Portugal

O tempo das Festas sem Festa

No passado domingo, dia 31 de maio, telefonei a Miguel Borges, presidente da Câmara do Sardoal, para lhe desejar Feliz Dia de Pentecostes, dia do Primeiro Bodo do Espírito Santo. No Domingo da Trindade, 7 de junho, teria lugar a Festa do Segundo Bodo, a outra data mais significativa destas festas semi-milenárias.

Miguel Borges teve a iniciativa de me convidar, em 2019, para proferir uma palestra no moderno Centro Cultural Gil Vicente, sobre a origem e o significado das Festas do Espírito Santo, que tiveram lugar no fim de semana de 8 e 9 de junho. Além de ficar a conhecer melhor a pitoresca Vila do Sardoal, tive a possibilidade de pesquisar o tema das Festas num contexto em que se está a tentar reavivá-las, e onde as pessoas estão genuinamente interessadas em saber mais sobre elas. No texto do convite que me foi endereçado, resumia-se o historial da Festa no Sardoal desta maneira:

“Esta festa é uma recreação da sua forma original que se realizou pela última vez em Sardoal, em 1935, depois de alguns anos de interregno. Depois disso, em 1995, por iniciativa da Paróquia, da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, da Santa Casa da Misericórdia de Sardoal e de algumas coletividades do concelho, voltou a celebrar-se, ainda que não de uma forma como a vemos descrita anteriormente. (…) Em 1995, voltou-se a realizar, numa iniciativa das mesmas entidades, com uma missa ao ar livre, seguida de Procissão. Neste ano já integraram 10 raparigas vestidas com réplicas das ‘meninas do bodo’. Em 1997, as ‘meninas do bodo’ já foram 20. (…) A partir dessa data, esta festa realizou-se entre 2000 e 2006 e depois 2008. Só depois, em 2015 é que as entidades acima mencionadas retomaram esta festa em forma bienal, que ainda se mantém.”

Em 2019, a Festa foi realizada com toda a pompa e circunstância; pela dinâmica que me foi dado observar, a de 2021 promete ser tão boa ou melhor. Ainda bem que é bienal, porque, por causa da pandemia, todas as festas religiosas foram canceladas este ano, em ambos os lados do oceano.

Como pesquisadora da religiosidade popular, com especial ênfase nas Festas do Espírito Santo, pergunto como as terão vivido os crentes este ano já que estas festas – com a circulação de coroas entre casas de irmãos, acompanhadas da bandeira, onde figura a pomba -, têm uma componente doméstica anual, o que não pareceu ser o caso do Sardoal ou Tomar (a Festa dos Tabuleiros também teve lugar em 2019), promovidas como são pela paróquia e entidades públicas. Ninguém lá vai a coroar, como nos Açores e nas Festas da diáspora, embora possa existir um mordomo, como acontece em Tomar.

No Sardoal, depois da missa campal, são as meninas do Bodo que, vestidas de branco e faixa de cor diferente para cada freguesia, carregam os cestos de pão e flores, dominando o cortejo, num hino à juventude. Ao desfile, não faltaram os jovens vestidos à moda antiga, o pessoal da confraria de opas vermelhas e a banda filarmónica a fechar a procissão. Dirigiram-se todos depois para um telheiro improvisado, onde teve lugar a refeição oferecida à comunidade, embora não tivessem sido servidas Sopas do Espírito Santo.

Nas nossas comunidades, os irmãos açor-canadianos deverão ter-se limitado a fazer circular as coroas entre famílias, com todos os cuidados para evitar o contágio, e a rezar pelo fim da pandemia, em especial pelos idosos, os trabalhadores, e os donos de pequenas empresas e negócios que foram obrigados a fechar as suas portas, por causa do confinamento prolongado. Quando tudo está fora do nosso controlo, a fé na providência divina ajuda os crentes a aguentar estas provações.

Ilda Januario/MS

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