Temas de Capa

A carreira ou a maternidade

As mulheres continuam a ter de escolher entre ter uma carreira de sucesso e conseguir realizar o sonho da maternidade. No Canadá, por cada dólar que um homem ganha, uma mulher aufere apenas $0.87. O trabalho doméstico continua a não ser valorizado e ainda se espera que seja a mulher a fazê-lo, depois de um dia de trabalho. Afinal, o que é que mudou?

Fomos à procura de respostas junto de uma socióloga da Universidade de Ryerson. E, sem surpresas, Patrizia Albanese também teve de optar entre uma carreira de sucesso e a maternidade.

Milénio Stadium: Hoje temos mulheres com grandes posições em importantes empresas e associações. O Canadá está diferente?
Patrizia Albanese: Essas mulheres continuam a ter salários inferiores aos homens que ocupam posições semelhantes. As mulheres com grandes carreiras, comparadas com os seus colegas do sexo masculino, têm mais educação, são mais jovens e têm menor probabilidade de se casar ou de ter filhos.
Nos Census de 2016, ao comparar os rendimentos de homens e mulheres que estão entre os 1% mais ricos do país, constatamos esta realidade. As mulheres que conseguem ser mães nestas circunstâncias têm menos filhos quando comparadas com os homens.
Nos últimos 25 anos a diferença salarial diminuiu, mas para as mulheres canadianas a diferença salarial persiste. Estatísticas recentes mostram que por cada dólar que um homem ganha, uma mulher recebe apenas $0.87.

MS: Nas eleições federais de 2015 foram eleitas 88 mulheres, mais 14 do que em 2011. A política precisa de mais mulheres?
PA: Acho que nós deveriamos ter as mesmas oportunidades que os homens têm em todas as profissões. Contudo, na realidade, as mulheres continuam a fazer mais trabalhos domésticos do que os homens e constatam que as suas carreiras profissionais são afetadas quando têm um filho porque a sociedade não apoia o suficiente famílias com crianças.
Por outro lado, existem países com realidades diferentes, com cuidados infantis acessíveis, pós-secundário gratuito ou mais económico, melhores apoios sociais para mulheres ou famílias que são cuidadoras, mais tempo fora do trabalho, etc.
Mas podemos até olhar para a realidade canadiana, veja-se o caso do Quebec. Quando introduziram $5 por dia nos cuidados infantis (mais tarde $7), as taxas de emprego das mulheres aumentaram e as taxas de pobreza infantil diminuíram.
Talvez com mais mulheres na política possamos introduzir mais medidas favoráveis à família. No entanto, receio que ter mais mulheres em alguns partidos políticos neste país não vai ajudar em nada. Acho que as mulheres precisam de se unir e concorrer a partidos políticos mais progressistas e lutar por algumas das principais pastas.
No Canadá a maioria das políticas sociais estão sob a jurisdição provincial. O que significa que temos de alterar as políticas em todas as províncias e territórios para começar a ver alterações no país. Mas isto significa também que existem mais batalhas para serem travadas e vencidas.

MS: Qual é o papel da mulher na família e na sociedade?
PA: Apesar das tendências que mostram que alguns homens estão a fazer mais, a maioria das mulheres continua a fazer mais trabalho doméstico e passa mais tempo a cuidar da família. Não tenho de bombardear-vos com estatísticas, olhem para a vossa própria casa. Quem é que faz as tarefas domésticas? Quem é que esperam que faça? Quem é que tem mais tempo livre? Sim, temos assistido a algumas mudanças, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

MS: A maioria dos casais vive asfixiado com o custo da creche.
PA: Se queremos levar a sério a igualdade de género, há muito poucas coisas que precisam de mais atenção do que o cuidado infantil, e a estratégia tem de ser nacional. As creches têm de ser acessíveis e em número suficiente para a procura. A sociedade tem de reconhecer esta importância e recompensar com salários decentes o valor de um bom “cuidado” dos nossos filhos.
O meu trabalho como professora é significativamente mais fácil (e muito mais bem pago) do que o dos meus amigos e familiares que tomam conta de crianças. E eu tenho a impressão de que esses trabalhos são mais importantes porque se trata da consciência social dos cidadãos das próximas gerações.

MS: Para uma mulher não é fácil conciliar a maternidade com um trabalho remunerado.
PA: As mulheres são penalizadas nas carreiras, nos salários e nas pensões. Temos de interromper a nossa vida profissional para criar os nossos filhos. As nossas pensões são inferiores às dos homens e espera-se que possamos sobreviver com elas às vezes até mais anos do que os nossos companheiros. Temos de mudar as nossas atitudes e as nossas políticas.

MS: As mulheres são pressionadas para serem perfeitas?
PA: As mulheres continuam a enfrentar pressões para se adequarem a ideais e padrões de beleza inatingíveis. É muito mais provável encontrarmos homens ricos e mais velhos com mulheres jovens “bonitas” e “perfeitas” nos seus braços do que mulheres mais velhas ricas com jovens “bonitos” e “perfeitos”. Também é verdade que mais homens estão a prestar atenção à sua aparência, mas as expectativas que as mulheres enfrentam são incrivelmente altas e perigosamente inatingíveis. Se perguntarmos a quem nos rodeia, como é que a mulher perfeita se parece, suspeito que ela terá te parecer bem, ser inteligente e reservada, ter um bom trabalho remunerado, ser uma grande mãe e uma esposa carinhosa e generosa. Ou estou errada? Talvez isto seja pedir muito a uma única pessoa.

MS: A Patrizia tem uma grande carreira académica e não tem filhos.
PA: Venho de uma família italiana e chegámos cá em 1975. Tive a sorte de ter o apoio de um companheiro, que mais tarde se tornou marido. Ele ajudou-me muito quando estava a fazer o doutoramento, mas em 2010 infelizmente ele morreu de repente.
Atualmente vivo com outra pessoa mas não temos crianças. O que faz com que tenha oportunidades que muitas das minhas colegas que são mães não têm. Tenho mais rendimentos, posso trabalhar mais horas e posso viajar dentro e fora do país em trabalho. Mas talvez não seja uma sortuda porque as crianças são impressionantes. Mas porque é que temos de escolher entre carreira e família? Vamos refletir cuidadosamente no Dia Internacional da Mulher para que não tenhamos de escolher…

MS: Uma das suas áreas de estudo é a saúde mental dos filhos de imigrantes.
PA: Os meus pais tinham pouca instrução e encontraram trabalhos decentes na manufactura e na construção. Hoje os trabalhos bem pagos da manufatura foram substituidos por part-time. As pessoas ganham menos e têm menos segurança no trabalho. Os filhos dos imigrantes de hoje são muito mais propensos a ter pais que tenham níveis mais altos de educação (até porque os nossos serviços de imigração o exigem) mas empregos menos bem remunerados.
Como criança tinha expectativas de que podia e ia ganhar mais do que os meus pais. Não tenho a certeza se os filhos dos imigrantes de hoje têm as mesmas oportunidades no Canadá do século XXI que eu tive em meados da década de 70. Se isto pode afetar a sua saúde mental? Eu diria que é provável, mas juntos podemos fazer a diferença. Quando votamos temos de fazê-lo pelo progresso e pela igualdade.

Joana Leal

Redes Sociais - Comentários

Tags
Mostrar mais

Artigos relacionados

Back to top button

 

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER

Close
Close