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Uma em (muitos) milhões

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DR.

 

24 de novembro de 2020 – o meu 24º e último dia de isolamento. Depois de ter estado em contacto com um caso positivo também eu fui diagnosticada com esta maldita doença que nos impede de viver – para muitos, literalmente – a nossa vida como gostaríamos, obrigando-nos a adaptar-nos a toda uma nova realidade – sobretudo desafiadora mas também assustadora e intimidante.

Cumpri à risca todas as indicações que me foram sendo dadas pelos diferentes profissionais de saúde que entraram em contacto comigo durante todo este período – é, ao início, uma “onda” de informações que nos deixa um pouco confusos e que acaba por nos aumentar ainda mais a ansiedade. Por outro lado, dá-nos a tranquilidade de saber que temos o apoio necessário e a possibilidade de esclarecermos todas as dúvidas junto de quem, melhor do que ninguém, sabe lidar com a situação.

Tive a sorte de, ainda que impedida de sair à rua, ter a possibilidade de, em casa, poder ir até ao jardim, respirar ar puro, apanhar vitamina D (essencial à vitalidade do nosso corpo), ver as pessoas na rua e pensar para mim mesma que não tardaria em também eu poder abrir os portões e voltar à minha vida normal.

Em relação aos sintomas, felizmente apenas tive aqueles que são considerados ligeiros: dores no corpo (uma dor que, confesso, nunca tinha sentido e que me fez sofrer bastante), que acabaram por passar depois de ter tomado a medicação indicada, e falta de paladar e de olfato. Estes últimos desapareceram como que por magia enquanto jantava e custaram mais a voltar.

E sim, eu também fui daquelas que mordi um limão para me convencer de que realmente tinha perdido o paladar. Confere, perdi mesmo. E que notícia tão triste para quem gosta tanto de comer…

Mais uma vez surgem os pontos de interrogação: vou voltar a sentir sabor? A sentir o cheirinho a bebé da minha sobrinha? 

A esperança veio quando, um dia e já após diversas tentativas, decidi cheirar um frasco de café solúvel. Eureca! Lá estava aquele cheirinho de que tanto gosto (e fiquei a gostar ainda mais) e que quase me trouxe as lágrimas aos olhos! Só cerca de duas semanas depois é que recuperei totalmente estes sentidos.

Mas, se me perguntarem, acho que o que nos faz realmente sofrer é o medo do desconhecido. O “estou infetada, e agora?”, “como será que o meu corpo vai reagir?”, “e o trabalho?”, “e a minha família? Será que os infetei?”. Afinal, estamos a faltar de um vírus mortal. É, sem dúvida, um grande choque e um “acordar” para a realidade.

A energia também decidiu tirar férias durante os primeiros dias de isolamento – e acho que também isso está ligado ao nosso psicológico. Estamos ansiosos, com medo e por isso mesmo só queremos estar numa espécie de “concha”, bem quietinhos, a torcer para que tudo fique bem e passe rápido. A motivação para fazer exercício físico ou pelo menos para me tentar manter minimamente ativa, naturalmente, não era a mesma. Mas também isso passou – há que, como em tudo, dar tempo ao tempo, respirar fundo e seguir em frente.

E quando isso finalmente acontece tornamo-nos invencíveis: abrimos as janelas, deixamos o sol e o ar entrar, ouvimos a nossa música favorita… e lutamos. Porque é assim que tem que ser! Esta é uma “experiência” que nos faz dar ainda mais valor a conceitos que damos como garantidos: a liberdade e, ainda mais importante, a nossa saúde e a nossa vida.

Graças a Deus eu posso contar-vos a minha história, a minha “experiência”. Mas não se esqueçam que muitos não tiveram nem terão a mesma sorte.  Cuidem-se, informem-se e não sejam egoístas e pensem também nos outros. Hoje mais do que nunca, somos um por todos e todos por um.

Inês Barbosa/MS

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