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A ciência e os mitos

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David Marçal, doutorado em Bioquímica e autor e coautor de vários livros, entre eles “Pseudociência” e “Apanhados Pelo Vírus” – este último dedicado aos factos e mitos acerca da Covid-19.

Desde sempre lidámos com mitos e com desinformação. No entanto, estando o mundo a viver a fase crítica que nos preocupa a todos, é agora mais do que nunca importante que a verdade se sobreponha. Que os factos sejam verificados, que as pessoas procurem não comprar mentiras criadas por boatos, tantas vezes, sem fundamento e que, mais vezes ainda, causam danos na sociedade.

David Marçal, doutorado em Bioquímica e autor e coautor de vários livros, entre eles “Pseudociência” e “Apanhados Pelo Vírus” – este último dedicado aos factos e mitos acerca da Covid-19 – aceitou falar com o nosso jornal sobre as teorias da conspiração que envolvem a pandemia e a ciência no geral.

Milénio Stadium: Vivemos uma era em que a informação se espalha a uma velocidade vertiginosa.  A parte menos boa é que a desinformação ou se preferirmos chamar-lhe a informação não fundamentada também é veiculada à mesma velocidade. Que consequências podem daí resultar para o equilíbrio da sociedade mundial?

David Marçal: Carl Sagan, astrónomo e divulgador de ciência, protagonista e autor da série “Cosmos” original, disse numa entrevista nos anos de 1980 que nós vivemos numa sociedade inteiramente baseada na ciência e na tecnologia, mas em que quase ninguém sabe alguma coisa de ciência e tecnologia. E que essa é uma mistura explosiva, que iria acabar por explodir-nos na cara. De uma certa forma é o que está a acontecer, essa mistura está-nos a explodir na cara. As consequências da desinformação são diversas e a escala das suas consequências é difícil de prever. Quanto mais pessoas partilharem disparates, maiores serão.

MS: As teorias da conspiração têm nos grandes acontecimentos mundiais um terreno fértil para se desenvolverem. Por exemplo, a pandemia que estamos a viver tem sido tema para a elaboração de algumas construções de enredos que estão a correr mundo. De tal modo que o David, em parceria com o Físico Carlos Fiolhais, escreveu um livro onde mostra claramente a sua preocupação em separar os factos dos mitos em torno da Covid-19. Sentiu necessidade de combater aquilo a chamou a “infodemia”?

DM: A palavra foi usada pela primeira vez no ano de 2003, pelo cientista político norte-americano David J. Rothkopf, num artigo que escreveu para o Washington Post a propósito da “infodemia” à volta da SARS. Nós sentimos clara necessidade de contrariar a “infodemia” à volta da Covid-19. A situação pandémica é agravada pela “infodemia”, pois as medidas necessárias à sua contenção são postas injustificadamente em causa e por vezes são propostas outras completamente inúteis ou prejudiciais.

MS: Já agora… pode dar-nos exemplos de factos e mitos associados a esta pandemia de Covid-19, ajudando-nos a desmontar algumas das teorias que mais têm impactado a sociedade?

DM: Há vários: a negação da existência, ou da perigosidade do vírus, que minam a adesão da população às medidas preventivas da sua transmissão. As ideias de que ele resulta de uma arma biológica feita num laboratório chinês, ou que a sua transmissão para humanos ocorreu através de uma sopa de morcego na China, são essencialmente sinofóbicas. Houve casos de ataques a pessoas com aspeto asiático em vários países. A hipótese estapafúrdia de que a infeção está associada a redes 5G insere-se numa patética fobia das radiações eletromagnéticas, geralmente propagada usando essas mesmas radiações. A falsidade de que as máscaras faciais reduzem os níveis de oxigénio no sangue faz com que muitos não queiram usá-las, sendo que elas são uma importante medida para conter o vírus. As consequências da irracionalidade e da mentira podem ser, como são neste caso, muito sérias. Quanto mais pessoas embarcarem nesses embustes, mas sérias serão.

MS: Como se geram estas teorias? É o medo associado ao desconhecimento?

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Último livro publicado, “Apanhados Pelo Vírus” de David Marçal.

DM: Essas teorias podem explorar o medo e o desconhecimento. Outras, em vez de explorarem o medo criam uma falsa sensação de segurança, alegando, por exemplo, que a Covid-19 é uma doença inócua. Mas também há interesses egoístas na promoção dessas teorias. No caso dos políticos, para se desresponsabilizarem, colocando a culpa em outrem; ou para desvalorizarem a situação, alegando a existência de um qualquer medicamento milagroso, justificando desse modo a ausência de medidas relevantes. E, claro: no caso das vendedoras de banhas da cobra, para venderem os seus produtos.

MS: Qual é o papel dos media convencionais em situações como estas, já que muitas vezes a desinformação sai muito do seu âmbito, usando mais como veículo de propagação as redes sociais?

DM: O papel é marcarem a diferença, distanciando-se o mais possível da ausência de critério das redes sociais. O papel que os jornalistas têm de verificar os factos é hoje dramaticamente necessário. É a credibilidade do jornalismo que fará com que ele continue a ser necessário num mundo em que a desinformação se propaga de modo descontrolado. Mas a responsabilidade não é só dos jornalistas. As empresas proprietárias dessas redes sociais têm uma enorme responsabilidade e o poder político não lhes deve permitir evadirem-se dessas responsabilidades. Essas empresas lucram com a propagação de desinformação prejudicial à sociedade. E isso não deveria ser admitido. 

MS: Que perigo corre o mundo com o desenvolvimento e disseminação das teorias da conspiração, nomeadamente das mais ligadas à ciência?

DM: A ciência não é tudo, há outras coisas importantes. Mas a ciência é o processo que nós temos para obter o conhecimento que precisamos para viver mais e melhor. E isso tem acontecido. Basta pensar que em Portugal a esperança média de vida duplicou no espaço de um século. Na medicina, na agricultura, nas telecomunicações, não há uma área que não tenha sido marcada pela ciência.  Um mundo em que a ciência tem o papel menor é um mundo pior. E a ciência e a democracia são duas faces da mesma moeda. A ciência precisa da liberdade das sociedades mais abertas para poder prosperar. E as sociedades mais livres precisam da ciência para prevalecer.

MS: O seu livro já aqui referido termina com a palavra esperança – ainda poderemos ter esperança na verdade e na humanidade?

DM: Temos que ter esperança na verdade e na humanidade!

Catarina Balça/MS

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