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A mensagem e os mensageiros

A mensagem e os mensageiros-mundo-mileniostadium
Foto: DR.

 

Ponto prévio – eu sei que vivemos tempos confusos. Mais do que nunca enfrentamos dúvidas, medos, procuramos respostas para o desconhecido e tememos não saber lidar com ele. Procuramos culpados para o desabar do mundo que, neste 2020, resolveu cair em cima das nossas cabeças. Mas…

Aconteceu esta semana em Toronto, mas podia ter sido em qualquer outro canto deste planeta atingido por uma pandemia que mata e dilacera projetos de vida. A revolta de um proprietário de restaurante contra as medidas restritivas impostas pelo governo da província do Ontário, virou mais uma bandeira que movimentos negacionistas resolveram levantar bem alto – os gritos proclamando a fraude quando se fala de Covid-19, complementados com vozes exaltadas contra o uso de máscaras eram acompanhados por gestos cheios de ira, quase diria, ódio.

De repente, o grupo de jornalistas presentes no local, todos de máscara e a cumprirem todas as regras de proteção recomendáveis neste tempo que vivemos, passaram a ser o alvo de tanta raiva. “Criminosos”, “como podem dormir à noite?”, “como podem matar crianças à fome?” e outras frases tão dignificantes como estas, eram vociferadas contra todos os que ali estavam a cumprir a sua missão de informar e até, imagine-se, dar voz às suas teorias de negação de todas as evidências científicas.

Trago-vos esta pequena história da vida real para vos convidar a refletir sobre esta confusão que se gera, de uma forma cada vez mais recorrente, entre a mensagem e o mensageiro. Clarificando… de repente os jornalistas transformam-se num verdadeiro bombo de festa, sempre alvo de críticas exacerbadas – ora por supostamente não darem a relevância devida a determinado assunto, ora por funcionarem como “agentes de propaganda” e, portanto, se transformarem em verdadeiros bonecos articulados, ou comandados por farmacêuticas poderosas, ou por forças políticas mais ou menos ocultas.

Não venham já dizer que estou a defender a minha classe profissional por puro corporativismo. Porquê? Porque não é verdade, garanto-vos. Sou particularmente crítica relativamente a tudo o que temos feito a nós próprios – a desenfreada competição que estimula a falta de escrúpulos, o chamado vale-tudo; a falta de preparação que gera informação pouco ou nada consistente; a cada vez maior cedência perante poderosos interesses económicos e políticos… a lista é quase infindável e tem contribuído de uma maneira muito assertiva para a destruição da imagem de um jornalismo sério e de verdadeiro serviço público. Hoje cada vez menos se associa um jornalista a conceitos/valores, antes tão valiosos, como a credibilidade e isenção.

Tudo isto ajuda a engrandecer o movimento que produz o ruído ensurdecedor da desinformação. Cada vez mais intenso e poderoso. Essa capacidade de propagar as chamadas fake news, que nunca nascem de forma inocente ou não programada, é uma das maiores armas usadas para destruir a nobreza do jornalismo. E todos os que ainda se podem orgulhar de honrar esta profissão, que a encaram muito mais como uma verdadeira missão, sentem-se atingidos sempre que se percebe na redação de uma notícia ou de um artigo, informação tendenciosa. Sentem-se feridos na sua integridade profissional, sempre que se sintam conceitos pré-assumidos na realização de uma reportagem. E tanto, tanto mais…

E depois ainda temos essas verdadeiras colunas amplificadoras de ruído, muito dele gerador de ódios, que são as redes sociais e atrás das quais tantos e tantas aproveitam para manipular a opinião pública a seu belo prazer. E a desinformação espalha-se perigosamente. Contaminando a sociedade que muitas vezes assume as plataformas de media social como verdadeiros órgãos de comunicação, que efetivamente não são.

Os jornalistas, os verdadeiros e respeitadores de uma profissão nobre e ancestral, acabam por ser, em demasiadas circunstâncias, os anunciadores da desgraça, sem culpa pelo facto indiscutível de no mundo de hoje serem muito poucas as notícias agradáveis ou felizes.

Não foram os jornalistas os criadores da pandemia, não são os órgãos de comunicação que determinam as medidas restritivas com vista a impedir o crescimento cada vez mais acentuado de contaminados…, mas são os jornalistas que fazem chegar a mensagem ao mundo, muitas vezes e, inevitavelmente, pintada em tons negros. São mensageiros, não são a própria mensagem. 

O medo da morte propaga-se e atinge todos os níveis da sociedade. Morrem seres humanos e, em tantas circunstâncias, morre o mais elementar bom-senso. Que não morra a essência do jornalismo que visa sempre informar com isenção, verdade e rigor.

Madalena Balça/MS

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