Temas de Capa

A Menina do Casaco Amarelo

“Piscinas de Aveiro 17h de domingo. Parei o carro para comer um gelado, com a minha família, comprado naquele sítio de “comida rápida”. Os gelados são bons, talvez a única coisa dessa marca com sabor. O sabor doce do gelado muda para um “amargo” quando, do nada, aparece uma miúda, muito magra, pálida e rosto de sofrimento. Educadamente pediu para falar. Falou que não comia há muito tempo, que tinha sido despedida e que tinha fome. Pediu comida, não dinheiro. Naquele momento não tínhamos comida para lhe dar. Pensei em comprar-lhe algo para ela enganar o estômago, mas se fui ou não enganado nunca saberei, dei-lhe dinheiro. Ela quase chorou, disse mesmo que seria para comer. O rosto da miúda tocou-me bastante e espelha a miséria que este mundo tem. Todos deviam ter sempre direito a comer “um prato de sopa” e nunca passar fome. Este será o outro lado da pandemia?”.

Este foi o meu post nas redes sociais após ter visto esta pessoa jovem com fome. Sem acesso a cuidados de prevenção, esta rapariga de seu nome Joana anda exposta a tudo e claro ao coronavírus. Com os comércios fechados, a suspensão de projetos sociais e falta de trabalho, conseguir comida fica mais difícil.

A ordem é para a população se fechar em casa. A maior parte atendeu ao apelo das autoridades, mas lá fora andam “muitas Joanas invisíveis à sociedade”. Com tudo fechado desaparecem as esmolas e as ajudas, mas a fome não. E com ela vem o desespero e a magreza extrema. Após aceitar o meu contributo e ajuda, Joana desaparece por entre as ruas de Aveiro. O gelado derreteu, mas a minha consciência ficou em paz.

Depois da primeira ajuda que consegui dar, à noite veio a segunda. Coloquei nas redes sociais o momento que passei. O post afinal revelou que as pessoas conhecem a face de quem habitualmente não é visto.

Dezenas de pessoas comentaram e afirmaram que conhecem a Joana. Li que a fome atravessa a sua história em distintos momentos e que ter comida é uma incerteza com a qual convive diariamente. Ela é uma transeunte diária pelas ruas da cidade a pedir, sentada em becos sempre sozinha com o seu casaco amarelo. “Joana é uma sem-teto bem-educada”, escreveu no meu post uma voluntária que ajuda estas pessoas. Recebi muitas mensagens de anónimos ou até mesmo associações que tentam suavizar as consequências, com distribuição de alimentos e, às vezes, um colo.

Com a frágil presença do Estado e de quem manda na “selva“ onde Joana vive, são os moradores e os super-humanos voluntários, os que se têm mobilizado entre si para ajudar a Joana. “É fácil chegar a uma conclusão: Joana não rouba, raramente pede dinheiro. Quer apenas comida.” – SMS que recebi de alguém que vê todos os dias a menina. Tal como cantava Zeca Afonso, “onde não há pão não há sossego”. E ao contrário do que alguns dos que vão enchendo os bolsos à conta de uma nação a caminho de faminta – nunca podemos dizer que desta água não beberei porque hoje são os outros, mas amanhã podemos ser nós.

Um prato de sopa não se nega a ninguém.

Paulo Perdiz/MS

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