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Como o império do circo ruiu em três meses

Cirque du Soleil pediu insolvência, expondo crise do setor. Em Portugal há já quem dependa do RSI para viver.

O maior império da arte circense ruiu em três meses de pandemia. O Cirque du Soleil, gigante mundial com sede em Montreal, Canadá, pediu insolvência e despediu 3500 trabalhadores. Com 40 espetáculos cancelados em todo o Mundo, a maior companhia de artes performativas do planeta precisa de 150 milhões de euros só para devolver o dinheiro de bilhetes já comprados.

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(FILES) In this file photo taken on October 01, 2019 an Artist performs at a media preview in the all-new Cirque du Soleil production KURIOS – Cabinet of Curiosities in Sydney. – Cirque du Soleil announced on June 29, 2020 it is filing for bankruptcy protection, as the world’s most famous circus troupe seeks to restructure its debt to survive the coronavirus pandemic. (Photo by PETER PARKS / AFP)

A pandemia foi o golpe final numa estrutura que há muito dava sinais de estar enfraquecida. Segundo o jornal espanhol “El País”, a companhia tinha uma dívida de 850 milhões de euros há cinco anos e a quebra de faturação decorrente da covid-19 não lhe deixou alternativas. Mas ainda há alguma esperança.

Esta semana, a companhia anunciou que pediu a proteção judicial contra penhoras e a decisão é tomada depois de amanhã pelo Tribunal Superior do Quebeque. Se for aprovada, fica o caminho aberto para o prometido investimento de 300 milhões de euros dos acionistas, aos quais se soma o empréstimo de 182 milhões do Governo do Quebeque e os 45 milhões que os acionistas injetaram em maio.

Um mês antes da insolvência, Rui Paixão era o palhaço voador que integrava a colossal produção que o Cirque du Soleil apresentava na China. A saída da companhia e o regresso a Portugal já estavam agendados e Rui Paixão voltou um mês antes do desmoronamento do império do circo.

Por cá, Paixão encontrou a arte circense pior do que a deixara e tem um posicionamento muito crítico. No Cirque du Soleil, tinha contrato. Em Portugal, sente-se “marginalizado”.

ARTISTAS A VIVER DO RSI

Saulo Roque, contorcionista há 30 anos, é um dos rostos mais conhecidos do circo nacional. Conhecido como “snake man” do “Got Talent Portugal”, da RTP, está há três meses à espera da resposta do pedido do Rendimento Social de Inserção (RSI). “Todos nós trabalhamos com recibos verdes e eu por acaso tenho descontos feitos, mas não é em Portugal“, explica. “Não há apoios e há muitos a viverem do RSI”.

Apesar de as companhias de circo já estarem autorizadas a trabalhar, as licenças municipais são sucessivamente rejeitadas sem motivo. “O circo em Portugal depende exclusivamente das câmaras”, revela Carlos Carvalho, diretor da Circolândia e presidente da recém-criada Associação Portuguesa de Empresários e Artistas de Circo (APEAC).

Anteontem, a APEAC conseguiu uma dupla vitória. O Governo incluiu todos os trabalhadores independentes do circo na linha de apoio de 34,3 milhões que consta do orçamento suplementar. Cada profissional tem direito a um máximo de 438,81 euros até setembro. “Aplica-se aos profissionais do circo tradicional”, explicou Graça Fonsecaministra da Cultura.

Ao mesmo tempo, a Assembleia da República aprovou um projeto de resolução do PCP que isenta as companhias do Imposto Único de Circulação, simplifica os licenciamentos das câmaras, financia a renovação de material e elimina a divisão entre circo tradicional e contemporâneo.

MAIS

Sem apoios da DGArtes

Os apoios anuais da DGArtes não contemplam os circos tradicionais, apenas os contemporâneos. A discriminação foi alvo de queixa de artistas à ministra da Cultura, que no final do ano passado prometeu mudar a lei. Mas até agora continua igual.

30 circos em Portugal

As companhias circenses de Portugal são geralmente microempresas familiares de cariz regional. O maior é o circo Victor Hugo Cardinali.

Liberais contra

O projeto do PCP de apoio ao circo teve apenas um voto contra, da Iniciativa Liberal. Abstiveram-se o PSCDSPAN e Chega.

JN

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