados Unidos.

Estamos em pleno 2020 e continuamos a assistir, na fila da frente, à desigualdade social entre raças como se nada fosse. Nós, brancos, privilegiados, temos a obrigação de dizer: basta!! Somos nós que somos ouvidos. Está mais do que provado que todas as pessoas de raça negra, diariamente discriminados, já estão a ficar “sem ar” de tanta ajuda pedirem, porque não adianta. Eles continuam a ir fazer o seu exercício pela manhã, numa simples corrida, e a serem mortos a tiro porque “opa é preto, deve ser este que anda aí a roubar os carros”. Eles continuam a ir ver pássaros a um parque e a levar com anormais que não querem ser repreendidos por não terem o cão na trela e, por isso, decidem fazer um escândalo porque um “afro-americano me está a fazer mal”. Ainda há dois dias vi um vídeo de uma miúda com 14 anos a levar porrada dum polícia, forte e feio (nem sei outra forma de escrever isto, sinceramente) no chão – ela até podia ter feito a pior coisa do mundo, mas um homem com quase dois metros, o triplo ou quádruplo do peso dela, não tem forma de a apreender se for o caso? Eu só gostava de poder anexar vídeos a este texto, porque talvez com imagens se entenda o nojo que eu sinto enquanto escrevo isto. Nojo! É uma vergonha! E nós, brancos, temos a obrigação de nos juntarmos a quem já perdeu o ar. A quem continua a viver na incerteza e no medo. Já chega. Ninguém tem que ter medo de viver só porque o tom de pele é outro. Mas afinal o que é isto? O meu filho é o que em inglês se chama um “mixed baby”.

Basicamente é metade branco, metade preto. Vivo, por isso, uma revolta ainda maior, porque sinto agora de forma diferente esta realidade. Não a sinto, na verdade, porque nasci branca, mas estou mais por dentro dela, vá. Com 3 meses de vida do meu filho ouvi comentários sobre a boca dele e o nariz que nunca pensei ouvir numa vida – “É igual ao pai de certeza não é? Só pode. Mas pronto, pelo menos não é muito escuro.” Eu fui criada num mundo de ignorância no que ao racismo diz respeito: sempre soube que existe, mas também sempre fui educada a tratar todos de forma igual, portanto nem nunca me passaria pela cabeça, em momento algum, distinguir alguém por ser preto, amarelo, cinzento, sei lá. Agora chamo-lhe ignorância porque eu realmente não atribuía importância nenhuma a este assunto, já que para mim um amigo meu de raça negra era exatamente igual a um de raça branca. A questão é que nunca parei para pensar, nessa altura, durante a minha infância ou adolescência, que talvez esse meu amigo de raça negra não tivesse um dia a dia tão tranquilo quanto o meu, não faço mesmo ideia – quantos olhares de lado? ; quantas vezes foi posto de lado quando ia jogar futebol com os amigos? não faço ideia, mas quero acreditar muito que ele não passou por isso, quero mesmo. Mas isto para dizer que nem tal coisa me ocorria. E sei que 90% dos meus amigos em Portugal nem tem noção nenhuma do que o racismo realmente é. Provavelmente metade deles são racistas, mas dizem que não. É o costume. “Eu não sou racista, o primo da minha tia é casado com uma senhora que, por sua vez, tem três filhos e um desses filhos tem uma filha que tem um sobrinho negro.” Enfim.

É triste, revoltante, mas muito triste assistir a esta discriminação absurda que nos chega agora de forma mais regular porque temos telemóveis prontos a gravar situações gravíssimas e a fazer com que circulem na internet – nem dá sequer para imaginar o que acontecia antes da tecnologia e da força das redes sociais.

Tenho um filho de raça negra para criar num mundo desumano, desamparado, confuso, racista, racista, racista, discriminatório até dizer chega – mesmo quando o “chega” não basta. O “chega” não tem bastado. Temos que unir as nossas vozes às deles. Cada um de nós deve ser julgado apenas e só pelo que somos, enquanto pessoas, pelos nossos princípios, valores, erros ou crimes, seja o que for, mas nunca, nunca e digo mil vezes nunca, porque nascemos negros. Nunca.

Catarina Balça/MS

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