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A carta improvável!

Esta é uma carta simples e informal, que muito provavelmente nunca seria escrita, sobre coisas que muito provavelmente nunca seriam assunto, sobre uma sociedade que muito provavelmente não é o que queríamos, num mundo que muito provavelmente não é bem o que tínhamos em mente, numa época em que muito provavelmente nunca achámos que uma pandemia afetaria de forma definitiva a maneira como vemos a humanidade. 

É a carta que, muito provavelmente, nunca falaria sobre a forma como a humanidade, mais ou menos unida, lutou  contra uma doença, que não escolhe idade, sexo, religião, raça ou estatuto social; ou sobre a forma como os governos das maioria dos países passaram a assumir, ainda que temporariamente e a serem suportados a longo prazo por empresas e cidadãos, o papel de garante económico da sociedade.

Mas é também a carta que, muito provavelmente, nunca se debruçaria sobre quão supérfluo e vazio parecia ser o estilo de vida até há tão pouco tempo atrás, dando tempo de antena a individualidades egocêntricas, mimadas e egoístas, esquecendo por completo elementos e setores vitais ao funcionamento da sociedade; e que nunca falaria sobre quão insignificante parecem ser hoje os mundos surreais do desporto milionário, dos concertos e espéculos pomposos e de outras atividades de entretenimento que nos iam enchendo a casa carregadas de glamour e encanto enganoso, quando não nos é possível, por exemplo, despedir condignamente de um familiar ou amigo que partiu cedo demais.

Está é a carta que, muito provavelmente, nunca apontaria a ausência completa de líderes e demais sumidades na arte do conforto espiritual, dos mestres da adivinhação ou dos curandeiros de terapêuticas naturais e suas receitas milagrosas, numa época em que se anseia por uma cura e se deveria cultivar a esperança e vontade de vencer; e que nunca falaria sobre como se tornou tão relevante a vida humana, o bem-estar do próximo e de vivermos o momento dando valor ao que realmente tem importância, porque o amanhã pode não existir.

Mas é também a carta que, muito provavelmente, nunca abordaria a importância das liberdades e direitos adquiridos ao longo das últimas décadas; que ousasse tocar no modo desmedido como procuramos a riqueza, o sucesso profissional e o reconhecimento social, sem olhar ao que vamos destruindo pelo caminho; e que falasse sobre quão mesquinhas parecem agora as guerras familiares e as quezílias com colegas de trabalho ou nas comunidades em que estamos inseridos.

É a carta que, muito provavelmente, nunca assinalaria o modo intransigente como defendemos as nossas opiniões, achando-nos donos da razão, diminuindo e desvalorizando quem pensa de forma contrária, tal delito de opinião, e que nunca falaria sobre ajudar o próximo, do valor das relações interpessoais e da importância de um beijo, um abraço ou de um simples “bom dia”.

Esta é também a carta, que muito provavelmente, nunca falaria da importância única que assumem as pessoas que nos rodeiam, ou de como fomos esquecendo os idosos, as pessoas com deficiências e os sem-abrigo, que de repente passaram a estar no centro das nossas preocupações, devido a uma doença que pode castigar particularmente estas franjas desprotegidas da sociedade.

Esta é uma a carta que poderia ser extremamente longa e que, muito provavelmente, não tem quaisquer destinatários ou até leitores, mas quero que seja, acima de tudo, uma carta destinada aos autores da grande quantidade de cartas que se escrevem diariamente no mundo inteiro. Cartas carregadas de sentimento, valor e intenção, que receio correrem o sério risco de se tornar manifestamente improváveis, assim que tudo regresse à “normalidade”.

Enfim, esta é uma carta sobre nós. Uma carta sobre uma mudança necessária no comportamento humano e na sociedade, que… muito provavelmente, nunca irá acontecer!

Carlos Monteiro/MS

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