Temas de Capa

A quarentena e vivendo como gatos

Nessa quarentena comecei a prestar mais atenção na movimentação doméstica: afinal, esse será o nosso único universo por bastante tempo ainda. E,  há alguns dias, parei para observar os meus dois gatos. Aliás, um gato e uma gata: Sean e Sophie. Ele, um gato com um pouco mais de um ano e meio, delicado, reservado, com ápices de carências,  introvertido, come pouco (inclusive plástico, às vezes) e brinca em raros momentos, nada previsível; ela, filhotona, 10 meses, brincalhona, arteira, meio “demônio da tasmânia”, come todos os grãos de ração que vê pela frente como se estivesse respirando. Personalidades opostas mas que, por incrível que pareça, se completam.

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Sean e Sophie 

Os gatos são um tipo de “pet” que têm todo um mistério viciante em torno da sua figura peluda e fofa. Não sei se é o olhar ou o fato deles não se renderem à voz bobinha falando o quanto eles são “cute” – continuo fazendo isso mesmo assim – mas de certo, mesmo os que dizem não gostar de gatos, reconhecem o seu fascinante jeito de ser.

Digo isso porque eu já fui dessas que dizia não gostar da personalidade de “pouco caso” dos gatos. Está sendo a primeira vez que convivo com esses felinos e, desde então, mudei completamente a minha opinião.

Eles se tornam uma espécie de “filho”, principalmente para os casais que ainda não os têm. Se tornam uma companhia e tanto, além de serem a alegria da casa, principalmente para os imigrantes que aqui chegam e se obrigam a ficar mais em casa por conta do inverno rigoroso. São criaturas que nos apoiam quando estamos tristes.  Quantas vezes eu cheguei em casa com a energia lá nos pés e os dois se aprochegaram pedindo carinho e, enquanto os acarinhava, sentia como se estivesse me equilibrando de novo! E agora, esse momento mundialmente difícil que nos pede isolamento social. É uma fase inédita para muita gente, essa convivência forçada e que nos aproxima ainda mais dos nossos pets. Estamos experimentando um pouco do comportamento deles já que vivem em quarentena desde sempre.

Desde que essa medida foi determinada pelos líderes, através das recomendações da OMS, meus gatos me olham como se estivessem perguntando “Você não vai embora, não?”. Agora, quase um mês sem sair de casa, eles já começam a se acostumar com a minha presença constante. E sinto que estão gostando.

Finalmente, tenho matado a minha curiosidade de saber o que eles fazem o dia inteiro. E o que tenho visto é que eles dormem, dormem muito. Agora entendo porque dizem que gatos têm sete vidas e porque vivem tantos anos. Talvez  eles resguardem (ou conservem) muito da sua energia através do sono. Ás vezes, eu acho que eles estão meditando. Começo a ver neles a figura de um monge, um guru, talvez! É engraçado, porque tenho aprendido muito com meus gatos, em como agir nesses tempos sombrios. Em alguns momentos do meu dia, eu fecho os olhos e apenas presto atenção em minha respiração; e barulhos externos, como a descarga de um banheiro ou um bater de martelo no andar de cima, só me ajudam a perceber o momento presente. Se isso não for meditação, eu não sei o que é. E precisamos disso, caro leitor(a), precisamos desses momentos de desligamento, para que assim possamos lidar melhor com essa fase, com menos ansiedade sobre o que será o amanhã. Temos muito a aprender com esses animaizinhos e estamos fazendo isso, mesmo que forçadamente. Estamos nos comportando, inteligentemente, como gatos.

Adriana Marques/MS

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